|
Krull,
dirigido em 1983 por Peter Yates, pode ser considerado como uma
tentativa inglesa de ingresso no rentável filão das fantasias de ficção
científica que pulularam nas telas a partir do Star Wars
original, de 1977. Porém, algo não deu certo e o filme afundou nas
bilheterias. Razões para isso certamente existiram - o enredo, uma
espécie de conto de fadas que narra a invasão do planeta Krull (uma
réplica da Inglaterra medieval) por alienígenas conhecidos como
Assassinos, liderados pela monstruosa Besta, é uma simples mistura de
clichês do gênero. Para piorar as coisas os efeitos visuais, em que
pesem os esforços do mestre das miniaturas Derek Meddings, são para
dizer o mínimo irregulares, mesmo para os padrões da época. Por sorte o
filme contou com outros valores de produção que evitaram a tragédia
total, como aquele que considero o melhor de todos - a magnífica
partitura composta por
James Horner.
Para estabelecer o tom que assumirá este
comentário, afirmo desde já que Krull é, na minha opinião, uma
obra-prima, das melhores - senão, a melhor - coisas que o compositor já
fez até hoje. Este é um
score composto quando Horner ainda estava no início de sua carreira,
e nele podemos ouvir todo o vigor e a audácia de um jovem artista que
queria marcar presença não apenas com um estrondo, mas com música
arrebatadora e marcante. Para isso certamente ajudaram as ricas
orquestrações de Greig McRitchie, que colaborou com o compositor em
várias ocasiões. Por ser uma obra de
Horner, obviamente nela encontraremos similaridades com outras de suas
trilhas originais, como
Star Trek II: The Wrath of Kahn e a
posterior Willow, mas o fato é que esta é mais rica, intensa e
deliciosamente aventureira que as que lhe seguiram. Em muito ela é um pungente
tributo às melodias criadas por
Erich Wolfgang
Korngold para os clássicos capa-e-espada de Hollywood, seus 90
minutos de duração são preciosos e ao final ela se consagra como o
grande elemento que move o filme. Por certo configura-se aqui um grande
contraste com recentes trabalhos de Horner em disco, já que poucos deles
resistiriam a uma versão estendida com essa duração (de fato, muitos
deles, ao final de 60 minutos, revelam-se extremamente cansativos, para
não dizer chatos).
Krull teve, até o momento em que escrevo este comentário, três
edições em CD: a primeira, em 1987, pela gravadora Southern Cross, com
45 minutos de duração; a segunda, em 1993, foi uma edição especial
expandida e limitada da Soundtrack Collectors com generosos 78 minutos,
produzida pelo próprio Horner e Doug Fake; e finalmente este CD duplo
lançado em 1998 pela Super Tracks, contendo todos os mais de 90 minutos
da trilha original (é a única ainda em catálogo). Ao iniciarmos sua
audição, fica claro que, apesar desta ser uma versão remasterizada a
partir das fitas originais, a qualidade do som não é tão melhor que a do
CD original da Southern Cross (nunca ouvi a segunda edição para opinar a
respeito), mas que de qualquer forma não empalidece a grande
performance da melhor orquestra do mundo, a London Symphony
Orchestra, com a ressalva de que algumas partes deste score
são tão difíceis de interpretar que, por vezes, somos surpreendidos por
alguns instrumentos fora de sincronia ou mesmo desafinados (metais em
especial).
O "Main Title", que fora criminosamente omitido do lançamento original,
é uma criação magnífica que inicia sutilmente com as vozes infantis do
coral Ambrosian Singers, para logo em seguida explodir com uma fanfarra
de metais que dura por quase trinta segundos antes de desembocar no
arrebatador tema principal, interpretado em força máxima por toda a
orquestra e que nos dá uma amostra do que vem pela frente. Se a primeira
faixa destaca o tema heróico, que tanto serve ao planeta Krull como para
os heroísmos do príncipe Colwyn, a segunda faixa, "Slayer´s Attack",
inicia com o belo tema de amor para cordas que acompanha o prólogo do
filme, passado durante o casamento de Colwyn e Lyssa. Quando os
Assassinos interrompem a cerimônia para raptar a princesa, o motivo
recorrente dos vilões é apresentado com força, interpretado com violinos
ásperos e descendentes, em uma óbvia referência à Sinfonia "The Planets",
de Holst. O efeito ameaçador é reforçado por vozes masculinas, antes da
faixa transformar-se em uma ruidosa cacofonia. O tema de amor é
plenamente desenvolvido para concerto em "Colwyn and Lyssa", porém
somente depois de ser ouvido em uma versão adaptada durante "Quest For
The Glaive", outra melodia admirável com tons religiosos ao final,
quando Colwyn encontra a mítica arma de 5 lâminas que utilizará para
combater os invasores.
Além destes temas principais, há alguns temas secundários como em "Widow's
Lullaby", onde o motivo dedicado à Viúva da Teia é interpretado por
oboé, harpa e o coral, e o arrebatador motivo para toda a orquestra
exaltado em "Riding The Fire Mares", um dos destaques do álbum e que
substituía o "Main Title" na abertura do CD da Southern Cross. O nome
desta faixa foi inspirado por Wagner e possui qualidade composicional
para se igualar ao seu inspirador; é uma das melhores composições de
James Horner. O compositor também criou material de ação estimulante e
bem construído para várias seqüências de ação, e é interessante neles
notar as primeiras versões de frases que seriam desenvolvidas em
scores posteriores. Ao ouvirmos esta partitura ficamos com a nítida
impressão que Horner ficou inspirado pelo filme e realmente gostou de
compor a música de Krull: ela tem uma vitalidade, energia e
vibração que a percorre de ponta a ponta, fato que dificilmente
ocorreria em trabalhos posteriores do autor. Talvez tenha ajudado o fato
de que, pela primeira vez, Horner tinha controle completo sobre sua
música e pôde experimentar com instrumentos e texturas incomuns (como a
grande seção de percussão ouvida ao final de "'Riding The Fire Mares" e
durante "Battle on the Parapets") e dissonância (como as perturbadoras
vozes masculinas em "Quicksand" e "Inside The Black Fortress", as
sonoridades metálicas para a aranha gigante em "'The Widow's Lullaby" e
os violinos em pizzicato de "The Widow's Web").
Horner tinha somente 30 anos quando compôs Krull, portanto era um
talento musical ainda sendo lapidado, desenvolvido. Mesmo assim, este
score é a prova de que muitas vezes um talento bruto é mais adequado
à produção de obras-primas do que a cerebral maturidade dos compositores
veteranos. Uma trilha sonora indispensável para qualquer fã da música de
cinema. |