KILL BILL Vol. 1
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Selo:
Maverick
Catálogo: 624857

Ano: 2003

Faixas:
1. Bang Bang (My Baby Shot Me Down) - Nancy Sinatra
2. That Certain Female - Charlie Feathers
3. The Grand Duel - (Parte-Prima) - Luis Bacalov
4. Twisted Neve - Bernard Herrmann
5. Queen Of The Crime Council - diálogos
6. Ode To O-ren Ishii - The RZA
7. Run Fay Run - Isaac Hayes
8. Green Hornet - Al Hirt
9. Battle Without Honor Or Humanity - Tomoyasu Hotei
10. Don´t Let Me Misunderstood - Santa Esmeralda
11. Woo Hoo - The 5.6.7.8's
12. Crane/White Lightning - The RZA/Charles Bernstein
13. The Flower Of Carnage - Meiko Kaji
14. The Lonely Shepherd - Zamfir
15. You´re My Wicked Life - diálogos
16. Ironside - Quincy Jones
17. Super 16 - Neu!
Duração: 47:15
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 

Depois de seis anos do apenas morno Jackie Brown, o cineasta pop por excelência, Quentin Tarantino, voltou - e em grande estilo. Os filmes de Tarantino se caracterizam pelo enorme número de citações e elementos retirados de filmes, séries de TV, música, quadrinhos, e por aí vai, e neste Kill Bill Vol. 1 o diretor radicaliza a fórmula. O filme nada mais é que um compêndio de tudo o que ele absorveu em seu tempos de atendente de video-locadora, ou seja, é uma mistura de spaghetti-western, policial japonês, filme de artes marciais, seriados da TV dos anos 70 e até mesmo de animês. De tão longo, o filme acabou sendo dividido em duas partes (ou volumes), e o que poderia resultar em uma grande bobagem, acabou se revelando uma exagerada e divertida homenagem aos filmes de ação B, materializada na figura de Uma Thurman. Afinal, o que poderia ser mais pop e cool do que uma linda vingadora vestindo um traje quase idêntico ao que o Rei das artes marciais,  Bruce Lee, usou em O Jogo da Morte?

Os filmes de Tarantino são aqueles raros exemplos de produções em que a seleção musical tem uma importância fundamental, funcionando tão bem quanto uma trilha incidental original. Segundo o próprio cineasta, quando ele está filmando, o faz já pensando na música que será utilizada acompanhando a imagem. Na verdade, Kill Bill Vol. 1 é o primeiro filme de Tarantino que conta com músicas especialmente compostas para ele, mas chamar as duas curtas faixas de The RZA (Robert Diggs, do grupo de rap Wu-Tang Clan) de trilha sonora original é um exagero. Assim, nesta primeira parte de Kill Bill, Tarantino na maior parte do tempo não se utilizou de uma partitura especialmente composta para seu filme, mas sim construiu uma trilha pinçando, de sua discoteca particular, canções antigas e temas de outros filmes. E não estamos frente a uma simples coletânea de canções: as seleções musicais funcionam efetivamente como um score acompanhando a ação que transcorre na tela, ainda que, em disco, fique ressaltada a falta de unidade típica da utilização de elementos das mais diversas origens. Emoldurando sua história de vingança, Tarantino buscou as correspondências musicais aos gêneros nos quais ela se inspirou.

As referências mais óbvias a seriados na TV são encontradas, no CD, em "Ironside" (a introdução do tema da série estrelada por Raymond Burr, composto por Quincy Jones), e no tema de "Green Hornet", composto por Billy May (e interpretado pelo trompetista Al Hirt) para a série dos anos 60 que revelou Bruce Lee. Já as referências musicais cinematográficas são mais variadas. Do cinema japonês Tarantino resgata o poderoso tema de um filme de yakuzas (as máfias japonesas), Battle Without Honor and Humanity (1998), composto por Tomayasu Hotei. A canção "The Flower of Carnage", interpretada por Meiko Kaji, foi extraída do filme Lady Snowblood (1973). Representando o spaghetti-western, foi incluído o belo tema composto pelo argentino Luis Bacalov, no melhor estilo de Ennio Morricone (presente no filme com o tema de A Morte Anda a Cavalo, que infelizmente foi omitido do CD), para The Grand Duel, produção dirigida por Giancarlo Santi em 1972. Apesar de não ter sido composta para nenhum western, a seleção do flautista Georges Zamfir, "The Lonely Shepherd", é uma referência indireta, já que ela faz parte da trilha sonora de Once Upon a Time in America, de Sergio Leone, o maior diretor do gênero e do qual Tarantino é um grande fã. Até mesmo o blaxploitation, gênero já homenageado pelo diretor em Jackie Brown, está presente na faixa "Run Fay Run", da trilha do grande Isaac Hayes para o filme estrelado por ele mesmo Tough Guys, de 1973 (no filme há outra música de Hayes, Truck Turner, não incluída no CD).

A salada musical continua com canções pop de épocas variadas - a soturna balada "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", com  Nancy Sinatra no vocal, "Woo Hoo" do grupo de surf-music japonês The 5.6.7.8's, e até mesmo a famosa versão "flamenco brega" de "Don´t Let Me Misunderstood", por Santa Esmeralda, ouvida no duelo entre "A Noiva" (Uma) e O-ren Ishii (Lucy Liu). No entanto, a "pérola" do álbum é o resgate que Tarantino fez de uma composição esquecida de um dos maiores compositores do cinema de todos os tempos, Bernard Herrmann. Para acompanhar a aparição da assassina interpretada por Daryl Hannah, Tarantino selecionou a música de Twisted Nerve,  filme de suspense inglês de 1968 para o qual Herrmann compôs a partitura original. Do mesmo modo que o vilão daquele filme, Hannah assobia o tema de Herrmann, uma composição que, mesmo sendo curta (pouco menos de 1:30 de duração), é admirável, apresentando algumas das características de harmonia e orquestração que fizeram de Herrmann um dos gênios da música de cinema. Se outros méritos não tivesse este CD de Kill Bill Vol. 1, a inclusão deste tema, até agora inédito, já faria dele uma aquisição obrigatória.

O álbum é completado por duas músicas especialmente compostas para o filme por The RZA, mais algumas seleções musicais de Charlie Feathers, Neu, e trechos de diálogos e efeitos sonoros. Em suma, poderíamos classificar a música de Kill Bill Vol. 1 como kitsch, brega, retrô, por vezes engraçada, às vezes emocionante... mas, acima de tudo, ela é a cara do filme - uma genial colagem que será melhor apreciada por quem tem mais de 40 anos de idade.

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