Michael Kamen: Concerto for Saxophone
Michael Kamen: Helen Claire; Sasha; Zoe; Sandra; Waiting for Daddy (from Brasil – composed by Ary Barroso) – David Sanborn/National Philharmonic Orchestra/Michael Kamen


Selo:
Warner Bros. Records
Catálogo:
7599-26157-2
Ano: 1990

Cotação:

Michael Kamen: Concerto for Guitar
Michael Kamen/Eric Clapton: Edge of Darkness (Nuclear Train)* – Tomoyasu Hotei/National Philharmonic Orchestra/*Seattle Symphony Orchestra/Michael Kamen


Selo:
Decca/London Records
Catálogo:
POCF-1001
Ano: 1998

Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Em 1990, ainda recém saídos da sua dupla colaboração em Lethal Weapon 1 e 2, Kamen e Sanborn gravaram o concerto para Saxofone e orquestra, que o compositor compôs para o saxofonista. Um instrumento pouco habitual a aparecer como solista no repertório clássico, o saxofone recebe uma extraordinária oportunidade para brilhar neste primeiro concerto de Kamen. O som reflete os dois mundos de Kamen, o rock e a música clássica, e longe de ser exigente com o ouvinte, obriga o solista a um desempenho virtuoso. O concerto está assente na mesma linguagem musical que encontramos na maior parte do trabalho para cinema de Kamen, altamente melódica, com uma cadência muito mais pop que clássica, e logo muito mais apelativa para um número considerável de ouvintes, mas ainda assim profundamente profissional e artisticamente válida. O Concerto for Saxophone and Orchestra é em três movimentos, sendo o mais longo o primeiro, que introduz todas as idéias principais. A estrutura é rápido, lento, rápido, os dois últimos movimentos tocados sem pausa entre eles. A introdução é suave, feita pelos violoncelos e contra-baixos, dando rapidamente lugar ao solista, apresentando o tema principal ouvido no decorrer do concerto.

A música é, mesmo nos seus momentos mais calmos, jovem, movimentada e arrojada. Depois de um desenvolvimento completo do primeiro tema, é-nos introduzido um segundo, mas movimentado, fortemente pontuado pelo uso de percussão e com uma maior proeminência dos metais. Este segundo tema ocupa a maior parte do movimento. Mais à frente, dois outros temas que vão ser usados nos 2º e 3ºs movimentos do concerto são rapidamente apresentados, e depois concluímos com o tema que abriu o concerto, num modo mais contemplativo. O segundo movimento é em tempo de adágio, com uma melodia mais melancólica, sabiamente suportada pelas cordas e madeiras, e já ouvida no primeiro movimento. Esta dá mais tarde lugar a um segundo tema, melódica e estruturalmente próximo do primeiro tema do primeiro movimento. Depois de uma apresentação completa deste, uma serena passagem leva-nos para o terceiro movimento, anunciado pelo estrondoso surgimento do tímpano. Este movimento final, o mais agitado dos três, e também o mais curto, apresenta apenas um tema, que sofre múltiplas variações no decorrer dos cerca de cinco minutos de duração. A coda apresenta um breve recapitular dos dois temas principais do primeiro movimento, e é completada com o obrigatório tutti. O mais surpreendente do Concerto não é tanto a aparente facilidade de criar uma obra que junta o saxofone com a orquestra, um idioma mais pop com outro clássico, mas sim a extraordinária exigência que é feita ao solista. São poucos os momentos que há para o interprete respirar, e os que há são incrivelmente curtos.

Kamen encontrou em David Sanborn o interprete ideal para o seu concerto, um música que claramente simpatiza com a peça e dá uma interpretação inesquecível. A orquestra de Sidney Sax, toca com a vivacidade e entusiasmo apropriado para uma estréia mundial, deixando transparecer com clareza a excitação de estarem a tocar algo novo. O CD é completado com quatro peças num idioma mais pop e um excerto de uma partitura para cinema. Das quatro miniaturas para saxofone, banda e orquestra, a primeira, “Helen Claire”, é a menos satisfatória. As outras três formam um tríptico, e são dedicadas às filhas de Kamen, Sasha, Zoe e Sandra, seguindo um padrão de rápido, lento, rápido. Na última destas, um convidado especial, o guitarrista Eric Clapton, contribui com um solo de guitarra. Para terminar o CD, um excerto de “Brasil”, intitulado “Waiting for Daddy”, que usa a famosa canção de Ary Barroso. Uma forma fantástica de terminar um álbum, que depois de tantos anos ainda é um dos meus favoritos.

Oito anos separam o primeiro concerto de Kamen do segundo, para guitarra elétrica, banda rock e orquestra, resultante de uma encomenda de Eric Clapton. Se o primeiro é uma experiência musical extraordinária, este novo concerto pouco mais é do que satisfatório. Toda a estrutura segue a do concerto para saxofone. O primeiro movimento tem também dois temas principais, o primeiro mais suave, o segundo mais agressivo. O segundo movimento, o mais lento, é o menos interessante dos três. O movimento final, em tempo de allegro, é o mais satisfatório dos três. O grande problema não está na falta de inovação, ou na integração da guitarra e banda rock no universo da orquestra, mas antes nas débeis transições entre os vários temas e idéias que vão sendo desenvolvidos nos vários movimentos. Se os temas são interessantes, as passagens de uns para os outros cortam o contínuo da audição, transformando aquilo que podia e devia ser uma interessante experiência auditiva, apenas numa forma de passar o tempo. Ao contrário do seu antecessor, desta vez a orquestra não toca com o mesmo brilho, muito embora o faça sem falhas. O solista é o japonês Tomoyasu Hotei, mas que facilmente passaria por Clapton, já que Kamen emulou o estilo do guitarrista para o concerto. Para completar o CD temos “Nuclear Train”, composto por Clapton e Kamen, aqui interpretado por Hotei e a Seattle Symphony Orchestra, e o movimento final do concerto para guitarra, sem a guitarra, o que é uma estranha surpresa. Deixa no entanto perceber melhor os dotes de Kamen como orquestrador. Infelizmente, e mesmo sendo este um disco muito menos desejável que o primeiro, só foi editado no Japão, pelo que os que o procuram só o conseguiram obter com os inevitáveis custos adicionais que isso implica.

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