THE LEGEND OF ZORRO
Música composta e regida por  James Horner

Selo:
Epic / Sony Music
Catálogo:
97751
Ano: 2005

Faixas:

1. Collecting the Ballots
2. Stolen Votes
3. To the Governor's... and then Elena
4. "This is who I am"
5. Classroom Justice
6. The Cortez Ranch
7. A Proposal with Pearls/Perilous Times
8. Joaquin's Capture and Zorro's Rescue
9. Jailbreak/Reunited
10. A Dinner of Pigeon/Setting the Explosives
11. Mad Dash/Zorro Unmasked
12. Just One Drop of Nitro
13. The Train
14. Statehood Proclaimed
15. "My Family Is My Life"
Duração: 75:34
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

Nos tempos que correm, a originalidade não é uma das virtudes mais apreciáveis no campo da música de cinema. No "Império das Temp Tracks", com o conservadorismo temático, a economia de meios e a contínua ameaça da demissão, não é fácil criar. Não é o momento para experimentos, e sim para desempenhar com profissionalismo cada encargo. É aqui onde James Horner continua sendo um dos melhores. Um compositor com uma carreira musical tão brilhante, a esta altura não deveria sofrer um julgamento sumaríssimo a cada vez que estréia seu último trabalho. Mas se até John Williams passa por isso, não seria de estranhar que isso ocorra com Horner. O problema é que com Horner há tempos já passaram dos limites da crítica construtiva, entrando diretamente no campo do descrédito, da zombaria, e inclusive do insulto.

O ponto mais alto da hipocrisia anti-horneriana chega com A Lenda do Zorro, quando criticam o compositor por ter reutilizado os dois temas principais de A Máscara do Zorro, o do Zorro e o tema de amor (tema central). Nós devemos estar ficando todos  loucos… Mas enfim, mudando de assunto, mas não de protagonista, tratemos de analisar esta seqüência tão aguardada, e ao mesmo tempo tão forçada. Desejada, porque o duelo interpretativo entre Catherine Zeta-Jones e Antonio Banderas do filme original marcou época. Forçada, porque apesar dos autores do roteiro serem os geniais Terry Rossio e Ted Elliot (A Máscara do Zorro, Shrek, Piratas do Caribe), eles tiraram muito da credibilidade do filme. Esperava-se uma Lenda do Zorro mais carismática, com um roteiro que terminasse de amarrar as pontas, que mitificasse a figura do herói mascarado da Califórnia, que exaltasse ainda mais a beleza da sempre radiante Zeta-Jones. O resultado é um filme ideal para passarmos uma tarde no cinema, mas insuficiente e em certos momentos até ridículo. Em vista disso, Horner decidiu contar sua própria história, ajudar o filme desde o início, e optou utilizar referências temáticas à A Máscara do Zorro para que o espectador se sinta cômodo escutando o tema de Zorro ou o tema de amor, inclusive naquelas situações onde poderia ter optado por música descritiva ou algo mais sofisticado. É aqui que se revela a tarimba de um excelente compositor.

O fã da música de cinema certamente esperava por mais, e é certo que mais lhe poderia ser oferecido, mas se isso ocorresse o filme terminaria de ir para o esquecimento. A música de Horner ajuda a manter viva a chama das recordações de A Máscara, tornando realidade A Lenda. O tema de amor de Alejandro e Elena (também tema central, e em ocasiões separando suas três melodias principais, para utilizá-las em separado), e o tema do Zorro (essa “malagueña” reconstruída, clara homenagem à terra natal de Banderas) são dois dos motivos mais inspirados e memoráveis da carreira do compositor californiano. E se antes lhe serviram para aumentar sua fama, agora servem para conservá-la.

Ao nível de estrutura musical em sentido estrito, podemos encontrar os necessários fatores de diferenciação em relação ao seu precedente. Este score é menos contundente e complexo, porém é muito mais direto, dinâmico e ligeiro. A influência hispânica na música se multiplica, mas aqui ela é reconduzida, integrada como um elemento natural e inerente à própria partitura orquestral, e não como um recurso meramente ambiental e curioso. “Collecting the Ballots”, primeira música do filme, inicia com o já mítico “The Plaza of Execution”. Evidentemente, arranca com a apresentação dos metais interpretando o tema do Zorro, entre fortes percussões, palmas, castanholas, guitarras espanholas, flautas de pan e sobretudo com um grande aparato orquestral. Daqui passaremos a um tema que mantém a tônica de ação, “Stolen Votes”, de certo modo aparentado estruturalmente com “The Ride” ou “Tornado in the Barracks” de A Máscara.

