HELLBOY
Música composta por Marco Beltrami

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 562 2
Lançamento: 2004
Faixas
1. Oct. 7th, 1944
2. Meet Hellboy
3. Main Title
4. Snow Walkers
5. Liz Sherman
6. Fireproof
7. Rooftop Tango
8. Wake Up Dead
9. Evil Doers
10. Kroenen's Lied
11. Father's Funeral
12. Alley Fight
13. Nazis
14. Investigating Liz
15. Abe Sapien
16. Mechanical Mausoleum
17. Soul Sucker
18. Stand by Your Man
19. Hellboy & Liz
20. B.P.R.D.

Duração: 43:57
Cotação:


Comentário de
Ignacio Garrido

 

No que já vem sendo uma colaboração habitual entre diretor e compositor, Guillermo Del Toro e Marco Beltrami novamente se encontraram na adaptação cinematográfica do comic de Mike Mignola sobre o demônio convertido em anti-herói, que combate monstros e várias ameaças ao mundo. Apesar do resultado cinematográfico ter sido um pouco enfraquecido em sua montagem final por cortes e exigências pirotécnicas variadas, a recriação dos personagens, a atmosfera e em especial seu protagonista ficaram excelentes, graças ao bom pulso narrativo e à extraordinária visão cinematográfica de seu diretor.

Precisamente a grande compreensão de Del Toro sobre a música em seus filmes permite que o trabalho de Beltrami transcenda às imagens, transbordando criatividade e mostrando não apenas um talento excepcional para a melodia e o espetáculo orquestral, mas também alcançando com sua dramaticidade, o tempo todo, quotas de intensidade e profundidade emocional que o filme atinge apenas em alguns momentos. Beltrami criou para Hellboy sua melhor trilha sonora sinfônica hollywoodiana tradicional, onde mostra seu talento sem restrições. Algo que o compositor atinge normalmente em filmes europeus ou naqueles cuja temática ou forma de trabalho mais livre e independente gera resultados excepcionais (como sua melhor obra até agora,
I Am Dina), onde não existem os condicionantes habituais da temp-track, o trabalho contra o relógio e outras travas artísticas similares.

A partitura para o filme de Del Toro se mostra sombria, romântica, espetacular, variada e acompanhada em todos os momentos por uma inspirada orquestração. Com certas reminiscências de Danny Elfman (mestre de cerimônias no campo dos seres obscuros e atormentados que acabam sendo mais humanos que os outros) no emprego dos corais de seu início, mas afiançando seu particular estilo, plenamente identificável em faixas de ação mais rotundas como “Fireproof”, Beltrami desata sua veia melódica e envolvente com maravilhosas melodias que sugerem tanto o caráter mítico de um heróe em “Meet Hellboy”, como seu sentimento romântico em “Liz Sherman”.

O grande acerto da composição é seu brilhante tema principal, perfeito para o atípico personagem e absolutamente definidor de seu caráter e intenções, desenvolvido em “Main title” e que aparece pontualmente com magistrais variações, como a executada em “Wake up Dead”. Também os toques cômicos são magníficos e é neles onde o compositor emprega sua habilidade para trocar radicalmente de registro como em “Rooftop Tango”, ou em cortes diegéticos tão surpreendentes como “B.P.R.D.”, passando ao ambiente maligno e quase religioso que outorga o órgão a “Evil Doers”, toda uma mostra de variedade de registros e capacidade camaleônica do compositor.

Entre tudo isso, esta trilha sonora merece ser recordada por nos entregar um desses momentos musicais que indiscutivelmente deveriam passar à posteridade; a faixa “Father's Funeral”, que é uma pequena obra-prima em si mesma, e que sob qualuer aspecto se destaca dentro da obra do autor, uma melodia triste e arrebatadora, solene e comovedora, desenvolvida plenamente e de uma emoção e intensidade dificilmente igualáveis. A partitura a partir deste momento irá transcorrendo entre grandes temas de ação como “Alley fight” e momentos de suspense estupendos como “Nazis”, até o grandioso clímax final, “Stand by Your Man”, onde Beltrami consegue emular seu mestre Jerry Goldsmith na capacidade infinita deste para executar soberbas variações de seu tema principal e convertê-lo aqui em um épico momento heróico que arremata um trabalho ímpar, uma dessas trilhas sonoras obrigatórias na coleção de todo aficionado da música de cinema que mereça esta condição.

Em que pesem as elevadas qualidades da composição, a produção do disco é outra história bem diferente e deixa muito a desejar. A edição discográfica de
Hellboy está desastrosamente gravada com um defeito que afeta sua audição: um pequeno ruído que cresce junto com o aumento do som, de forma que quando a intensidade da execução ou volume da música sobem ele aumenta também, sendo especialmente notável na segunda faixa do disco, ao começar a interpretação do coral na sublime melodia. Ante tal inconveniente, o jeito é resignar-se e tentar desfrutar da música tentando esquecer o contínuo mal estar produzido pelo problema, ou buscar o caminho alternativo de conseguir de algum modo a edição completa da partitura, com som perfeito e fantásticas passagens inéditas.

CDs COMENTADOS