Indiana Jones and the KingdoM of the Crystal Skull
Música composta e regida por John Williams

Selo: Concord Records
Catálogo:
CRE-30825-02
Lançamento: 2008
Faixas

1. Raiders March
2. Call Of The Crystal
3. The Adventures Of Mutt
4. Irina's Theme
5. The Snake Pit
6. The Spell Of The Skull
7. The Journey To Akator
8. A Whirl Through Academe
9. "Return"
10. The Jungle Chase
11. Orellana's Cradle
12. Grave Robbers
13. Hidden Treasure / The City Of Gold
14. Secret Doors / Scorpions
15. Oxley's Dilemma
16. Ants!
17. Temple Ruins / The Secret Revealed
18. The Departure
19. Finale


Duração: 77:22
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Indiana Jones 4, o sonho virou realidade... ou seria melhor dizer o pesadelo? O fato é que Hollywood vem vivendo um momento em que há uma necessidade de ressuscitar franquias antigas. Star Wars Superman são apenas alguns exemplos. Tivemos até direito à volta de Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro 3 e Bruce Willis em Life Free or Die Hard. Às vezes os produtores acertam em cheio e aparecem com um novo capítulo totalmente revigorado, e consistente. Na maioria das vezes, no entanto, temos um argumento fraco e que parece ter sido forçado para se moldar às necessidades da franquia. Acredito que esse foi o caso de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Havia uma euforia por parte dos fãs de carteirinha, e há alguns anos já vinha se especulando sobre o lançamento de um quarto episódio na série. E isso, é claro, significaria que teríamos as partituras do  maestro John Williams mais uma vez, para o nosso deleite.

Há dois anos sem compor para nenhum filme, todos esperavam John Williams de volta em plena forma. O Reino da Caveira de Cristal era com toda certeza uma das trilhas mais esperadas do ano. Expectativas gigantescas por um score cheio de fanfarras, cordas misteriosas, temas enigmáticos para os momentos de exploração e descobertas e muita ação. Devo dizer que nesse aspecto minhas expectativas foram atendidas, já que todas as tendências esperadas estão presentes na trilha. A questão é que a impressão que temos ao ouvir a trilha é de estar ouvindo uma versão expandida de Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, com algumas adições claro. Seria isso um bom sinal ou não?

Devo ressaltar que uma das coisas que eu considero mais importantes em continuações cinematográficas é a preservação do legado musical, a fim de estabelecer uma conexão ao nível da partitura. Que o nosso bom e velho Williams iria recorrer ao tema "Raiders March" já era esperado, até porque essa fanfarra se tornou um emblema, e porque não dizer, sinônimo de Indiana Jones. Nesse aspecto ele acertou, o problema é que dá para perceber que ele fez um pouco mais que isso. Não só pelos motivos recorrentes que aparecem em O Reino da Caveira de Cristal, mas também pela atmosfera geral da trilha. É como se nada tivesse mudado.

O que aconteceu foi que pouco material novo foi composto. A trilha é excelente para estudo, pois contém muitos dos clichês orquestrais e composicionais mais clássicos do mestre John Williams. Podemos ouvir ecos de Star Wars, Harry Potter e principalmente de outros filmes da franquia Indiana Jones. Ouvi muitas pessoas fazendo outras alusões a Drácula e até E.T. E realmente há semelhança entre todos eles, incluindo este útlimo e War of the Worlds. É obvio que teria, já que o compositor é o mesmo. Se repararmos, as semelhanças se dão com filmes de ficção científica, em sua maior parte. Ou seja, é um território diferente de Memoirs of a Geisha por exemplo. É claro que um compositor mais maduro como Williams vai recorrer a todos seus artifícios orquestrais em um score como esse. E eu devo dizer que gostei das referências. Você tem vários elementos em um score apenas. É como se fosse uma espécie de coletânea bem resumida de Williams.

Outro aspecto que sempre nos cria expectativas é em relação ao desenvolvimento temático e motívico de Williams. Sempre nos apresentando uma variedade de leitfmotifs a cada nova trilha, salve em algumas exceções. Em relação a esta característica das trilhas de Williams, achei esta pobre pois apresenta apenas três temas novos. Começamos com "Call of the Crystal", um tema enigmático que consegue traduzir a espécie de força de atração que o Cristal promove. Este tema aparece inúmeras vezes durante o filme. Eu devo dizer que gostei desse tema, embora achando que nosso maestro poderia ter proposto algo melhor elaborado. No filme o tema nos é enfiado goela abaixo, devido às inúmeras repetições, e você acaba se acostumando. Começa com um motivo de três notas tocado pelas cordas ao fundo, harpa e o tão falado continuum, instrumento digital que pelo que eu esperava seria a estrela do score, já que a propaganda em relação à sua presença na trilha foi intensa e, no entanto, teve uma atuação discreta limitada à criação de atmosfera. Inclusive achei desnecessário, já que as principais qualidades dele são de fazer portamentos e glissandos de forma natural, assim como variações de dinâmica não são usadas no score. Acho que foi mais uma questão de marketing em relação ao instrumento, pois o efeito que ele gerou seria conseguido com qualquer outro sintetizador ou até mesmo combinando apenas elementos da orquestra. Esse motivo de três notas será sustentado para a flauta descrever uma melodia misteriosa, e que me soou um pouco com algumas linhas de Basic Instinct (de Jerry Goldsmith). Há também uma certa similaridade com o "Main Titles" de Raiders of the Lost Ark, tanto pelo andamento, como pelas referências a compositores da Golden Age, que utilizavam bastante música atonal, cheia de dissonâncias e tensões. Após este momento, cordas em tremolo criam a textura para uma melodia de oboé com escala octatônica. Aliás até parece trilha de filme de múmia, já que o oboé com esse tipo de aplicação soa bastante egípcio. Temos em seguida uma apoteose, com cordas extremamente gritantes, após a volta à calma e a melodia de flauta novamente apresentada, dessa vez sem o motivo de três notas ao fundo. Instrumentos vão sendo adicionados para criar uma grande massa sonora, culminando com o fim da faixa.

