HELLBOY II: THE GOLDEN ARMY
Música composta por Danny Elfman

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo:
302 066 910 2
Lançamento: 2008
Faixas

1. Introduction
2. Hellboy II Titles
3. Training
4. The Auction House
5. Hallway Cruise
6. Where Fairies Dwell
7. Teleplasty
8. Mein Herring
9. Father And Son
10. A Link
11. A Troll Market
12. Market Troubles
13. A Big Decision
14. The Last Elemental
15. The Spear
16. A Dilemma
17. Doorway (Danny Elfman, Halli Cauthery)
18. A Choice
19. In The Army Chamber
20. Finale


Duração: 57:15
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Hellboy foi com certeza o filme de super-herói de que eu mais gostei em todos os tempos, perdendo só para os dois Batmans de Tim Burton. A princípio, achei injusto Del Toro ter tirado o cargo de compositor de Marco Beltrami e ter dado para Danny Elfman em Hellboy II: O Exercito Dourado. Tenho que reconhecer, no entanto, que o resultado foi muito superior a qualquer coisa que Beltrami pudesse compor, o que evidência que a escolha foi perfeita. Elfman é sem dúvidas o compositor com mais experiência em compor para filmes de super-heróis em Hollywood, ainda mais quando a temática é sombria. Hellboy II é mais sombrio que o primeiro, e acentua mais ainda a questão da fantasia. Esta nova incursão de Del Toro tem até um certo ar de magia à la Harry Potter (principalmente na cena do Mercado dos Trolls).

Em 2008 a agenda de Elfman tem estado um tanto quando agitada. Até agora já foram três trilhas – Standard Operation Procedure, Wanted e Hellboy II – e ainda o novo ballet de Twyla Tharp “Rabbit and Rogue”, sendo essa a segunda peça de longa duração não filmíca de Elfman (a primeira foi “Serenada Schizophrana”, que aliás é uma obra excelente). O mais incrível é que apesar da alta demanda, Elfman não deixou a qualidade das trilhas cair. É claro que eventualmente alguns trabalhos são mais inspirados que outros. Mesmo assim, até a trilha de Wanted, apesar de ser a mais fraca dessa safra de 2008, é extremamente agradável para audição isolada, além de cumprir seu papel no filme. Já Hellboy II é uma daquelas trilhas que há muito tempo não se ouvia em filmes do gênero. Elfman coloca aquela mesma essência gótica, sombria e melancólico-reflexiva que trabalhos com Tim Burton, como Edward Mãos de Tesoura, Scrooged, Batman e Darkman tiveram. A orquestra está presente do começo ao fim, e isso já traz muitos pontos para o compositor.

Uma tendência que vem sistematicamente se tornando mais comum é que compositores como Hans Zimmer alegam estar fugindo do estilo mais erudito de compor trilhas (com fanfarras e grandes temas orquestrais), buscando uma aproximação mais contemporânea, já que isso proporciona uma maior originalidade às trilhas. O que temos como resultado são temas simplórios que relegam a orquestra a um segundo plano – isso quando chegam a colocar uma orquestra como elemento na trilha, pois muitas vezes isso nem acontece - enquanto trazem elementos mais eletrônicos e pop como foco principal. Muitos compositores tem intitulado suas trilhas de minimalistas, o que na minha opinião é apenas uma tática para contrapor as críticas e tentar justificar a falta de criatividade, assim como a mediocridade de suas composições. Dizer que é minimalista é extremamente conveniente hoje em dia, já que há uma corrente artística que diz que “menos é mais”, ou seja, que às vezes pouca informação traduz com muito mais vigor a intenção e a percepção do artista. Assim fica fácil, o sujeito compõe uma trilha de 90 minutos com apenas um acorde, diz que é minimalista e tudo fica numa boa. Se duvidar ele até ganha Oscar, e quem mais sai prejudicado é o espectador, que desejou do fundo do coração ver seu herói favorito aparecer nas telas de cinema ao som de um tema aventuresco, forte e marcante, mas teve que se contentar com um simples motivozinho de duas ou três notas. Penso que devemos ser mais rigorosos, e não engolir tudo que é composição que aparece por ai. Competência não se prova com discursos transcendentais sobre arte, mas sim com obras consistentes.

