Live and Let Die
Música composta por George Martin


Selo:
EMI/Capitol
Catálogo:
72435-41421-2-3
Ano: 2003
Faixas:
1.Live And Let Die
2.Just A Closer Walk With Thee
3.Bond Meets Solitaire
4.Whispers Who Dares
5.Snakes Alive
6.Baron Samedi's Dance Of Death
7.San Monique
8.Fillet Of Soul
9.Bond Drops In
10.If He Finds It, Kill Him
11.Trespassers Will Be Eaten
12.Solitaire Gets Her Cards
13.Sacrifice
14.James Bond Theme
15.Gunbarrel/Snakebit
16.Bond To New York
17.San Monique
18.Bond And Rosie
19.The Lovers
20.New Orleans
21.Boat Chase
22.Underground Lair

Duração:
56:32
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha e Hugo Moya Arancibia

 
Este Live and Let Die marcou mais um momento delicado para a série oficial de filmes de James Bond, já que Sean Connery, em Diamonds are Forever, se despedira do personagem e John Barry, depois de sete participações consecutivas na música (uma como arranjador do tema principal de Monty Norman, e as outras como compositor das trilhas sonoras), não estava disponível. Os produtores, que  haviam amargado o fracasso do australiano George Lazenby como 007 em On Her Majesty´s Secret Service, escolheram como protagonista Roger Moore, que já havia sido considerado para o papel em Dr. No, e num lance audacioso, contrataram o também britânico George Martin - ex-produtor musical dos Beatles - para compor a música. Martin desenvolveu uma relação muito boa com os integrantes do lendário grupo de rock, e uma prova disso foi o convite que fez a Paul McCartney para compor e interpretar a canção principal deste filme. Paul compôs a canção em parceria com a esposa Linda, e a interpretou juntamente com seu grupo Wings. Sendo a primeira canção rock utilizada como tema principal de um filme de Bond, certamente ela quebrou a tradição de baladas utilizadas até então, e o fato é que o tema alcançou um sucesso sem precedentes, tendo inclusive sido indicado ao Oscar de Melhor Canção Original. Há poucos anos este tema novamente alcançou certa popularidade ao ser regravado pelo grupo Guns N’ Roses. A partir deste tema, Martin produziu a trilha mais pop até então, nela utilizando muita soul music - não esqueçamos que o filme, bem sucedido nas bilheterias e que garantiu a continuidade da série, inseria Bond na era dos filmes blaxploitation, em voga no início dos anos 70. O compositor inclusive adicionou uma atraente versão soul do tema principal interpretada pela cantora negra B.J. Arnau. A avaliar somente por sua primeira edição, esta era a única trilha na história de Bond que se baseava majoritariamente em uma única melodia composta especialmente para o filme, a qual podemos escutar reiteradamente em seis dos quatorze temas que compõem a versão original do disco. Esta melodia aparentemente faz referência ao conteúdo vodu que aparece na produção, particularmente nas seqüências relacionadas com o vilão Mr. Big/Dr. Kananga. Vejamos as faixas originais do disco:

1.   Live And Let Die ( Main Title )
2.   Just A Close Walk With Thee / New Second Line
3.   Bond Meets Solitare
4.   Whisper Who Dares
5.   Snakes Alive
6.   Baron Samedi's Dance Of Death
7.   San Monique
8.   Fillet Of Soul - New Orleans / Live And Let Die / Fillet Of Soul - Harlem 
9.   Bond Drops In
10. If He Finds It, Kill Him
11. Trespassers Will Be Eaten
12. Solitaire Gets Her Cards
13. Sacrifice
14. James Bond Theme

