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Muitos
consideraram Kill Bill Vol. 2 inferior à parte que lhe precedeu.
Eu já não iria tão longe, e diria que
o diretor, na
conclusão de sua trama de vingança, decidiu seguir um
estilo mais próximo ao dos seus filmes anteriores. Portanto, quem
esperava mais cenas de ação regadas a litros de sangue, como no
confronto entre a Noiva e os Crazy 88, certamente decepcionou-se. O fato
é que o Vol. 2 sustenta-se mais em situações irônicas,
drama e diálogos, e a única grande cena de luta do filme está mais para
vale-tudo do que para artes marciais. Eu gostei bastante do
filme, contudo há de fato um aspecto dele que é inferior: a trilha
sonora do
Vol. 2 mantém o padrão seguido no filme anterior, porém
indiscutivelmente sem o mesmo brilho. Isto fica bem caracterizado no CD
da trilha sonora, que a exemplo do álbum do Vol. 1, inclui
trechos de diálogos do filme – normalmente acho isso uma idiotice, mas
dado o caráter peculiar dos textos de Tarantino, eles até ajudam a criar
um clima adequado à audição das músicas que se seguem.
Escutando este álbum, fica-se com a impressão que o melhor da seleção
musical ficou na trilha anterior, e que para a segunda ficaram
reservadas as "sobras". Esta impressão não é diminuída pelo rap "Black
Mamba" do The Wu Tang Clan (que não aparece na relação de faixas na capa
do CD), ou ainda "Malagueña Salerosa", tradicional canção mexicana
interpretada pelo grupo Chingon, em gravação produzida pelo parceiro de
Tarantino, Robert Rodriguez. São faixas que poderão agradar a muitos (no
caso do rap, especialmente criada para o filme/álbum), mas o
problema é que desta vez não há aquelas combinações de imagem e música
que, como ocorre várias vezes durante o Vol. 1, resultam geniais.
E, separada das imagens, a seleção musical de Kill Bill Vol. 2
resulta numa interessante, porém aleatória, coletânea de composições. De
um modo geral, esta trilha reflete a ambientação e ritmo do filme, o que
significa trocar os sons mais fortes e inspirados pela Ásia por outros
mais introspectivos ou representativos do sul dos EUA e do México. O CD
inicia com o monólogo de Uma Thurman sobre a sua vingança, precedendo a
canção de Shivaree "Goodnight Moon" (extraída do álbum de 1999 "I
Oughtta Give You A Shot In the Head for Making Me Live in This Dump").
Ennio Morricone,
que estava ausente do primeiro álbum, faz-se presente no filme e no
disco com três faixas de seus antigos spaghetti westerns –
"Il Tramonto", "L’ Arena" e "A Silhouette of Doom" - porém, nenhuma tem
o impacto ou é utilizada no filme de forma tão memorável como o tema "Death
Rides a Horse", que infelizmente ficou de fora do CD do Vol. 1
(mas pode ser encontrado na coletânea de Morricone Movie
Masterpieces, lançada no Brasil). O compositor Luis Bacalov retorna
no Vol. 2, não com a música de algum spaghetti
western, mas sim com "Summertime Killer", típica dos filmes
policiais dos anos 70. Se desta vez não temos Nancy Sinatra
cantando a melancólica "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)",
a trilha do
Vol. 2 apresenta "About Her", interpretada por Malcolm McLaren, que
representa o lado mais sentimental que a trama do filme adquire próximo
ao seu final. Dentre todas as faixas do CD, parece-me que esta é
a única capaz de transcender às demais e entrar para a cultura pop/cinematográfica
dos filmes de Tarantino. "The Chase", de Alan Reeves e Phil Steele, é
uma interessante instrumental à la anos 60, porém, por melhor que esta e
outras canções que completam o álbum sejam utilizadas no filme (Johnny
Cash incluso), a trilha sonora de Kill Bill Vol. 2 não consegue
cativar o ouvinte como sua predecessora. |