Mas, voltando ao assunto das trilhas de super-heróis e à falta de temas principais e orquestrações... Iron Man e The Incredible Hulk são exemplos recentes, mas se analisarmos filmes de um passado próximo (ou nem tanto) como Catwoman, Elektra, Spawn, Daredevil, The Crow, Ultraviolet e Ghost Rider, apenas um ou outro tem um tema marcante - aliás, apenas alguns destes filmes têm um tema principal. O uso da orquestra na grande maioria destes filmes não é o foco principal. Se bem me lembro, um dos filmes que possui o tema principal mais definido é Daredevil, e ainda assim é um tema também “minimalista” e exageradamente melancólico, que não combina com o caráter aventuresco e corajoso do filme. Essa textura mais dramática seria necessária em alguns momentos, com toda certeza, já que o personagem principal Matt Murdock, interpretado por Ben Affleck, é uma pessoa sofrida, cheia de marcas do passado. Um tema mais sombrio, gótico e mais valente representaria melhor o herói e valorizaria a fotografia dark do filme. Constantine, pelo que me lembro, é um dos poucos filmes que teve uma trilha extremamente marcante e orquestral, mesmo não tendo sido composta por Elfman. Brian Tyler e Klaus Badelt trabalharam juntos para conceber essa magnífica partitura. A trilha atende à todas necessidades do filme e, apesar de não ter um tema principal, é bem penetrante.

Na minha concepção a música de cinema é descendente direta das Óperas Wagnerianas, e dos poemas sinfônicos de forma geral, e sendo assim deve ser primariamente orquestral. Analisando a questão sob este prisma, ouvir uma trilha como essa de Hellboy II, onde o estilo romântico de composição está tão evidente, é extremamente prazeroso e dá até um sentimento de satisfação. Você ouviu o que realmente esperava ouvir, uma orquestra vigorosa, tocando temas fortes e mágicos. Uma breve crítica seria em relação à ausência daquele TEMA. Obviamente, há um tema principal, que aliás é bem interessante e facilmente identificável na trilha quando esta é ouvida isoladamente. Durante o filme, no entanto, esse tema principal não teve aparições tão claras. Penso que ele poderia ter sido um pouco mais desenvolvido, e talvez um pouco mais “cantabile” (termo usado na música erudita para descrever uma melodia que pode facilmente ser cantada ou assobiada). Tirando esse aspecto, a trilha é muito bem elaborada, com orquestrações bem ao estilo Elfman, mesclando Korngold, Holst, Tchaikovsky, Prokofiev e é claro seu preferido de todos os tempos, Herrmann.

“Introduction” abre o disco de forma bem semelhante às faixas iniciais da trilha de Marco Beltrami para Hellboy, principalmente a segunda faixa “Meet Hellboy”. Inclusive, tanto “Meet Hellboy” de Beltrami” quanto “Introduction” de Elfman, iniciam com harpa e percussão cromática (no caso de Beltrami o vibrafone, e Elfman a celesta). Misteriosas, elas vão crescendo para um clima mais denso. Em suma, a fórmula das duas faixas é muito parecida. As semelhanças entra as duas trilhas, entretanto, param por aqui.

“Hellboy II Titles” é uma faixa forte, que traz algumas marcas registradas claras de Danny Elfman, e aliás isso é uma das coisas que adoro no Elfman, ele conseguiu criar seu próprio estilo de forma muito forte. Ele tem seus próprios clichês. Essa faixa, apesar de simples e de apresentar um motivo igualmente simples é a minha preferida da trilha. Aos 29 segundos a música começa a crescer para o momento onde há a entrada da percussão, e a partir deste ponto a faixa lembra bastante a trilha de A Fantástica Fábrica de Chocolate, inclusive aos 48 segundos ele usa uma passagem com os mesmos intervalos harmônicos do motivo principal daquela.

“The Auction House” tem um tom sombrio, e algo que me lembra os momentos mais misteriosos da trilha de Irmãos Grimm, por Dario Marianelli. É até engraçado fazer essa comparação, pois é quase o mesmo que dizer que Elfman imitou a si mesmo, uma vez que Marianelli fez referências a Elfman (aos 5:43 de “Forest Comes to Life”, os padrões de arpeggios nas madeiras, apenas um exemplo de clichê “Elfmanesco” presente na trilha). Inclusive em uma faixa ou outra têm passagens que parecem até recortes de Elfman. É muito óbivo que Dario Marianelli tem uma personalidade musical muito própria, uma estilística única, e em hipótese alguma chamo ele de plagiador. Ao contrário disso, penso que ele, através de diversas influências, foi criando seu próprio estilo.