Destas 14 composições eliminamos quatro, que não foram compostas por Martin: as faixas 1 (de Paul e Linda McCartney e que é a canção principal), 2 (temas tradicionais da cultura negra norte-americana, que correspondem a uma dança típica dos habitantes de New Orleans), 8 (versão jazz/soul alternativa do tema principal) e 14 ( Tema de James Bond composto por Monty Norman). E dos dez temas restantes compostos por Martin, somente quatro não contém esta melodia a que fizemos referência (faixas 6, 7, 10, 13). Os outros seis temas contém esta melodia particular, que se insere nas várias composições, incluindo combinações com o “Tema de James Bond”. Ou seja, 60% dos temas presentes no álbum original se baseavam em uma mesma melodia. Isto poderia indicar falta de criatividade do compositor, que de resto se alinhou absolutamente à formula padrão para a música de Bond, utilizando instrumentalmente a canção principal e recorrendo razoavelmente a segmentos do “Tema de James Bond”. Muito da partitura seria o que hoje se classifica como lounge, especialmente nas faixas de source music, porém Martin mostrou ser um competente compositor de música para acompanhar a ação, em faixas dominadas por metais como "Snakes Alive", "Baron Samedi's Dance Of Death" (que a TV Globo utilizava nas chamadas da série Kung Fu) e "Sacrifice". De um modo geral é um trabalho que atende satisfatoriamente às necessidades do filme, e certamente difere do que foi feito anteriormente por Barry. As composições funcionam bem com as seqüências, à exceção de algumas nas quais a falta de experiência do compositor com o estilo musical da série fica em evidência. Isto significa que houve seqüências que tradicionalmente são acompanhadas de música e que neste caso não o foram, e vice versa. Um exemplo representativo é a longa perseguição de lanchas nos pântanos de Louisiana, que em sua maior parte não teve o acompanhamento de nenhuma nota musical. No livro “The Incredible World of 007” de Lee Pfeiffer e Philip Lisa, quando é analisado este assunto, é imediatamente destacado que “faltou a sensibilidade de John Barry para a musicalização de algumas cenas”. Mas a maior curiosidade sem dúvida fica por conta das músicas adicionais que iniciam a partir da faixa 15, contendo a totalidade dos temas ausentes da edição original e que dão uma nova dimensão à trilha. São elas:

1. Gunbarrel / Snakebite
2. Bond To New York 
3. San Monique - (alternate take) 
4. Bond And Rosie 
5. Lovers, The 
6. New Orleans 
7. Boat Chase 
8. Underground Lair
 
O lançamento destes temas tem o poder de mudar a opinião daqueles que tinham reservas quanto a esta trilha sonora (notadamente dos apreciadores do padrão imprimido à música da série por Barry). No mínimo, a inclusão das músicas adicionais faz baixar significativamente o índice de inclusão do tema característico do filme sobre o total da partitura, melhorando significativamente sua qualidade. Sob este ponto de vista, a música adicional deste score e a de On Her Majesty´s Secret Service constituem os maiores avanços para melhorar a qualidade de cada um deles. "Gunbarrel / Snakebite" (ouvida na seqüência inicial do filme) e "Bond and Rosie" são apenas dois exemplos de músicas que, injustamente, ficaram de fora da edição original. Já "Bond To New York" contém simplesmente alguns dos melhores momentos musicais do filme. Adicionalmente, foi incluída uma agradável versão alternativa de "San Monique", em ritmo de reggae. É importante destacar que as faixas bônus nos dão a oportunidade de, finalmente, ouvirmos em disco versões instrumentais do tema de Paul e Linda McCartney integradas ao score, funcionando muito bem em cenas de ação. Além destas faixas extras, muitas das já conhecidas, como "Bond Meets Solitaire", "Baron Samedi´s Dance of Death" e o próprio "James Bond Theme" são apresentadas em versões estendidas. Falando nesta última, a versão "setentista" de George Martin para o "James Bond Theme" (então a primeira a não ter o arranjo de John Barry) pode hoje soar nostálgica, mas está longe de estar antiquada. É interessante notar que recentemente David Arnold foi muito elogiado pelo modo como combinou o estilo tradicional de Barry com a música contemporânea, quando George Martin já havia feito a mesma coisa na partitura de Live and Let Die - com a notável diferença de que a música de Martin possui um som mais clássico e atemporal, enquanto que as composições cada vez mais eletrônicas de Arnold certamente estarão datadas em poucos anos. Após escutarmos a esta trilha completa, podemos afirmar com certeza de que se trata de um dos scores não-compostos por John Barry mais destacados da série, possivelmente disputando o segundo lugar logo após Tomorrow Never Dies, de Arnold. Finalizando: este novo CD supre qualquer expectativa, contendo valioso material adicional e apresentando uma qualidade de áudio muito superior à do álbum original. Alguns puristas certamente irão reclamar do re-balanceamento dos canais e da nova equalização dos instrumentos, mas o fato é que a música soa cristalina e nela agora podemos ouvir instrumentos que anteriormente soavam abafados, ou simplesmente não eram ouvidos. Um grande acerto do selo EMI.

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