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Em 1990,
ainda recém saídos da sua dupla colaboração em Lethal Weapon 1 e
2, Kamen e Sanborn gravaram o concerto para Saxofone e orquestra,
que o compositor compôs para o saxofonista. Um instrumento pouco
habitual a aparecer como solista no repertório clássico, o saxofone
recebe uma extraordinária oportunidade para brilhar neste primeiro
concerto de Kamen. O som reflete os dois mundos de Kamen, o rock
e a música clássica, e longe de ser exigente com o ouvinte, obriga o
solista a um desempenho virtuoso. O concerto está assente na mesma
linguagem musical que encontramos na maior parte do trabalho para cinema
de Kamen, altamente melódica, com uma cadência muito mais pop que
clássica, e logo muito mais apelativa para um número considerável de
ouvintes, mas ainda assim profundamente profissional e artisticamente
válida. O Concerto for Saxophone and Orchestra é em três
movimentos, sendo o mais longo o primeiro, que introduz todas as idéias
principais. A estrutura é rápido, lento, rápido, os dois últimos
movimentos tocados sem pausa entre eles. A introdução é suave, feita
pelos violoncelos e contra-baixos, dando rapidamente lugar ao solista,
apresentando o tema principal ouvido no decorrer do concerto.
A música é, mesmo nos seus momentos mais calmos, jovem, movimentada e
arrojada. Depois de um desenvolvimento completo do primeiro tema, é-nos
introduzido um segundo, mas movimentado, fortemente pontuado pelo uso de
percussão e com uma maior proeminência dos metais. Este segundo tema
ocupa a maior parte do movimento. Mais à frente, dois outros temas que
vão ser usados nos 2º e 3ºs movimentos do concerto são rapidamente
apresentados, e depois concluímos com o tema que abriu o concerto, num
modo mais contemplativo. O segundo movimento é em tempo de adágio, com
uma melodia mais melancólica, sabiamente suportada pelas cordas e
madeiras, e já ouvida no primeiro movimento. Esta dá mais tarde lugar a
um segundo tema, melódica e estruturalmente próximo do primeiro tema do
primeiro movimento. Depois de uma apresentação completa deste, uma
serena passagem leva-nos para o terceiro movimento, anunciado pelo
estrondoso surgimento do tímpano. Este movimento final, o mais agitado
dos três, e também o mais curto, apresenta apenas um tema, que sofre
múltiplas variações no decorrer dos cerca de cinco minutos de duração. A
coda apresenta um breve recapitular dos dois temas principais do
primeiro movimento, e é completada com o obrigatório tutti. O
mais surpreendente do Concerto não é tanto a aparente facilidade de
criar uma obra que junta o saxofone com a orquestra, um idioma mais
pop com outro clássico, mas sim a extraordinária exigência que é
feita ao solista. São poucos os momentos que há para o interprete
respirar, e os que há são incrivelmente curtos.
Kamen encontrou em David Sanborn o interprete ideal para o seu concerto,
um música que claramente simpatiza com a peça e dá uma interpretação
inesquecível. A orquestra de Sidney Sax, toca com a vivacidade e
entusiasmo apropriado para uma estréia mundial, deixando transparecer
com clareza a excitação de estarem a tocar algo novo. O CD é completado
com quatro peças num idioma mais pop e um excerto de uma
partitura para cinema. Das quatro miniaturas para saxofone, banda e
orquestra, a primeira, “Helen Claire”, é a menos satisfatória. As outras
três formam um tríptico, e são dedicadas às filhas de Kamen, Sasha, Zoe
e Sandra, seguindo um padrão de rápido, lento, rápido. Na última destas,
um convidado especial, o guitarrista Eric Clapton, contribui com um solo
de guitarra. Para terminar o CD, um excerto de “Brasil”, intitulado
“Waiting for Daddy”, que usa a famosa canção de Ary Barroso. Uma forma
fantástica de terminar um álbum, que depois de tantos anos ainda é um
dos meus favoritos.
Oito anos separam o primeiro concerto de Kamen do segundo, para guitarra
elétrica, banda rock e orquestra, resultante de uma encomenda de
Eric Clapton. Se o primeiro é uma experiência musical extraordinária,
este novo concerto pouco mais é do que satisfatório. Toda a estrutura
segue a do concerto para saxofone. O primeiro movimento tem também dois
temas principais, o primeiro mais suave, o segundo mais agressivo. O
segundo movimento, o mais lento, é o menos interessante dos três. O
movimento final, em tempo de allegro, é o mais satisfatório dos
três. O grande problema não está na falta de inovação, ou na integração
da guitarra e banda rock no universo da orquestra, mas antes nas
débeis transições entre os vários temas e idéias que vão sendo
desenvolvidos nos vários movimentos. Se os temas são interessantes, as
passagens de uns para os outros cortam o contínuo da audição,
transformando aquilo que podia e devia ser uma interessante experiência
auditiva, apenas numa forma de passar o tempo. Ao contrário do seu
antecessor, desta vez a orquestra não toca com o mesmo brilho, muito
embora o faça sem falhas. O solista é o japonês Tomoyasu Hotei, mas que
facilmente passaria por Clapton, já que Kamen emulou o estilo do
guitarrista para o concerto. Para completar o CD temos “Nuclear Train”,
composto por Clapton e Kamen, aqui interpretado por Hotei e a Seattle
Symphony Orchestra, e o movimento final do concerto para guitarra, sem a
guitarra, o que é uma estranha surpresa. Deixa no entanto perceber
melhor os dotes de Kamen como orquestrador. Infelizmente, e mesmo sendo
este um disco muito menos desejável que o primeiro, só foi editado no
Japão, pelo que os que o procuram só o conseguiram obter com os
inevitáveis custos adicionais que isso implica. |