Ainda assim, que ninguém se engane: as variações, as guinadas de Horner são contínuas, tratando de romper um pouco com a monotonia temática e essa sensação de repetição, que poderia ser confundida com falta de idéias ou interesse. “To the Governor's… and then Elena” e “This is Who I Am”, potencializam o lado romântico, mas também dramático da história. A ruptura do casamento, primeiro buscada e logo forçada pela grande conspiração que se ergue sobre a Califórnia. A evocação do amor perdido. Tudo isso é perfeitamente indicado por Horner, através das cordas e, evidentemente, do tema de amor. Com certeza aqueles que no passado apreciaram “Elena and Esperanza” ou “Elena's Truth”, não poderão se queixar do aumento da dramaticidade introduzido por Horner.

“Joaquin's Capture and Zorro's Rescue” é um universo de contrastes; primeiro, uma exemplar passagem de ação, de poderosas percussões e agressiva utilização da orquestra, e logo uma suave passagem com referências ao tema de amor, aqui usado como metáfora do amor fraternal. E, para aqueles que alegam que Joaquin necessitaria de um tema, respondo que tematicamente, caso isso ocorresse, seria rompida a linha argumental da partitura de Horner e a coerência com sua predecessora, que também omitiu um tema para o personagem de Anthony Hopkins. O elemento humorístico da história, a busca pela piada fácil nesta continuação (era inteligente no filme anterior), traz reflexos musicais em faixas como “Proposal with Pearls/Perilous Times” ou “Jailbreak/Reunited”, além de outras partes muito mais descritivas, ou meramente de ação. “Dinner of Pigeon/Settling the Explosives” é uma das grandes surpresas do score: mantendo o tom de ênfase e tensão buscado em “Cortez Ranch”, Horner constrói uma peça exemplar para descrever a subtrama, introduzindo um novo motivo antagonista, de início contido, mas que irá crescendo. 

Após a transição musical de “Mad Dash/Zorro Unmasked” e “Just One Drop of Nitro”, faixas necessárias mas sem elementos novos a destacar em relação ao que foi visto até agora, entramos no clímax do filme, destacando especialmente “Train”, uma antológica composição de 11 minutos onde Horner volta a mostrar ser o grande compositor que sempre foi, escrevendo uma peça memorável de ação, fresca, intensa, de ritmo prodigioso. Possivelmente das melhores de toda a sua carreira, com um predomínio do trompete solo à la “Morricone”, e uns giros “Korngoldianos” que já haviam sido empregados pelo próprio John Williams. Sem dúvida, infinitamente melhor que os 13 minutos do grande tema de ação de sua predecessora, “Leave No Witnesses…”. Um tema apreciável, mas não muito empolgante. Totalmente o contrário deste “Train”.

Para nos recuperarmos um pouco da adrenalina musical, seguem “Statehood Proclaimed”, com uma nova interpretação do tema de amor, contida e elegante (lógico, pois estamos na cena onde é proclamada a anexação da Califórnia aos Estados Unidos), e  os end titles, aqui sob o título “My Family is my Life…”, que iniciam com o ar seguro e hispânico do tema do Zorro, para posteriormente transformar-se no tema de amor, que levará a voz cantante antes de entrar no vertiginoso “finale” de palmas e crescendo orquestral com a reaparição do tema do Zorro.

Os que desfrutaram de A Máscara do Zorro, e ficaram com aquele gosto de quero mais - mais desenvolvimento e variações dos temas principais, mais coesão do conjunto, e sobretudo mais novidade e dinamismo, já sabem que A Lenda do Zorro os espera. É difícil dizer que é melhor que a sua predecessora, e em parte isso seria tremendamente injusto pois esta partitura joga com vantagem, mas podemos sim afirmar que ela pode ser muito mais desfrutável. Uma pena que não podemos dizer o mesmo do filme.

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