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Novo filme, nova direção, novo elenco e novo compositor.
Temos um Hulk de cara nova, e tema novo também. Aliás, acho
até curioso que mesmo a Marvel possuindo um universo de
personagens tão grande, muitos deles sequer foram cogitados
até hoje para virar filme. O monstrengo verde, no entanto,
parece ser preferência dos produtores. O currículo de Bruce
Banner já inclui não apenas dois filmes, mas também a
popular série televisiva que, após se encerrar nos anos
1980, ainda gerou alguns telefilmes.
A primeira investida cinematográfica havia sido de Ang Lee,
em 2003, e foi um tremendo fracasso. O filme, além de contar
a história de uma maneira cansativa, tem ainda um elenco
fraco, e efeitos especiais que não convencem nem um pouco. O
personagem computadorizado (CGI) de Hulk tem uma textura de
vídeo-game. Parece que você está jogando Playstation e não
assisitindo a uma produção Hollywoodiana. Um dos poucos
pontos positivos da produção é
a trilha de Danny Elfman, que
subiu a bordo com o trem já andando, pois Michael Danna era
o compositor original. Elfman compôs uma trilha orquestral
marcante, com um tema bem interessante. Não foi nenhuma
obra-prima, mas com certeza era uma trilha que dificilmente
seria batida futuramente por outro compositor, caso houvesse
outro filme do monstro verde. Tive a sensação de que nada
que eu pudesse vir a escutar futuramente, para um filme do
Hulk, chegaria ao patamar desta trilha. Mas para minha
surpresa, Craig Armstrong conseguiu apresentar uma partitura
tão interessante que bate de frente em certos momentos com a
trilha de Elfman.
Quando anunciaram Armstrong como compositor fiquei
feliz por um lado, e preocupado por outro. Feliz pelo fato
de a produção ter apostado em um compositor não muito
conhecido porém talentoso, ao invés de ter apelado chamando
algum dos pupilos de
Hans Zimmer da
Media Ventures
(atual Remote
Control), como John Powell, Steve Jablosnky ou até mesmo
Ramin Djawadi. Parece até que virou moda ter alguém da
Media Ventures
como compositor. A fórmula deles é sempre a mesma: trilhas
extremamente percussivas com cordas pesadas, trompas fortes,
sempre com temas dramáticos. Não sei se foi coincidência,
mas Craig usou uma fórmula parecida. O
score é todo
calcado em cordas, porém é na forma como as cordas são
usadas e na construção dos padrões melódicos e harmonias que
está a diferença em relação às trilhas do pessoal do Zimmer.
Outro aspecto extremamente positivo é que a trilha foi
lançada em CD Duplo, contendo quase duas horas de música. Um
feito um tanto raro nos dias de hoje, quando temos trilhas
sendo lançadas com menos de 40 minutos de duração total. O
clima sombrio predomina na trilha, com quase todas faixas
baseadas em acordes menores. Como são 55 faixas ao todo,
escolhi algumas para analisar separadamente.
“The Arctic” abre o disco, com a música para uma cena que
foi cortada. E aliás, cenas cortadas é que o mais teve nesse
filme, ao total foram 70 minutos, que segundo o diretor
estarão como extras no DVD. Nessa tomada de abertura Bruce
Banner estaria indo para o Ártico (Pólo Norte) para se
suicidar, e em algum momento dessa cena haveria a tão falada
aparição do Capitão América. A faixa que Craig compôs é o
exatamente o tipo de abertura que eu gosto, começa calma e
sombria e vai crescendo para um misto de drama e ação.
Quando o filme começa, as luzes do cinema recém apagaram,
então é como se você estivesse iniciando a sua jornada pela
escuridão, pelo desconhecido. Uma faixa como “The Arctic”
vai lhe conduzindo de forma sombria e delicada, e crescendo
para um momento apoteótico. Harpa e cordas abrem a faixa, em
seguida piano toca algumas linhas complementares ao resto da
textura que já se criou, esse é um motivo que aparece
bastante na trilha, em Rocinha Favela” aparece com um pouco
de variação, na segunda metade de “Drop of Blood” aparece
mais cantabile,
com cordas tocando a melodia de forma mais completa. “Ross
Team” inicia dramática, mas em seguida apresenta a mesma
seqüência de acordes, em uma espécie de descontrução do
motivo. “Stern’s Lab” e “The Mirror” são basicamente
construídas em cima desse motivo também, com variações.
“Arrival at The Motel” tem uma versão bem modificada.
Voltando a “The Arctic” após o momento inicial, a entrada de
trompas inicia um clima mais dramático, com cordas densas. O
drama é brevemente quebrado por uma passagem de violinos
tocando rápidos
arpeggios que me parecem um resquício de Elfman, em
seguida o drama se instala novamente, sempre com muito
contraponto gerando uma textura densa e polifônica. Ao final
da faixa temos linhas do ritmo do novo tema do Hulk.
