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Nos tempos
que correm, a originalidade não é uma das virtudes mais apreciáveis no
campo da música de cinema. No "Império das Temp Tracks", com o
conservadorismo temático, a economia de meios e a contínua ameaça da
demissão, não é fácil criar. Não é o momento para experimentos, e sim
para desempenhar com profissionalismo cada encargo. É aqui onde
James Horner
continua sendo um dos melhores. Um compositor com uma carreira musical
tão brilhante, a esta altura não deveria sofrer um julgamento
sumaríssimo a cada vez que estréia seu último trabalho. Mas se até
John Williams passa
por isso, não seria de estranhar que isso ocorra com Horner. O problema
é que com Horner há tempos já passaram dos limites da crítica
construtiva, entrando diretamente no campo do descrédito, da zombaria, e
inclusive do insulto.
O ponto mais alto da hipocrisia anti-horneriana chega com A Lenda do
Zorro, quando criticam o compositor por ter reutilizado os dois
temas principais de A Máscara do Zorro, o do Zorro e o tema de
amor (tema central). Nós devemos estar ficando todos loucos… Mas enfim,
mudando de assunto, mas não de protagonista, tratemos de analisar esta
seqüência tão aguardada, e ao mesmo tempo tão forçada. Desejada, porque
o duelo interpretativo entre Catherine Zeta-Jones e Antonio Banderas do
filme original marcou época. Forçada, porque apesar dos autores do
roteiro serem os geniais Terry Rossio e Ted Elliot (A Máscara do
Zorro, Shrek, Piratas do Caribe), eles tiraram muito
da credibilidade do filme. Esperava-se uma Lenda do Zorro mais
carismática, com um roteiro que terminasse de amarrar as pontas, que
mitificasse a figura do herói mascarado da Califórnia, que exaltasse
ainda mais a beleza da sempre radiante Zeta-Jones. O resultado é um
filme ideal para passarmos uma tarde no cinema, mas insuficiente e em
certos momentos até ridículo. Em vista disso, Horner decidiu contar sua
própria história, ajudar o filme desde o início, e optou utilizar
referências temáticas à A Máscara do Zorro para que o espectador
se sinta cômodo escutando o tema de Zorro ou o tema de amor, inclusive
naquelas situações onde poderia ter optado por música descritiva ou algo
mais sofisticado. É aqui que se revela a tarimba de um excelente
compositor.
O fã da música de cinema certamente esperava por mais, e é certo que
mais lhe poderia ser oferecido, mas se isso ocorresse o filme terminaria
de ir para o esquecimento. A música de Horner ajuda a manter viva a
chama das recordações de A Máscara, tornando realidade A
Lenda. O tema de amor de Alejandro e Elena (também tema central,
e em ocasiões separando suas três melodias principais, para utilizá-las
em separado), e o tema do Zorro (essa “malagueña” reconstruída, clara
homenagem à terra natal de Banderas) são dois dos motivos mais
inspirados e memoráveis da carreira do compositor californiano. E se
antes lhe serviram para aumentar sua fama, agora servem para
conservá-la.
Ao nível de estrutura musical em sentido estrito, podemos encontrar os
necessários fatores de diferenciação em relação ao seu precedente. Este
score é menos contundente e complexo, porém é muito mais direto,
dinâmico e ligeiro. A influência hispânica na música se multiplica, mas
aqui ela é reconduzida, integrada como um elemento natural e inerente à
própria partitura orquestral, e não como um recurso meramente ambiental
e curioso. “Collecting the Ballots”, primeira música do filme, inicia
com o já mítico “The Plaza of Execution”. Evidentemente, arranca com a
apresentação dos metais interpretando o tema do Zorro, entre fortes
percussões, palmas, castanholas, guitarras espanholas, flautas de pan e
sobretudo com um grande aparato orquestral. Daqui passaremos a um tema
que mantém a tônica de ação, “Stolen Votes”, de certo modo aparentado
estruturalmente com “The Ride” ou “Tornado in the Barracks” de A
Máscara.
