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Depois de
seis anos do apenas morno Jackie Brown, o cineasta pop por
excelência, Quentin Tarantino, voltou - e em grande estilo. Os filmes de
Tarantino se caracterizam pelo enorme número de citações e elementos
retirados de filmes, séries de TV, música, quadrinhos, e por aí vai, e
neste Kill Bill Vol. 1 o diretor radicaliza a fórmula. O filme
nada mais é que um compêndio de tudo o que ele absorveu em seu tempos de
atendente de video-locadora, ou seja, é uma mistura de
spaghetti-western, policial japonês, filme de artes marciais,
seriados da TV dos anos 70 e até mesmo de animês. De tão longo, o filme
acabou sendo dividido em duas partes (ou volumes), e o que poderia
resultar em uma grande bobagem, acabou se revelando uma exagerada e
divertida homenagem aos filmes de ação B, materializada na figura de Uma
Thurman. Afinal, o que poderia ser mais pop e cool do que
uma linda vingadora vestindo um traje quase idêntico ao que o Rei das
artes marciais, Bruce Lee, usou em O Jogo da Morte?
Os filmes de Tarantino são aqueles raros exemplos de produções em que a
seleção musical tem uma importância fundamental, funcionando tão bem
quanto uma trilha incidental original. Segundo o próprio cineasta,
quando ele está filmando, o faz já pensando na música que será utilizada
acompanhando a imagem. Na verdade, Kill Bill Vol. 1 é o primeiro
filme de Tarantino que conta com músicas especialmente compostas para
ele, mas chamar as duas curtas faixas de The RZA (Robert Diggs, do grupo
de rap Wu-Tang Clan) de trilha sonora original é um exagero.
Assim, nesta primeira parte de Kill Bill, Tarantino na maior
parte do tempo não se utilizou de uma partitura especialmente composta
para seu filme, mas sim construiu uma trilha pinçando, de sua discoteca
particular, canções antigas e temas de outros filmes. E não estamos
frente a uma simples coletânea de canções: as seleções musicais
funcionam efetivamente como um score acompanhando a ação que
transcorre na tela, ainda que, em disco, fique ressaltada a falta de
unidade típica da utilização de elementos das mais diversas origens.
Emoldurando sua história de vingança, Tarantino buscou as
correspondências musicais aos gêneros nos quais ela se inspirou.
As referências mais óbvias a seriados na TV são encontradas, no CD, em "Ironside"
(a introdução do tema da série estrelada por Raymond Burr, composto por
Quincy Jones), e no
tema de "Green Hornet", composto por Billy May (e interpretado pelo
trompetista Al Hirt) para a série dos anos 60 que revelou Bruce Lee. Já
as referências musicais cinematográficas são mais variadas. Do cinema
japonês Tarantino resgata o poderoso tema de um filme de yakuzas (as
máfias japonesas), Battle Without Honor and Humanity (1998),
composto por Tomayasu Hotei. A canção "The Flower of Carnage",
interpretada por Meiko Kaji, foi extraída do filme Lady Snowblood
(1973). Representando o spaghetti-western, foi incluído o belo
tema composto pelo argentino Luis Bacalov, no melhor estilo de
Ennio Morricone
(presente no filme com o tema de A Morte Anda a Cavalo, que
infelizmente foi omitido do CD), para The Grand Duel, produção
dirigida por Giancarlo Santi em 1972. Apesar de não ter sido composta
para nenhum western, a seleção do flautista Georges Zamfir, "The
Lonely Shepherd", é uma referência indireta, já que ela faz parte da
trilha sonora de Once Upon a Time in America, de Sergio Leone, o
maior diretor do gênero e do qual Tarantino é um grande fã. Até mesmo o
blaxploitation, gênero já homenageado pelo diretor em Jackie
Brown, está presente na faixa "Run Fay Run", da trilha do grande
Isaac Hayes para o filme estrelado por ele mesmo Tough Guys, de
1973 (no filme há outra música de Hayes, Truck Turner, não
incluída no CD).
A salada musical continua com canções pop de épocas variadas - a
soturna balada "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", com Nancy Sinatra no
vocal, "Woo Hoo" do grupo de surf-music japonês The 5.6.7.8's, e
até mesmo a famosa versão "flamenco brega" de "Don´t Let Me
Misunderstood", por Santa Esmeralda, ouvida no duelo entre "A Noiva"
(Uma) e O-ren Ishii (Lucy Liu). No entanto, a "pérola" do álbum é o
resgate que Tarantino fez de uma composição esquecida de um dos maiores
compositores do cinema de todos os tempos,
Bernard Herrmann.
Para acompanhar a aparição da assassina interpretada por Daryl Hannah,
Tarantino selecionou a música de Twisted Nerve, filme de
suspense inglês de 1968 para o qual Herrmann compôs a partitura
original. Do mesmo modo que o vilão daquele filme, Hannah assobia o tema
de Herrmann, uma composição que, mesmo sendo curta (pouco menos de 1:30
de duração), é admirável, apresentando algumas das características de
harmonia e orquestração que fizeram de Herrmann um dos gênios da música
de cinema. Se outros méritos não tivesse este CD de Kill Bill Vol. 1,
a inclusão deste tema, até agora inédito, já faria dele uma aquisição
obrigatória.
O álbum é completado por duas músicas especialmente compostas para o
filme pelo rapper RZA, do The Wu Tang Clan, mais algumas seleções musicais de Charlie Feathers,
Neu, e trechos de diálogos e efeitos sonoros. Em suma, poderíamos
classificar a música de Kill Bill Vol. 1 como kitsch,
brega, retrô, por vezes engraçada, às vezes emocionante... mas, acima de
tudo, ela é a cara do filme - uma genial colagem que será melhor
apreciada por quem tem mais de 40 anos de idade.
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