“Main Title” parece música de trailer. Existem compositores
que trabalham só com música de trailer, e a abordagem é
sempre a mesma: percussões fortes, cordas e metais bem
tensos, sempre de forma eloqüente e dramática. O andamento
acelerado deixa o espectador de cabelos em pé. Essa é a
função da música de trailer, e a trilha de
O Incrível Hulk
tem muito disso. Inúmeras faixas parecem que foram compostas
para trailers, e esta é uma delas. Tendências da estética
musical Media
Ventures, de Zimmer, estão presentes fortemente aqui.
“The Flower” é bem Zimmer também, soa como um prolongamento
da faixa “Main Title”. Em geral, muitas faixas soam como
extensão de outras nesta partitura de Craig Armstrong, o que
se confere à trilha um sentimento de unidade global, ao
mesmo tempo acaba gerando também um caráter repetitivo. Essa
música inicia com um
ostinato (padrão repetido) nos violinos e violas,
enquanto o baixo vai se movimentando e gerando tensão. Em
seguida linhas que podem ser ouvidas de forma mais eloqüente
e tercinada ao
final da faixa
“Main Title” aparecem aqui desta vez em
stacatto e de
maneira mais agressiva. Há algo de familiar no
ostinato do
inicio da faixa com o tema de
X-Men 2 de John
Ottman.
“Mr Blue” tem uma sonoridade mais urbana. Um
looping de
baixo eletrônico cheio de efeitos sustenta, enquanto cordas
vão adicionando um clima melancolico que tornaria a faixa
triste, só que em contrapartida temos o
looping de baixo
que é moderno e alegre, e dessa forma cria um equilibro
causando uma instabilidade no sentimento passado.
“Bruce
Looks for Data” tem o mesmo
looping de
baixo, sendo praticamente uma versão extendida de “Mr. Blue”.
“Bruce
Goes Home” é a faixa que possui a tão comentada aparição do
tema original de Hulk, composto por Joe Harnell para a série
de TV. O tema, que é conhecido como “The Lonely
Man”, é aqui interpretado de forma fiel ao original apesar
de ser muito breve. Em seguida Armstrong pega as rédeas
novamente, e nos leva de volta ao seu mundo musical de Hulk,
dramático e percussivo, que vai crescendo até o clímax
final, onde acaba de forma súbita.
“I
Can’t” é claramente inspirada no tema de Joe Harnell - a
fórmula é a mesma, um piano suave e melancólico. Violinos
entram em seguida como acompanhamento. Baixo,
cello e trompa
aparecem em seguida para completar a textura. Um crescendo
abrupto de cordas e então alguns segundos de silêncio, e
calmamente as cordas irão aparecer novamente para direcionar
ao fim da faixa. O mesmo tema está presente na faixa “Bruce
Can’t Stay”. É como se Armstrong tivesse criado seu próprio
“Lonely Man Theme”.
“Who’s
We” é a faixa para a polêmica aparição de Tony Stark (Robert
Downey Jr.), deixando mais um indício sobre a provável
produção do filme
The Avengers (Os
Vingadores) que reunirá Capitão América, Hulk,
Homem-de-Ferro, Thor e Homem-Formiga em um único filme.
“Hulk Theme” aparece em duas versões, cada uma como última
faixa de um dos CDs. Em suma as duas são a mesma música,
apresentada de forma um pouco diferente. A primeira versão é
mais orquestral, a segunda tem mais elementos eletrônicos e
uma batida meio
hip-hop. A melodia principal é extremamente marcante.
Forte e agressiva, é tocada por baixos e
cellos, que
representam bem a imponência de Hulk, o monstro verde com
força sobre-humana. Há um momento mais denso com cordas,
criando tensão e drama, provavelmente na tentativa de
mostrar uma profundidade do personagem.
The Incredible Hulk
é uma trilha que tem seus pontos altos e fracos. Apesar de
ter sido composta dentro de uma estética bem Zimmeriana,
Craig Armstrong consegue ir um pouco além desse conceito, e
esse é o diferencial. Dá para perceber claramente que quase
toda a trilha foi concebida digitalmente, através de
“sampleamento”
(com sons orquestrais gerados virtualmente), mas acho que
foi muito bem feito, já que o resultado final soa
realístico, com apenas alguns momentos que escancaram se
tratar de samplers.
Não posso afirmar, no entanto, que 100% tenha sido feita com
samplers,
acredito que alguns intrumentos tenham sido gravados. É uma
trilha que você deixa tocando e ela vai se desenvolvendo de
forma fluente, quando você percebeu pronto, já ouviu toda.
Assim como
Speed
Racer e outras trilhas recentes, ela tem seus momentos
dejá-vu, você
ouve faixas tão parecidas que acha já ter ouvido aquilo
antes. Aqui, entretanto, também há outro diferencial. Em
Speed Racer
havia uma repetição descontinuada e sem sentido, já aqui
percebemos uma idéia complementar entre as faixas. É claro
que, mesmo você apreciando o fato de um tema ser apresentado
e na próxima faixa ser melhor desenvolvido, isso não impede
a trilha de ser tornar cansativa em vários momentos. O
grande mérito é que, apesar de tudo, a trilha serve bem ao
filme, e ainda é interessante para audição separada. |