THE HOLIDAY
Música composta e regida por Hans Zimmer

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 784 2
Lançamento: 2006
Faixas

1. Maestro
2. Iris and Jasper
3. Kayak for One
4. Zero
5. Dream Kitchen
6. Seperate Vacations
7. Anything Can Happen
8. Light My Fire
9. Definetly Unexpected
10. If I Wanted To Call You
11. Roadside Rhapsody
12. Busy Guy
13. For Nancy
14. Its Complicated
15. Kiss Goodbye
16. Verso e Prosa
17. Meu Passado
18. The "Cowch"
19. Three Musketeers
20. Christmas Surprise
21. Gumption
22. Cry


Duração: 48:23
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

Com apenas 12 anos um menino chamado Hans Zimmer ouvia ensimesmado a voz de Edda del Orso. Como seu cálido lamento ia crescendo com as cordas, enquanto o travelling da câmera mostrava uma triste Claudia Cardinalle afastando-se da estação de trem. Era uma Vez na América e Ennio Morricone marcaram a vida do jovem alemão, que sem saber naquele momento, anos depois provocaria o mesmo efeito em outros jovens e futuros compositores. É o ciclo da vida, que ele tão bem conhece desde que ganhou seu único Oscar®.

A admiração de Zimmer pelo Maestro italiano é diretamente proporcional às críticas que tanto um como o outro receberam em suas respectivas épocas pela inovação de sua proposta. Uma admiração convertida em amizade, curiosamente desde que Zimmer ofereceu a Andrea Morricone um estúdio na Media Ventures. Ser amigo de seu ídolo não é nada fácil. Há poucos afortunados neste mundo, e Zimmer é um deles, ainda que não o único.

Aproveitando que a diretora Nancy Meyers estava em plena construção de personagens de sua nova comédia romântica, Zimmer decidiu aportar algo mais que idéias. O personagem de Jack Black, compositor de música de cinema que Meyers introduziu na trama tomando como referência Ramin Djawadi, jovem colaborador de Zimmer, é um dos principais atrativos desta divertida comédia de fim de ano. Roteiro ágil, rostos conhecidos (Jude Law, Kate Winslet, Cameron Diaz), boa ambientação… mas sobretudo a homenagem contínua ao labor do compositor cinematográfico. É aí onde Zimmer decide expor seu ponto de vista, e onde Meyers opta por desenhar o personagem tomando como referência um Zimmer pré-Rain Man. Desconhecido e com ambição de triunfar. Apaixonado, mas inseguro. Amante de Morricone (escuta Cinema Paradiso no carro, eleva A Missão à oitava potência), e fervoroso defensor desta arte (a cena da vídeolocadora não tem preço).

A homenagem não se limita aos diálogos. A primeira faixa do CD en titulada “Maestro”, é toda uma declaração de intenções, outro ao legado do italiano. A música é primeiro diégetica, para logo converter-se em incidental. Deixa de ser interpretada por Jack Black em seu teclado musicando outro filme, para transformar-se no leitmotiv principal do score. Um precioso tema para piano, cordas, guitarra, e vibrantes e frescos crescendos, marca da casa. Atenção à semelhança das quatro primeiras notas com o famoso tema de amor de Morricone para Era Uma vez na América. Um motivo posteriormente desenvolvido, com um corte mais íntimo, em “Iris and Jasper”. Amor impossível, amor não correspondido. Merecedor de aplausos o arranjo que passa de oboé em seu arranque à guitarra acústica ao final.

“Kayak for One” é uma plácida aproximação com a bossa nova de Sérgio Mendes. Um tema extrovertido e vivaz como a personagem de Cameron Diaz, onde se nota a mão do brasileiro Heitor Pereira. Encontramos uma nova proposta temática em “Zero”, música onde as referências ao Williams de O Terminal ou Turista Acidental são evidentes. Também convém deter-se em “Dream Kitchen”, outro divertimento em consonância com “Kayak for One”. Guitarra, marimba se acoplam aos preciosistas arranjos orquestrais de Zimmer. Convém destacar também os ares de “Minor Swing” de “Light my Fire”, as interessantes transições de “Definitely Unexpected” ou “Busy Guy”, nde destaca o ritmo sincopado e a presença dos diferentes motivos principais. Chegamos a “If I Wanted I Call You”, onde de novo faz presença o tema de amor, em uma de suas versões mais contidas e tristes.

Como também fizera o Maestro Morricone em seus discos, Hans dedica um tema à diretora, “For Nancy”. Uma variante do tema central, uma bossa nova light realmente agradável, onde escutamos interessantes arranjos vocais a cargo da mulher do compositor, Suzanne e Imohen Heap. Estes terão maior presença em “Kiss Goodbye”, como complemento a uma emocionante variação do tema central, e certamente em “Verso e Prosa” e “Meu Passado”, com a bossa nova sendo mais uma vez protagonista.

Estamos chegando ao clímax do filme, e Zimmer se torna mais introspectivo e íntimo em faixas como “The Cowch”, “Three Musketeers” ou “Christmas Surprise” onde somente no fim se adivinha um final positivo. Já desenvolvido sem pudor em “Gumption” e “Cry”, retomando as diretrizes de “Maestro”. O sentido do ritmo, os arranjos para guitarra, a correta inserção da orquestra, o toque pop rock. É toda uma declaração de bom gosto, mais uma prova do talento de um compositor claro e diáfano em suas exposições.

Fica consagrada a soução de Zimmer neste tipo de trabalhos. Sempre novo e sensível, também menos arriscado, mas de vez em quando especialmente emocionante, como ocorreu há alguns anos com Espanglês, uma que possui semelhanças com este O Amor não tira Férias. Talvez um trabalho mais disperso que o score para a película de James L.Brooks, mas ainda assim uma proposta muito acima da medíocre média deste ano. Ainda que tampouco devamos esquecer outra referência muito próxima: The Weather Man. Score que passou quase desapercebido, e onde o alemão introduz uma série de idéias quanto a ritmo, timbre e melodia, que certamente seguirá aperfeiçoando nos próximos anos. Este é o primeiro exemplo.

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