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Indiana Jones 4, o sonho virou
realidade... ou seria melhor dizer o pesadelo? O fato é que
Hollywood vem vivendo um momento em que há uma necessidade
de ressuscitar franquias antigas.
Star
Wars e
Superman são apenas alguns exemplos. Tivemos até
direito à volta de Schwarzenegger em
O
Exterminador do Futuro 3 e Bruce Willis em
Life
Free or Die Hard. Às vezes os produtores acertam em
cheio e aparecem com um novo capítulo totalmente revigorado,
e consistente. Na maioria das vezes, no entanto, temos um
argumento fraco e que parece ter sido forçado para se moldar
às necessidades da franquia. Acredito que esse foi o caso de
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Havia
uma euforia por parte dos fãs de carteirinha, e há alguns
anos já vinha se especulando sobre o lançamento de um quarto
episódio na série. E isso, é claro, significaria que
teríamos as partituras do maestro
John Williams
mais uma vez, para o nosso deleite.
Há dois anos sem compor para nenhum filme, todos esperavam
John Williams de volta em plena forma. O Reino da Caveira
de Cristal era com toda certeza uma das trilhas mais
esperadas do ano. Expectativas gigantescas por um score
cheio de fanfarras, cordas misteriosas, temas enigmáticos
para os momentos de exploração e descobertas e muita ação.
Devo dizer que nesse aspecto minhas expectativas foram
atendidas, já que todas as tendências esperadas estão
presentes na trilha. A questão é que a impressão que temos
ao ouvir a trilha é de estar ouvindo uma versão expandida de
Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, com
algumas adições claro. Seria isso um bom sinal ou não?
Devo ressaltar que uma das coisas que eu considero mais
importantes em continuações cinematográficas é a preservação
do legado musical, a fim de estabelecer uma conexão ao nível
da partitura. Que o nosso bom e velho Williams iria recorrer
ao tema "Raiders March" já era esperado, até porque essa
fanfarra se tornou um emblema, e porque não dizer, sinônimo
de Indiana Jones. Nesse aspecto ele acertou, o problema é
que dá para perceber que ele fez um pouco mais que isso. Não
só pelos motivos recorrentes que aparecem em O Reino da
Caveira de Cristal, mas também pela atmosfera geral da
trilha. É como se nada tivesse mudado.
O que aconteceu foi que pouco material novo foi composto. A
trilha é excelente para estudo, pois contém muitos dos
clichês orquestrais e composicionais mais clássicos do
mestre John Williams. Podemos ouvir ecos de Star Wars,
Harry Potter e principalmente de outros filmes da
franquia Indiana Jones. Ouvi muitas pessoas fazendo outras
alusões a
Drácula e até
E.T.
E realmente há semelhança entre todos eles, incluindo este
útlimo e
War of
the Worlds. É obvio que teria, já que o compositor é
o mesmo. Se repararmos, as semelhanças se dão com filmes de
ficção científica, em sua maior parte. Ou seja, é um
território diferente de
Memoirs of
a Geisha por exemplo. É claro que um compositor mais
maduro como Williams vai recorrer a todos seus artifícios
orquestrais em um score como esse. E eu devo dizer
que gostei das referências. Você tem vários elementos em um
score apenas. É como se fosse uma espécie de
coletânea bem resumida de Williams.
Outro aspecto que sempre nos cria expectativas é em relação
ao desenvolvimento temático e motívico de Williams. Sempre
nos apresentando uma variedade de leitfmotifs a cada
nova trilha, salve em algumas exceções. Em relação a esta
característica das trilhas de Williams, achei esta pobre
pois apresenta apenas três temas novos. Começamos com "Call
of the Crystal", um tema enigmático que consegue traduzir a
espécie de força de atração que o Cristal promove. Este tema
aparece inúmeras vezes durante o filme. Eu devo dizer que
gostei desse tema, embora achando que nosso maestro poderia
ter proposto algo melhor elaborado. No filme o tema nos é
enfiado goela abaixo, devido às inúmeras repetições, e você
acaba se acostumando. Começa com um motivo de três notas
tocado pelas cordas ao fundo, harpa e o tão falado
continuum, instrumento digital que pelo que eu esperava
seria a estrela do score, já que a propaganda em
relação à sua presença na trilha foi intensa e, no entanto,
teve uma atuação discreta limitada à criação de atmosfera.
Inclusive achei desnecessário, já que as principais
qualidades dele são de fazer portamentos e glissandos de
forma natural, assim como variações de dinâmica não são
usadas no score. Acho que foi mais uma questão de
marketing em relação ao instrumento, pois o efeito que
ele gerou seria conseguido com qualquer outro sintetizador
ou até mesmo combinando apenas elementos da orquestra. Esse
motivo de três notas será sustentado para a flauta descrever
uma melodia misteriosa, e que me soou um pouco com algumas
linhas de
Basic Instinct (de
Jerry
Goldsmith). Há também uma certa similaridade com o "Main
Titles" de Raiders of the Lost Ark, tanto pelo
andamento, como pelas referências a compositores da
Golden Age, que utilizavam bastante música atonal, cheia
de dissonâncias e tensões. Após este momento, cordas em
tremolo criam a textura para uma melodia de oboé com escala
octatônica. Aliás até parece trilha de filme de múmia, já
que o oboé com esse tipo de aplicação soa bastante egípcio.