“Hallway Cruise” é mais sapeca, madeiras, harpa e pizzicatos vão construindo a atmosfera, em seguida entra um clima mais jazz que lembra a trilha de Christopher Young para The Man Who Knew Too Little, protagonizado por Bill Murray, com levadas de chipô na bateria, vibraphone. Já “Where Fairies Well” é sombria, começando mais lenta e vai crescendo em ritmo e textura, terminando em clima tenso e pesado. Notas de contrabaixo bem graves, pelo que parece dobradas pelo contra-fagote, abrem a faixa. Harpa e violinos vão tecendo uma atmosfera de suspense. Aos 42 segundos o motivo tocado pelos violinos em tremolo e con sordino, me lembram um pouco Christopher Young nos anos 1980 com trilhas como Power e Hellraiser. A celesta entra aos 1:24 e toca uma frase que cria um clima mágico e ao mesmo tempo tenso. Aqui a faixa começa a mudar de caráter. Em seguida, aos 1:36, a celesta repete a mesma frase, que aliás vai aparecer outras vezes na faixa, variando um pouco, o que cria uma textura que vai evoluindo para um ritmo bem marcado (típico de Elfman), a celesta faz algumas aparições e então o coral de crianças entra no melhor estilo gótico, assim como em Edward Mãos de Tesoura e Scrooged. Pena Elfman não ter investido mais nesse tema de coral durante a trilha toda.

“A Troll Market” é a faixa para a cena do Mercado dos Trolls, um dos momentos mais altos do filme. É uma mistura de Beco Diagonal, Travessa do Tranco de Harry Potter. A faixa começa bem tensa, e aos 30 segundos vira uma mistura de estilos: uma levada rítmica mais asiática com flauta e triângulo, que lembra um pouco música cigana. A orquestra segue densa, e ainda temos a adição de uma cantora lírica, o que dá um ar fantasmagórico. Em “A Dilemma”, eu poderia apostar que para essa faixa Del Toro usou uma temp track (faixas temporárias escolhidas pelo diretor para guiar o compositor e/ou servir de inspiração) de James Newton Howard, uma vez que a linguagem, em geral, lembra muito o compositor, e no final Elfman usa até padrões de harmonia muito parecidos. Por sua vez “In The Army Chamber” é uma faixa com momentos de exaltação e grandiosidade, para a cena em que eles adentram a câmara do exército dourado. Há nessa faixa a menção ao tema presente em “Hellboy II Titles”.

“Finale” é uma faixa misteriosa que contém um apanhado de diversos momentos da trilha. Ela inicia sombria, e cresce para um momento de exaltação. Em seguida um clima mais meloso e dramático toma conta, típico de trilha de final de filme. Novamente há ecos de Edward Mãos de Tesoura, e também algo que me lembra o tema de amor entre Drácula e Mina em Bram Stoker's Dracula de Wojciech Kilar, principalmente a passagem com cromatismo de trompas aos 2:35. O drama toma conta de quase toda faixa. O tema principal entra rapidamente para finalizá-la. Alguns segundos após a explosão orquestral continue escutando a faixa, pois o que temos aqui é uma bonus track secreta. A faixa é bem experimental, um estilo árabe com elementos eletrônicos. A qualidade, no entanto, é degradante. Parece até som MIDI daqueles teclados baratos. Acredito que a intenção era essa mesmo, pois o CD todo tem uma qualidade excelentíssima de mixagem e finalização. Fica a dúvida do porquê Elfman quis colocar essa faixa surpresa com uma qualidade sonora tão ruim (provavelmente um demo para Del Toro), já que em termos de composição é bem interessante.

Hellboy II é uma trilha que veio para nutrir a esperança de um Elfman mais consistente, como nos velhos tempos de Batman e Dick Tracy. Essa trilha vai para a minha coleção pessoal, com toda certeza!! Por ser uma obra orquestral e no melhor estilo do compositor ganha praticamente a nota máxima, tendo apenas um desconto de meia estrela por não ter exposto de forma mais clara durante a trilha o tema principal.

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