Ainda assim, que ninguém se engane: as variações, as guinadas de Horner
são contínuas, tratando de romper um pouco com a monotonia temática e
essa sensação de repetição, que poderia ser confundida com falta de
idéias ou interesse. “To the Governor's… and then Elena” e “This is Who
I Am”, potencializam o lado romântico, mas também dramático da história.
A ruptura do casamento, primeiro buscada e logo forçada pela grande
conspiração que se ergue sobre a Califórnia. A evocação do amor perdido.
Tudo isso é perfeitamente indicado por Horner, através das cordas e,
evidentemente, do tema de amor. Com certeza aqueles que no passado
apreciaram “Elena and Esperanza” ou “Elena's Truth”, não poderão se
queixar do aumento da dramaticidade introduzido por Horner.
“Joaquin's Capture and Zorro's Rescue” é um universo de contrastes;
primeiro, uma exemplar passagem de ação, de poderosas percussões e
agressiva utilização da orquestra, e logo uma suave passagem com
referências ao tema de amor, aqui usado como metáfora do amor fraternal.
E, para aqueles que alegam que Joaquin necessitaria de um tema, respondo
que tematicamente, caso isso ocorresse, seria rompida a linha argumental
da partitura de Horner e a coerência com sua predecessora, que também
omitiu um tema para o personagem de Anthony Hopkins. O elemento
humorístico da história, a busca pela piada fácil nesta continuação (era
inteligente no filme anterior), traz reflexos musicais em faixas como
“Proposal with Pearls/Perilous Times” ou “Jailbreak/Reunited”, além de
outras partes muito mais descritivas, ou meramente de ação. “Dinner of
Pigeon/Settling the Explosives” é uma das grandes surpresas do score:
mantendo o tom de ênfase e tensão buscado em “Cortez Ranch”, Horner
constrói uma peça exemplar para descrever a subtrama, introduzindo um
novo motivo antagonista, de início contido, mas que irá crescendo.
Após a transição musical de “Mad Dash/Zorro Unmasked” e “Just One Drop
of Nitro”, faixas necessárias mas sem elementos novos a destacar em
relação ao que foi visto até agora, entramos no clímax do filme,
destacando especialmente “Train”, uma antológica composição de 11
minutos onde Horner volta a mostrar ser o grande compositor que sempre
foi, escrevendo uma peça memorável de ação, fresca, intensa, de ritmo
prodigioso. Possivelmente das melhores de toda a sua carreira, com um
predomínio do trompete solo à la “Morricone”, e uns giros
“Korngoldianos” que já haviam sido empregados pelo próprio John
Williams. Sem dúvida, infinitamente melhor que os 13 minutos do grande
tema de ação de sua predecessora, “Leave No Witnesses…”. Um tema
apreciável, mas não muito empolgante. Totalmente o contrário deste “Train”.
Para nos recuperarmos um pouco da adrenalina musical, seguem “Statehood
Proclaimed”, com uma nova interpretação do tema de amor, contida e
elegante (lógico, pois estamos na cena onde é proclamada a anexação da
Califórnia aos Estados Unidos), e os end titles, aqui sob o
título “My Family is my Life…”, que iniciam com o ar seguro e hispânico
do tema do Zorro, para posteriormente transformar-se no tema de amor,
que levará a voz cantante antes de entrar no vertiginoso “finale” de
palmas e crescendo orquestral com a reaparição do tema do Zorro.
Os que desfrutaram de A Máscara do Zorro, e ficaram com aquele
gosto de quero mais - mais desenvolvimento e variações dos temas
principais, mais coesão do conjunto, e sobretudo mais novidade e
dinamismo, já sabem que A Lenda do Zorro os espera. É difícil
dizer que é melhor que a sua predecessora, e em parte isso seria
tremendamente injusto pois esta partitura joga com vantagem, mas podemos
sim afirmar que ela pode ser muito mais desfrutável. Uma pena que não
podemos dizer o mesmo do filme.
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