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Após
Homem-Aranha 2 e
Hellboy, poucos poderiam
imaginar que o melhor filme de super-heróis de 2004 ainda estava por
chegar. E que, ainda por cima, seria uma animação da Pixar! Pois bem,
Os Incríveis, apesar de não
ser baseado em nenhum super-herói dos quadrinhos, é uma bela homenagem a
todos eles, e de fato é o melhor filme do gênero dos últimos tempos. E
que, adicionalmente, conta com um dos melhores
scores do ano, já indicado
ao Globo de Ouro e que provavelmente também será indicado ao Oscar. Nada
mal para o jovem Michael Giacchino em sua estréia no cinema, cujos
créditos anteriores resumiam-se aos
games da série Medal of
Honor e à série de TV
Alias (cujo primeiro volume da trilha sonora também está
comentado no ScoreTrack).
Aqueles que possuem boa memória devem lembrar que, quando o primeiro
teaser de
The Incredibles foi exibido,
ainda em 2003, ele apresentava o tema de
John Barry
para 007 a Serviço Secreto de sua
Majestade. Isso porque, à época, Barry estava contratado para
compor a trilha original da animação, na qual o compositor certamente
iria revisitar o estilo por ele consagrado nos filmes de James Bond.
Todos aqueles que assistiram ao filme sabem que esta seria a abordagem
lógica, uma vez que em vários momentos, além de homenagear o universo
dos gibis, Os Incríveis
também tira seu chapéu para os filmes do famoso agente secreto
britânico. Infelizmente Barry abandonou o projeto, e o diretor Brad Bird
teve a espinhosa tarefa de encontrar um substituto à altura, que pudesse
fornecer uma partitura tão boa quanto à que o veterano compositor
provavelmente criaria. Bird, que pelo jeito já havia assistido à série
Alias e percebera os
elementos "bondianos" de sua trilha sonora, num lance ousado decidiu
contratar o novato Giacchino. E o jovem compositor correspondeu às
expectativas, criando uma trilha sonora que, ao contrário de outras que
anteriormente buscaram inspiração na música dos anos 60, não soa como um
mero pastiche.
Como o filme possui o tom nostálgico já referido, Giacchino decidiu
trilhar o caminho que Barry certamente seguiria - e então, ao contrário
dos grandes scores
orquestrais à la Superman,
Batman ou
Homem-Aranha, o compositor
criou uma partitura que pode ser considerada uma mistura das trilhas de
James Bond com a da antiga série de TV
Batman, ou seja, com
orquestra mas principalmente voltada ao
jazz. Com o estilo de Barry
predominando, o ouvinte também perceberá influências de outros mestres
do período, como
Henry Mancini e
Lalo Schifrin.
E, ao contrário do que se poderia imaginar, o manancial de referências é
cimentado pelo estilo próprio de Giacchino, que está tão seguro de si
que não hesita, em determinados trechos, em reproduzir acordes ou
orquestrações de temas conhecidos de Barry. "The Glory Days", que abre o
álbum, inicia com um tema que é uma variação do de
On Her Majesty's Secret Service,
mas logo Giacchino passa a desenvolvê-lo progressivamente, de forma que,
ao final do álbum, o tema possui uma identidade própria e dificilmente
pode ser identificado com o de Barry. Apesar de haver outros motivos
espalhados pelo score, é
em torno dele que a música orbita, fazendo-se presente tanto nas faixas
estilo big band como em
momentos mais românticos e introspectivos ("New Babysitter", "Adventure
Calling").
Além de mostrar-se hábil em lidar com esse material temático, Giacchino
comprova ser um grande autor de música de ação, em faixas como "Bob vs.
the Omnidroid" e "Saving Metroville". É necessário dar o devido crédito
às detalhadas orquestrações de Tim Simonec (que também é o regente) e
sua equipe, que deram à partitura um nível de detalhe surpreendente -
cada instrumento recebe suas próprias linhas e ganha destaque, mesmo em
uma agitada faixa como "100 Mile Dash". A isso tudo, acrescente pitadas
de música "Mickey-Mousing" dignas de Carl Stalling, as peças de
jazz que Mancini ou Schifrin
teriam orgulho de ter composto ("Life's Incredible Again", "Off to Work"),
músicas de suspense elaboradas, como "Kronos Unveiled", e temos um
trabalho que pode ser considerado vitorioso sob qualquer aspecto que
analisarmos. Certo, em alguns momentos o uso ostensivo do material de
Barry, como os temas "Space March" (de
You Only Live Twice, em "Kronos
Unveiled") e "Dawn Raid on Fort Knox" (de
Goldfinger, em "Marital
Rescue") , reforçam a minha opinião de que já não se faz mais música de
cinema como antigamente (assunto que será objeto de um próximo artigo do
site). Mesmo assim, isto
não consegue tirar a força da trilha sonora de
Os Incríveis, uma das
melhores de 2004.
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