LICENCE TO KILL
Música composta e regida por
Michael Kamen

Selo: MCA 

Catálogo:
MCAD-6307
Ano: 1989

Faixas:
1. License to Kill - Gladys Knight 
2. Wedding Party - Ivory 
3. Dirty Love - Tim Feehan 
4. Pam - Michael Kamen 
5. If You Asked Me To - Pattie LaBelle
6. James & Felix on Their Way to Church - Michael Kamen
7. His Funny Valentine - Michael Kamen
8. Sanchez Is in the Bahamas/Shark Fishing - Michael Kamen
9. Ninja - Michael Kamen
10. Licence Revoked - Michael Kamen

Duração: 45:18
Cotação:


Comentário de
Hugo Moya Arancibia

 

Em 1989 John Barry sofria de uma grave uma infecção intestinal que quase lhe custou a vida, e que o obrigou a submeter-se a quatorze intervenções cirúrgicas. Ele voltou em 1990, quando compôs a trilha sonora ganhadora do Oscar Dança com Lobos. Apesar das esperanças dos produtores da franquia James Bond de que Barry se recuperaria a tempo para compor o score de 007 - Permissão para Matar, isto não ocorreu. Por esta razão, a ausência de Barry propiciou uma série de mudanças que finalmente fariam com que a música de Bond se afastasse substancialmente de suas tradições. Tudo faz supor que em 1989 os produtores assumiram, explicitamente, a importância que tinha a trilha sonora como um produto comercial acessório do filme. Esta "descoberta" fez com que esta trilha se afastasse bastante da tradição musical de Bond.

Diante da impossibilidade de contar com John Barry, os produtores contrataram o falecido compositor Michael Kamen, encarregado somente de compor a partitura incidental do filme. Esta condição fica absolutamente clara na seqüência dos créditos iniciais, onde está registrado: “Score composed by Michael Kamen”. Esta situação significou que Kamen teve de criar uma trilha sonora sem ter idéia de quais canções seriam incluídas no filme, impossibilitando que ele pudesse utilizá-las como padrão em sua partitura. De fato, esta foi a primeira vez em que um compositor de trilhas sonoras de Bond não utilizou a canção principal como padrão para suas composições instrumentais. Michael Kamen era um destacado músico que compôs as partituras de filmes conhecidos, tais como a trilogia de Duro de Matar, os quatro Máquina Mortífera, Brazil - O Filme, Robin Hood: Príncipe dos Ladrões, Os Três Mosqueteiros, Os 101 Dálmatas e Don Juan de Marco, e cujo estilo de trabalho se caracterizava exatamente por participar na composição e posterior utilização instrumental das canções incluídas em suas trilhas sonoras. Há rumores que, originalmente, o tema principal desta película seria uma composição instrumental interpretada por Vic Flick (o guitarrista original do “Tema de James Bond”) e Eric Clapton, mas posteriormente os produtores decidiram continuar com a tradição de utilizar canções. Além disso, pela primeira vez desde 1963 (Moscou Contra 007), os produtores decidiram deixar a composição das canções para músicos completamente independentes do compositor da partitura principal. Foi assim que distintos músicos compuseram quatro diferentes canções para serem utilizadas no filme, as quais fazem parte do álbum. A respeito das canções utilizadas, registro o seguinte:

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“Licence To Kill”, composta por Narada Michael Walden, Jeffrey Cohen e Walter Afanasieff e interpretada por Gladys Knight, utilizada somente nos créditos principais. Trata-se de um tema que traz muitas reminiscências da canção principal de 007 Contra Goldfinger, inclusive seus primeiros acordes são muito parecidos. Isto implica, portanto, que se trata de uma canção no estilo utilizado na década de 60 para as canções de Bond. A intérprete Gladys Knight possui características similares a Shirley Bassey ou Tom Jones, o que deu à canção o toque de energia e força necessários. Apesar de todas estas características, a canção não teve nenhum destaque nas paradas de sucesso, e tampouco é lembrada como uma das mais destacadas da série, de fato é uma das mais ignoradas;
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“If You Asked Me Too”, composta por Diane Warren e interpretada por Patti La Belle, utilizada apenas nos créditos finais. Como no filme anterior, a canção composta para os créditos finais é bem melhor que a principal. Ela possui um estilo semelhante a “If There Was A Man” de 007 - Marcado para a Morte, ou seja, é uma bonita balada romântica interpretada por uma cantora de grande força. Atreveria a dizer que, se ela fosse a canção principal, teria uma aceitação muito boa, tanto que alguns anos depois foi popularizada mundialmente pela famosa cantora Celine Dion;
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“Wedding Party”, composta por Jimmy Duncan e Phillip Brennan e interpretada por Ivory, é uma canção dançante utilizada nas cenas da festa de casamento de Felix e Della;
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“Dirty Love”, composta por Steve Dubin e Jeff Pescetto e interpretada por Tim Feehan, utilizada para acompanhar uma violenta cena de luta entre Bond e seus inimigos em um bar da Flórida.

