|
Hellboy
foi com certeza o filme de super-herói de que eu mais gostei
em todos os tempos, perdendo só para os dois Batmans de Tim
Burton. A princípio, achei injusto Del Toro ter tirado o
cargo de compositor de Marco Beltrami e ter dado para
Danny Elfman
em Hellboy II: O Exercito Dourado. Tenho que
reconhecer, no entanto, que o resultado foi muito superior a
qualquer coisa que Beltrami pudesse compor, o que evidência
que a escolha foi perfeita. Elfman é sem dúvidas o
compositor com mais experiência em compor para filmes de
super-heróis em Hollywood, ainda mais quando a temática é
sombria. Hellboy II é mais sombrio que o primeiro, e
acentua mais ainda a questão da fantasia. Esta nova incursão
de Del Toro tem até um certo ar de magia à la Harry
Potter (principalmente na cena do Mercado dos Trolls).
Em 2008 a agenda de Elfman tem estado um tanto quando
agitada. Até agora já foram três trilhas – Standard
Operation Procedure,
Wanted
e Hellboy II – e ainda o novo ballet de
Twyla Tharp “Rabbit and Rogue”, sendo essa a segunda peça de
longa duração não filmíca de Elfman (a primeira foi
“Serenada Schizophrana”, que aliás é uma obra excelente). O
mais incrível é que apesar da alta demanda, Elfman não
deixou a qualidade das trilhas cair. É claro que
eventualmente alguns trabalhos são mais inspirados que
outros. Mesmo assim, até a trilha de Wanted, apesar
de ser a mais fraca dessa safra de 2008, é extremamente
agradável para audição isolada, além de cumprir seu papel no
filme. Já Hellboy II é uma daquelas trilhas que há
muito tempo não se ouvia em filmes do gênero. Elfman coloca
aquela mesma essência gótica, sombria e
melancólico-reflexiva que trabalhos com Tim Burton, como
Edward Mãos de Tesoura, Scrooged,
Batman
e Darkman tiveram. A orquestra está presente do
começo ao fim, e isso já traz muitos pontos para o
compositor.
Uma tendência que vem sistematicamente se tornando mais
comum é que compositores como
Hans Zimmer
alegam estar fugindo do estilo mais erudito de compor
trilhas (com fanfarras e grandes temas orquestrais),
buscando uma aproximação mais contemporânea, já que isso
proporciona uma maior originalidade às trilhas. O que temos
como resultado são temas simplórios que relegam a orquestra
a um segundo plano – isso quando chegam a colocar uma
orquestra como elemento na trilha, pois muitas vezes isso
nem acontece - enquanto trazem elementos mais eletrônicos e
pop como foco principal. Muitos compositores tem
intitulado suas trilhas de minimalistas, o que na minha
opinião é apenas uma tática para contrapor as críticas e
tentar justificar a falta de criatividade, assim como a
mediocridade de suas composições. Dizer que é minimalista é
extremamente conveniente hoje em dia, já que há uma corrente
artística que diz que “menos é mais”, ou seja, que às vezes
pouca informação traduz com muito mais vigor a intenção e a
percepção do artista. Assim fica fácil, o sujeito compõe uma
trilha de 90 minutos com apenas um acorde, diz que é
minimalista e tudo fica numa boa. Se duvidar ele até ganha
Oscar, e quem mais sai prejudicado é o espectador, que
desejou do fundo do coração ver seu herói favorito aparecer
nas telas de cinema ao som de um tema aventuresco, forte e
marcante, mas teve que se contentar com um simples
motivozinho de duas ou três notas. Penso que devemos ser
mais rigorosos, e não engolir tudo que é composição que
aparece por ai. Competência não se prova com discursos
transcendentais sobre arte, mas sim com obras consistentes.
Mas, voltando ao assunto das trilhas de super-heróis e à
falta de temas principais e orquestrações...
