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Quando
comecei a ouvir esta regravação de Jaws, vinha com a vantagem de
estar a ouvi-la pela primeira vez a uma distância de vários meses do
lançamento da gravação original da Decca Records, e do próprio
lançamento deste CD. No período de tempo entre o lançamento desta
gravação e da minha aquisição da mesma, tive oportunidade de ler várias
críticas a ela feita e que em pouco, ou nada, divergem das que os fãs
fazem habitualmente às regravações das suas partituras favoritas: os
tempos não são os mesmos, as instrumentações e arranjos são diferentes,
o som da gravação não reproduz o ambiente controlado dos estúdios... E
se por um lado isto é tudo verdade, estas não deixam de ser as críticas
mais superficiais que alguém pode fazer a uma interpretação de uma peça
de música, seja ela música para concerto ou para cinema.
Começando pelo fim, o som, em virtude de ter sido gravado numa sala de
concertos, é mais aberto, havendo um pouco mais de eco, ausente na
gravação original, que foi feita nos estúdios em Hollywood. A disposição
de microfones também difere, o que faz com que a captação do som ocorra
de outra forma, e por fim, mas não menos importante, qualquer orquestra
tem o seu próprio som característico. Para o meu ouvido, a qualidade
agrada-me muito. Penso que neste aspecto há um problema muito grave na
cabeça de alguns fãs de música para cinema (sobretudo os mais jovens)
que não conhecem o som da orquestra. Habituados a ouvir a orquestra em
salas de cinema com avançados sistemas de som surround, o ouvinte
já não sabe qual o verdadeiro som da orquestra e confunde-o com a sua
versão alterada das salas de cinema (lembro-me de ler uma crítica ao CD
original de The Phantom Menace, em que o autor se queixava do
som, argumentando que o som tal como ouvido no filme era superior,
graças à presença de uma qualquer destas variantes de surround sound).
A questão dos arranjos e instrumentações parece não se ter posto. Este
álbum segue a partitura de Williams, tal como usada no filme, ao
contrário do álbum editado originalmente em 1974. Isto, claro, delicia
os fãs, que: a) querem a música sempre como usada no filme (por muito
pouco sentido musical que faça), e que; b) nunca chegaram a conhecer a
versão original do álbum. No entanto acho que fica aqui o ponto do meu
desagrado em relação a este CD (assim como a edição da Decca que o
precedeu). Embora, em boa verdade, a música continue a fazer muito
sentido, mesmo apresentada nesta forma, o simples fato de deixar de
seguir um programa musical como na edição original, faz perder algum
impacto. Continua a ser visceral e genial, toda a música, e claro, a
apresentação da música desta forma tem as suas vantagens, através da
inclusão de música que havia ficado de fora do programa musical do álbum
original. Nesse aspecto chamo a atenção para "Father and Son" e "The
Alimentary Canal" (este último não está disponível no CD da Decca).
Perdem-se as muito bem estruturadas peças como "Promenade (Tourist on
the Menu)", substituída pela sua versão encurtada "Montage", a que falta
a derradeira graciosidade que a torna tão única.
Chegamos então à questão interpretativa. Muitos acharam que os tempos
não se adequavam ao original. Naturalmente, se não há a necessidade de
sincronizar a música às imagens, terá toda a lógica que os interpretes
sigam as indicações na partitura de acordo com os princípios ditados por
esta e não pela ação na tela. Enquanto escrevo, já passaram alguns meses
desde que ouvi a gravação original de Jaws pela última vez, por
isso não posso questionar os tempos, no sentido de serem fiéis ao
original, mas posso avaliá-los em termos de uma performance como um
todo, e nesse aspecto são altamente satisfatórios, como é a
interpretação em termos gerais. McNeely está atento às diversas
variações dinâmicas e cuidadas texturas orquestrais que permeiam a
partitura de Williams. O resultado é uma interpretação vívida,
imaginativa e ainda assim um retrato fiel do terror que pode ser tomar
banho na praia. Claro que agora vou buscar os meus dois CDs da gravação
original e compará-los com esta regravação, mas o que é certo é que ao
avaliar esta interpretação não caí no demasiado freqüente erro de, ao
comparar com o original, o tomar como a interpretação definitiva. Esse
terá sempre um lugar especial no leitor de CDs de qualquer admirador do
compositor, mas não inviabiliza (nada o deve fazer) que outros tentem
melhorar a performance de Williams. No final, esta é mais uma
excepcional prestação de McNeely e a Royal Scottish National Orchestra,
e abre caminho para novas e empreendedoras colaborações no futuro que se
quer próximo. As notas de Robert Townson e Michael McDonagh são
informativas como sempre. |