Temos em seguida uma apoteose, com cordas extremamente
gritantes, após a volta à calma e a melodia de flauta
novamente apresentada, dessa vez sem o motivo de três notas
ao fundo. Instrumentos vão sendo adicionados para criar uma
grande massa sonora, culminando com o fim da faixa.
O lado negro do filme é representado pelo tema da russa
Irina Spalko (Cate Blanchett), que apresenta claras
tendências jazzísticas na apresentação. Já era de esperar
que o maestro Williams propusesse alguma inovação, além do
tal continuum, no score. Devo dizer que fiquei
surpreso pela adição desse estilo mais Jazzístico. A única
coisa que achei incoerente, é que ele ficou em cima do muro.
Apresentou algumas cadências de jazz, e logo em
seguida já caiu em um estilo mais erudito remontando um
pouco a Wagner, com uma orquestração também nada jazzística.
Apesar de eu ser sempre a favor da criatividade, e da mescla
de estilos, acho que o contraste foi muito gritante. Entre
31 segundos e 38 ele faz uma passagem jazzística muito
comum, aliás comum na bossa nova também. O problema é que
não combinou com o resto da faixa. Ele nos traz um momento
totalmente jazzístico, sendo que no próximo compasso ele já
expõe uma coloração orquestral num estilo bem romântico. O
que deu esse contraste exagerado e quebrou o clima foi
principalmente o cello que entra em tremolo ao fundo,
junto com a harpa fazendo glissandos. Esse é o tipo de
orquestração que compositores como Tchaikovsky ou Holst
usariam, mas não é algo que John Coltrane ou Miles Davis
faria. Se ele tivesse esperado mais para adicionar estes
elementos ficaria perfeito. Em linhas gerais, a faixa
caminha tendendo mais para o erudito. O elemento jazzístico
é discreto, e se restringe ao contornos melódicos, na
construção da melodia e um pouco na harmonia. O ritmo
permanece lento, sem a presença de síncopes ou outras
figuras rítmicas que são marcas registradas do jazz.
Em "Spell of the Skull" temos uma grata surpresa com a
exposição do "Map Room Theme" de Indiana Jones and The
Raiders of the Lost Ark.
Em seguida
temos uma versão diferente do tema principal, re-harmonizado
para soar mais sombrio. A partir de 2:33 aparecem
referências claras a
Harry Potter e a Câmara Secreta, com uma passagem de
harpa misteriosa, thrills de violinos, e celesta
colorindo este clima de mistério. A seguir, cordas dobradas
em oitavas seguem a mesma fórmula da faixa "Chamber of
Secrets", inclusive a melodia é bem parecida também.
Dois temas representam os mocinhos Indy e Mutt. Um deles é o
próprio tema principal "Raiders March". O outro é o "Adventures
of Mutt", um tema bem agitado, corajoso e ao mesmo tempo
moleque, que denota bem a personalidade de Mutt Williams. Um
certo tom de afobação é transmitido pelo caráter saltitante
das madeiras. Dá para perceber um certo ar de Peter Pan, o
que nos remonta à trilha de Hook. O começo de "The
Journey to Akator" tem um motivo que lembra bastante E.T.
Esse padrão de duas notas indo e vindo faz parte do tema tão
famoso para a cena da "bicicleta voando". Em seguida já
temos a exposição do tema da "Raiders March", e em seguida
temos um tema andino no melhor espírito de Buena Vista
Social Club, com zampona, violão, trompete e percussão
latina.
Temos outro tema garimpado da trilha de Os Caçadores da
Arca Perdida, "Marion's Theme", que aliás lembra
bastante o tema da Princesa Leia em Star Wars, e abre
a faixa "Finale". Em seguida temos nesta ordem a exposição
dos temas de Indy, Irina, em seguida "Russian March" como
alguns chamam, ou tema de Dovchenko (o braço direito de
Irina), um tema de trompa que inicia aos 3:55. Logo após
temos um interlúdio com uma passagem de flauta que lembra
bastante o solo de flauta no final da faixa "Secrets of The
Castle" de
Harry Potter e o Prisoneiro de Azkaban. Volta então
a Marcha Russa, como está sendo chamada, mas que é na
realidade uma fanfarra. Em seguida temos o tema de Mutt,
logo volta o tema de Marion. E para finalizar a faixa, e o
disco também, temos uma re-exposição de "Raiders March" com
bastante variação.
Minha nota final para a trilha de Indiana Jones e o Reino
da Caveira de Cristal é de quatro estrelas. Porque
apesar de ser um trabalho não muito original do mestre
Williams, é muito melhor do que a maioria das trilhas que
tem saído por ai. Só pelo fato de ser orquestral já ganharia
três estrelas. A estrela adicional é pelo fato de ser uma
partitura com diversas referências a outras trilhas de
Williams, tornando-se assim um trabalho excelente para
estudo, e também pelos dois temas novos: o ousado "Irina's
Theme" e o tema misterioso, que traz uma espécie de
homenagem as trilhas da Golden Age, "Call Of The
Crystal". |