Iron Man
e
The Incredible Hulk são exemplos recentes, mas se
analisarmos filmes de um passado próximo (ou nem tanto) como
Catwoman,
Elektra,
Spawn,
Daredevil, The Crow, Ultraviolet e
Ghost
Rider, apenas um ou outro tem um tema marcante -
aliás, apenas alguns destes filmes têm um tema principal. O
uso da orquestra na grande maioria destes filmes não é o
foco principal. Se bem me lembro, um dos filmes que possui o
tema principal mais definido é Daredevil, e ainda
assim é um tema também “minimalista” e exageradamente
melancólico, que não combina com o caráter aventuresco e
corajoso do filme. Essa textura mais dramática seria
necessária em alguns momentos, com toda certeza, já que o
personagem principal Matt Murdock, interpretado por Ben
Affleck, é uma pessoa sofrida, cheia de marcas do passado.
Um tema mais sombrio, gótico e mais valente representaria
melhor o herói e valorizaria a fotografia dark do
filme.
Constantine, pelo que me lembro, é um dos poucos
filmes que teve uma trilha extremamente marcante e
orquestral, mesmo não tendo sido composta por Elfman. Brian
Tyler e Klaus Badelt trabalharam juntos para conceber essa
magnífica partitura. A trilha atende à todas necessidades do
filme e, apesar de não ter um tema principal, é bem
penetrante.
Na minha concepção a música de cinema é descendente direta
das Óperas Wagnerianas, e dos poemas sinfônicos de forma
geral, e sendo assim deve ser primariamente orquestral.
Analisando a questão sob este prisma, ouvir uma trilha como
essa de Hellboy II, onde o estilo romântico de
composição está tão evidente, é extremamente prazeroso e dá
até um sentimento de satisfação. Você ouviu o que realmente
esperava ouvir, uma orquestra vigorosa, tocando temas fortes
e mágicos. Uma breve crítica seria em relação à ausência
daquele TEMA. Obviamente, há um tema principal, que aliás é
bem interessante e facilmente identificável na trilha quando
esta é ouvida isoladamente. Durante o filme, no entanto,
esse tema principal não teve aparições tão claras. Penso que
ele poderia ter sido um pouco mais desenvolvido, e talvez um
pouco mais “cantabile” (termo usado na música erudita para
descrever uma melodia que pode facilmente ser cantada ou
assobiada). Tirando esse aspecto, a trilha é muito bem
elaborada, com orquestrações bem ao estilo Elfman, mesclando
Korngold,
Holst, Tchaikovsky, Prokofiev e é claro seu preferido de
todos os tempos,
Herrmann.
“Introduction” abre o disco de forma bem semelhante às
faixas iniciais da trilha de Marco Beltrami para Hellboy,
principalmente a segunda faixa “Meet Hellboy”. Inclusive,
tanto “Meet Hellboy” de Beltrami” quanto “Introduction” de
Elfman, iniciam com harpa e percussão cromática (no caso de
Beltrami o vibrafone, e Elfman a celesta). Misteriosas, elas
vão crescendo para um clima mais denso. Em suma, a fórmula
das duas faixas é muito parecida. As semelhanças entra as
duas trilhas, entretanto, param por aqui.
“Hellboy II Titles” é uma faixa forte, que traz algumas
marcas registradas claras de Danny Elfman, e aliás isso é
uma das coisas que adoro no Elfman, ele conseguiu criar seu
próprio estilo de forma muito forte. Ele tem seus próprios
clichês. Essa faixa, apesar de simples e de apresentar um
motivo igualmente simples é a minha preferida da trilha. Aos
29 segundos a música começa a crescer para o momento onde há
a entrada da percussão, e a partir deste ponto a faixa
lembra bastante a trilha de A Fantástica Fábrica de
Chocolate, inclusive aos 48 segundos ele usa uma
passagem com os mesmos intervalos harmônicos do motivo
principal daquela.
“The Auction House” tem um tom sombrio, e algo que me lembra
os momentos mais misteriosos da trilha de
Irmãos
Grimm, por Dario Marianelli. É até engraçado fazer
essa comparação, pois é quase o mesmo que dizer que Elfman
imitou a si mesmo, uma vez que Marianelli fez referências a
Elfman (aos 5:43 de “Forest Comes to Life”, os padrões de
arpeggios nas madeiras, apenas um exemplo de clichê
“Elfmanesco” presente na trilha). Inclusive em uma faixa ou
outra têm passagens que parecem até recortes de Elfman. É
muito óbivo que Dario Marianelli tem uma personalidade
musical muito própria, uma estilística única, e em hipótese
alguma chamo ele de plagiador. Ao contrário disso, penso que
ele, através de diversas influências, foi criando seu
próprio estilo.