Frente a este cenário, Michael Kamen não teve outro caminho que não o de compor uma boa trilha sonora, sabendo de antemão de que somente não poderia prescindir da utilização do “Tema de James Bond”. Neste aspecto Kamen foi extremamente generoso, já que são muito poucos os filmes de Bond onde o uso desta assinatura musical é tão abundante. Das seis composições instrumentais que Kamen compôs para este disco, em quatro o tema está bem presente.
Tenho a impressão de que pela primeira vez na história de Bond, a trilha sonora é interpretada por uma grande orquestra em termos de número de componentes e instrumentos utilizados. A música foi interpretada pela National Philharmonic Orchestra, o que inevitavelmente produz um efeito de grandiosidade no mais puro estilo das grandes trilhas sonoras compostas por John Williams. Em relação à música incidental composta por Kamen devo mencionar que por muito tempo a considerei espetacular, inclusive cheguei a considerá-la como a segunda melhor após 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade. Mas com o passar do tempo, a chegada de trilhas sonoras posteriores e a reavaliação das trilhas anteriores, terminei por mudar de opinião. Claramente até aquele momento era a partitura que melhor soava ao ouvinte, basicamente devido à grande orquestra que interpretou a partitura, ainda que haja algumas passagens que não resultam muito interessantes de escutar, pelo menos sem imagens. Esta situação tende a atenuar-se com a inserção do “Tema de James Bond”, mais a incorporação de alguns acordes latinos. Em todo caso, estas passagens um tanto sem atrativos de ouvir eram uma constante no estilo de composição de Kamen, que se caracterizava por ter muitos efeitos sonoros, trocas violentas de melodia e utilização excessiva de instrumentos de percussão, que em grandes orquestras adquirem um destaque especial. Mas como assinalado antes, aqueles fatores convertem esta trilha em um trabalho bastante satisfatório e digno. É necessário destacar que, apesar de tratar-se de uma obra notadamente sinfônica, a interpretação do “Tema de James Bond” não se inspirou na versão  sinfônica de John Barry, mas sim na que era utilizada na década de 60. Tanto que marcou a volta de Vic Flick para que contribuísse com as interpretações da guitarra. Além disso, é justo registrar que Kamen incorporou uma grande variedade de arranjos para o “Tema de James Bond”, incluindo mais de um dentro de uma mesma composição, como no caso de “Licence Revoked”. Isto lhe deu um mérito adicional, já que de um modo geral o uso deste tema se resumia a um ou no máximo dois tipos de arranjos por filme.

Outro aspecto destacado da música de Kamen foi a novidade introduzida na seqüência de abertura “Gun Barrel Sequence”, onde ele mudou totalmente sua introdução, mantendo somente o arremate musical da seqüência. A partir de Kamen, todos os compositores sentiram-se com mais liberdade para inovar esta marca registrada que se havia mantido por quase toda a série, salvo por una pequena variação introduzida por Marvin Hamlish em 007 - O Espião que me Amava. Mantendo a tradição das trilhas anteriores, parte da música utilizada no filme não foi incluída no disco, e até agora não houve interesse em  resgatá-la em um álbum expandido ou em alguma compilação (inclusive este título, por não pertencer à EMI, não foi incluído nos relançamentos de trilhas da série ocorrido em 2003). Em resumo, a música funciona bem e as canções utilizadas no início e no final são satisfatórias, ainda que fique a curiosidade de como teria sido se Kamen tivesse participado de sua composição. Outras participações do músico como compositor de canções para filmes e sua posterior utilização instrumental nas trilhas sonoras indicam que ele teria feito um bom trabalho, basta mencionar como exemplos “Everything I Do, I Do It For You” de Robin Hood: Príncipe dos Ladrões e “All For One” de Os Três Mosqueteiros.

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