JawS (REGRAVAÇÃO)
Música composta por John Williams - Royal Scottish National Orchestra regida por Joel McNeely

Selo:
Varèse Sarabande
Catálogo:
302 066 078-2
Ano: 2000

25 Faixas
Duração: 50:02
Cotação:


Comentário de
Miguel Andrade

 

Quando comecei a ouvir esta regravação de Jaws, vinha com a vantagem de estar a ouvi-la pela primeira vez a uma distância de vários meses do lançamento da gravação original da Decca Records, e do próprio lançamento deste CD. No período de tempo entre o lançamento desta gravação e da minha aquisição da mesma, tive oportunidade de ler várias críticas a ela feita e que em pouco, ou nada, divergem das que os fãs fazem habitualmente às regravações das suas partituras favoritas: os tempos não são os mesmos, as instrumentações e arranjos são diferentes, o som da gravação não reproduz o ambiente controlado dos estúdios... E se por um lado isto é tudo verdade, estas não deixam de ser as críticas mais superficiais que alguém pode fazer a uma interpretação de uma peça de música, seja ela música para concerto ou para cinema.

Começando pelo fim, o som, em virtude de ter sido gravado numa sala de concertos, é mais aberto, havendo um pouco mais de eco, ausente na gravação original, que foi feita nos estúdios em Hollywood. A disposição de microfones também difere, o que faz com que a captação do som ocorra de outra forma, e por fim, mas não menos importante, qualquer orquestra tem o seu próprio som característico. Para o meu ouvido, a qualidade agrada-me muito. Penso que neste aspecto há um problema muito grave na cabeça de alguns fãs de música para cinema (sobretudo os mais jovens) que não conhecem o som da orquestra. Habituados a ouvir a orquestra em salas de cinema com avançados sistemas de som surround, o ouvinte já não sabe qual o verdadeiro som da orquestra e confunde-o com a sua versão alterada das salas de cinema (lembro-me de ler uma crítica ao CD original de The Phantom Menace, em que o autor se queixava do som, argumentando que o som tal como ouvido no filme era superior, graças à presença de uma qualquer destas variantes de surround sound).

A questão dos arranjos e instrumentações parece não se ter posto. Este álbum segue a partitura de Williams, tal como usada no filme, ao contrário do álbum editado originalmente em 1974. Isto, claro, delicia os fãs, que: a) querem a música sempre como usada no filme (por muito pouco sentido musical que faça), e que; b) nunca chegaram a conhecer a versão original do álbum. No entanto acho que fica aqui o ponto do meu desagrado em relação a este CD (assim como a edição da Decca que o precedeu). Embora, em boa verdade, a música continue a fazer muito sentido, mesmo apresentada nesta forma, o simples fato de deixar de seguir um programa musical como na edição original, faz perder algum impacto. Continua a ser visceral e genial, toda a música, e claro, a apresentação da música desta forma tem as suas vantagens, através da inclusão de música que havia ficado de fora do programa musical do álbum original. Nesse aspecto chamo a atenção para "Father and Son" e "The Alimentary Canal" (este último não está disponível no CD da Decca). Perdem-se as muito bem estruturadas peças como "Promenade (Tourist on the Menu)", substituída pela sua versão encurtada "Montage", a que falta a derradeira graciosidade que a torna tão única.

Chegamos então à questão interpretativa. Muitos acharam que os tempos não se adequavam ao original. Naturalmente, se não há a necessidade de sincronizar a música às imagens, terá toda a lógica que os interpretes sigam as indicações na partitura de acordo com os princípios ditados por esta e não pela ação na tela. Enquanto escrevo, já passaram alguns meses desde que ouvi a gravação original de Jaws pela última vez, por isso não posso questionar os tempos, no sentido de serem fiéis ao original, mas posso avaliá-los em termos de uma performance como um todo, e  nesse aspecto são altamente satisfatórios, como é a interpretação em termos gerais. McNeely está atento às diversas variações dinâmicas e cuidadas texturas orquestrais que permeiam a partitura de Williams. O resultado é uma interpretação vívida, imaginativa e ainda assim um retrato fiel do terror que pode ser tomar banho na praia. Claro que agora vou buscar os meus dois CDs da gravação original e compará-los com esta regravação, mas o que é certo é que ao avaliar esta interpretação não caí no demasiado freqüente erro de, ao comparar com o original, o tomar como a interpretação definitiva. Esse terá sempre um lugar especial no leitor de CDs de qualquer admirador do compositor, mas não inviabiliza (nada o deve fazer) que outros tentem melhorar a performance de Williams. No final, esta é mais uma excepcional prestação de McNeely e a Royal Scottish National Orchestra, e abre caminho para novas e empreendedoras colaborações no futuro que se quer próximo. As notas de Robert Townson e Michael McDonagh são informativas como sempre.

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