“Hallway Cruise” é mais sapeca, madeiras, harpa e
pizzicatos vão construindo a atmosfera, em seguida entra
um clima mais jazz que lembra a trilha de Christopher
Young para The Man Who Knew Too Little, protagonizado
por Bill Murray, com levadas de chipô na bateria, vibraphone.
Já “Where Fairies Well” é sombria, começando mais lenta e
vai crescendo em ritmo e textura, terminando em clima tenso
e pesado. Notas de contrabaixo bem graves, pelo que parece
dobradas pelo contra-fagote, abrem a faixa. Harpa e violinos
vão tecendo uma atmosfera de suspense. Aos 42 segundos o
motivo tocado pelos violinos em tremolo e con
sordino, me lembram um pouco Christopher Young nos anos
1980 com trilhas como Power e Hellraiser. A
celesta entra aos 1:24 e toca uma frase que cria um clima
mágico e ao mesmo tempo tenso. Aqui a faixa começa a mudar
de caráter. Em seguida, aos 1:36, a celesta repete a mesma
frase, que aliás vai aparecer outras vezes na faixa,
variando um pouco, o que cria uma textura que vai evoluindo
para um ritmo bem marcado (típico de Elfman), a celesta faz
algumas aparições e então o coral de crianças entra no
melhor estilo gótico, assim como em Edward Mãos de
Tesoura e Scrooged. Pena Elfman não ter investido
mais nesse tema de coral durante a trilha toda.
“A Troll Market” é a faixa para a cena do Mercado dos Trolls,
um dos momentos mais altos do filme. É uma mistura de Beco
Diagonal, Travessa do Tranco de Harry Potter. A faixa
começa bem tensa, e aos 30 segundos vira uma mistura de
estilos: uma levada rítmica mais asiática com flauta e
triângulo, que lembra um pouco música cigana. A orquestra
segue densa, e ainda temos a adição de uma cantora lírica, o
que dá um ar fantasmagórico. Em “A Dilemma”, eu poderia
apostar que para essa faixa Del Toro usou uma temp track
(faixas temporárias escolhidas pelo diretor para guiar o
compositor e/ou servir de inspiração) de
James Newton
Howard, uma vez que a linguagem, em geral, lembra muito
o compositor, e no final Elfman usa até padrões de harmonia
muito parecidos. Por sua vez “In The Army Chamber” é uma
faixa com momentos de exaltação e grandiosidade, para a cena
em que eles adentram a câmara do exército dourado. Há nessa
faixa a menção ao tema presente em “Hellboy II Titles”.
“Finale” é uma faixa misteriosa que contém um apanhado de
diversos momentos da trilha. Ela inicia sombria, e cresce
para um momento de exaltação. Em seguida um clima mais
meloso e dramático toma conta, típico de trilha de final de
filme. Novamente há ecos de Edward Mãos de Tesoura, e
também algo que me lembra o tema de amor entre Drácula e
Mina em
Bram Stoker's Dracula de Wojciech Kilar,
principalmente a passagem com cromatismo de trompas aos
2:35. O drama toma conta de quase toda faixa. O tema
principal entra rapidamente para finalizá-la. Alguns
segundos após a explosão orquestral continue escutando a
faixa, pois o que temos aqui é uma bonus track
secreta. A faixa é bem experimental, um estilo árabe com
elementos eletrônicos. A qualidade, no entanto, é
degradante. Parece até som MIDI daqueles teclados baratos.
Acredito que a intenção era essa mesmo, pois o CD todo tem
uma qualidade excelentíssima de mixagem e finalização. Fica
a dúvida do porquê Elfman quis colocar essa faixa surpresa
com uma qualidade sonora tão ruim (provavelmente um demo
para Del Toro), já que em termos de composição é bem
interessante.
Hellboy II
é uma trilha que veio para nutrir a esperança de um Elfman
mais consistente, como nos velhos tempos de Batman e
Dick Tracy. Essa trilha vai para a minha coleção
pessoal, com toda certeza!! Por ser uma obra orquestral e no
melhor estilo do compositor ganha praticamente a nota
máxima, tendo apenas um desconto de meia estrela por não ter
exposto de forma mais clara durante a trilha o tema
principal. |