O lado negro do filme é representado pelo tema da russa Irina Spalko (Cate Blanchett), que apresenta claras tendências jazzísticas na apresentação. Já era de esperar que o maestro Williams propusesse alguma inovação, além do tal continuum, no score. Devo dizer que fiquei surpreso pela adição desse estilo mais Jazzístico. A única coisa que achei incoerente, é que ele ficou em cima do muro. Apresentou algumas cadências de jazz, e logo em seguida já caiu em um estilo mais erudito remontando um pouco a Wagner, com uma orquestração também nada jazzística. Apesar de eu ser sempre a favor da criatividade, e da mescla de estilos, acho que o contraste foi muito gritante. Entre 31 segundos e 38 ele faz uma passagem jazzística muito comum, aliás comum na bossa nova também. O problema é que não combinou com o resto da faixa. Ele nos traz um momento totalmente jazzístico, sendo que no próximo compasso ele já expõe uma coloração orquestral num estilo bem romântico. O que deu esse contraste  exagerado e quebrou o clima foi principalmente o cello que entra em tremolo ao fundo, junto com a harpa fazendo glissandos. Esse é o tipo de orquestração que compositores como Tchaikovsky ou Holst usariam, mas não é algo que John Coltrane ou Miles Davis faria. Se ele tivesse esperado mais para adicionar estes elementos ficaria perfeito. Em linhas gerais, a faixa caminha tendendo mais para o erudito. O elemento jazzístico é discreto, e se restringe ao contornos melódicos, na construção da melodia e um pouco na harmonia. O ritmo permanece lento, sem a presença de síncopes ou outras figuras rítmicas que são marcas registradas do jazz.


Em "Spell of the Skull" temos uma grata surpresa com a exposição do "Map Room Theme" de Indiana Jones and The Raiders of the Lost Ark.
Em seguida temos uma versão diferente do tema principal, re-harmonizado para soar mais sombrio. A partir de 2:33 aparecem referências claras a Harry Potter e a Câmara Secreta, com uma passagem de harpa misteriosa, thrills de violinos, e celesta colorindo este clima de mistério. A seguir, cordas dobradas em oitavas seguem a mesma fórmula da faixa "Chamber of  Secrets", inclusive a melodia é bem parecida também.

Dois temas representam os mocinhos Indy e Mutt. Um deles é o próprio tema principal "Raiders March". O outro é o "Adventures of Mutt", um tema bem agitado, corajoso e ao mesmo tempo moleque, que denota bem a personalidade de Mutt Williams. Um certo tom de afobação é transmitido pelo caráter saltitante das madeiras. Dá para perceber um certo ar de Peter Pan,  o que nos remonta à trilha de Hook. O começo de "The Journey to Akator" tem um motivo que lembra bastante E.T. Esse padrão de duas notas indo e vindo faz parte do tema tão famoso para a cena da "bicicleta voando". Em seguida já temos a exposição do tema da "Raiders March", e em seguida temos um tema andino no melhor espírito de Buena Vista Social Club, com zampona, violão, trompete e percussão latina.

Temos outro tema garimpado da trilha de Os Caçadores da Arca Perdida, "Marion's Theme", que aliás lembra bastante o tema da Princesa Leia em Star Wars, e abre a faixa "Finale". Em seguida temos nesta ordem a exposição dos temas de Indy, Irina, em seguida "Russian March" como alguns chamam, ou tema de Dovchenko (o braço direito de Irina), um tema de trompa que inicia aos 3:55. Logo após temos um interlúdio com uma passagem de flauta que lembra bastante o solo de flauta no final da faixa "Secrets of The Castle" de Harry Potter e o Prisoneiro de Azkaban. Volta então a Marcha Russa, como está sendo chamada, mas que é na realidade uma fanfarra. Em seguida temos o tema de Mutt, logo volta o tema de Marion. E para finalizar a faixa, e o disco também, temos uma re-exposição de "Raiders March" com bastante variação.

Minha nota final para a trilha de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é de quatro estrelas. Porque apesar de ser um trabalho não muito original do mestre Williams, é muito melhor do que a maioria das trilhas que tem saído por ai. Só pelo fato de ser orquestral já ganharia três estrelas. A estrela adicional é pelo fato de ser uma partitura com diversas referências a outras trilhas de Williams, tornando-se assim um trabalho excelente para estudo, e também pelos dois temas novos: o ousado "Irina's Theme" e o tema misterioso, que traz uma espécie de homenagem as trilhas da Golden Age, "Call Of The Crystal"
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