LORD OF WAR
Música composta por Antonio Pinto, regida por Ed Côrtes
Performances de Nelson Rios, Joao Do Bandolin, Edson Guideitti, Gui Amabis, Bob Suetholz, Antonio Pinto, Mauricio Alves, Alexandre Mazac, Yaniel Mattos, Luis Brito


Selo: Lakeshore
Catálogo:
B000AQKYR8
Ano: 2005

Faixas:

1. Lord Of War
2. Little Odessa
3. Ava's Arms
4. By Sea
5. Andina
6. Love Deception
7. Consequences And Loss
8. By Air
9. The Promise
10. Yakar Diamm
11. Everything That Comes From The Earth
12. Truth
13. Conscience
14. AK-47 Love
15. Warlord

Duração: 38:26
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 

É com satisfação que me imponho a tarefa de resenhar este trabalho; primeiro, por ser um ardoroso fã da música de cena; segundo, por Antônio Pinto ser um compositor brasileiro, o que me impõe a difícil tarefa da crítica imparcial e até certo ponto ainda mais severa. Tudo começou no quarto de um apartamento na Lagoa, no Rio, onde Antônio Pinto morava e guardava seus instrumentos: uma bateria, um violão e um piano herdado da avó. Foi lá que o compositor e arranjador carioca, hoje com 39 anos, ainda menino, iniciou uma carreira musical que o levou à Hollywood. Adolescente, ganhou um teclado eletrônico e um computador com partituras e programas que lhe permitiram compor, mais tarde, já adulto, os temas e as trilhas sonoras de diversos filmes.

Foi providencial para sua carreira ser filho do jornalista e desenhista Ziraldo, tendo assim alcançado sua primeira oportunidade de trabalho com o filme O Menino Maluquinho, de 1994, baseado no livro mais célebre de seu pai. Logo se firmou, e desde o início desde século é tido como um dos principais compositores contemporâneos de trilhas sonoras do país. Com o talento prontamente reconhecido, Antônio foi convidado a fazer as trilhas de alguns dos principais filmes do renascimento do cinema nacional, entre eles os indicados ao Oscar
Central do Brasil de Walter Salles, e Cidade de Deus de Fernando Meirelles. No entanto sua maior contribuição para a trilha sonora nacional foi com sua composição para Abril Despedaçado, filme injustiçado e quase esquecido, estrelado por Rodrigo Santoro e José Dumont. Parte da aridez, da beleza descomunal do filme de Walter Salles deve-se à sua música. Antonio Pinto compôs uma trilha belíssima, com temas marcantes, indiscutivelmente uma das melhores trilhas do cinema nacional.

Por sua trilha em Cidade de Deus, em 2005 na Bélgica, recebeu, como revelação do ano, o prêmio World Soundtrack Awards, o mais importante entre os conferidos aos compositores de trilhas sonoras de cinema. E lá, providencialmente, conhecera o ator e diretor indiano Shekar Kapur, de quem se tornou grande amigo; e ele, por fim, o apresentou, em Hollywood, ao diretor Andrew Niccol, o realizador de Gattaca e The Truman Show, resultando no convite para assinar a trilha de O Senhor das Armas. Contudo, Antônio Pinto estreou em Hollywood quase que involuntariamente, com uma participação na trilha sonora do filme Collateral de Michael Mann, que em sua obsessão pelas temp tracks incluiu em seu filme peças memoráveis de Antônio Pinto compostas originalmente para Abril Despedaçado, que neste novo filme se converteram em protagonistas da trilha sonora encabeçada por James Newton Howard, que teve suas músicas substituídas em momentos pelas de Pinto. Sendo assim, a faixa "Réquiem" de sua autoria, a última do álbum, lhe rendeu elogios entusiasmados por sua conotação melancólica e ao mesmo tempo esperançosa.

Agora ele retorna à cena, ao lado de seu habitual colaborador Ed Côrtes, assinando a trilha sonora original do filme Lord of War (O Senhor das Armas), que conta a trajetória do traficante de armas Yuri Orlov (Nicolas Cage), que percorre o mundo negociando armas com guerrilheiros, perseguido pela Interpol, personificada na personagem de Ethan Hawke, o agente Jack Valentine. Falando um pouco sobre o filme, preciso dizer que O Senhor das Armas é um semi-documentário narrado de forma maçante e sem qualquer sentido cinematográfico. Tudo parece surreal e burlesco, uma serie de dados estatísticos e lugares comuns cheios de idéias politicamente corretas sobre o mal que as armas causam ao mundo, que os vilões são, não só os grandes ditadores, mas os grandes países mundiais. O personagem de Nicolas Cage, que negociara armas ao longo de décadas – durante e após a guerra fria – no horizonte temporal do filme de mais de vinte anos, não envelhece nem evolui um só minuto.

Entretanto, a música que Antônio Pinto escreveu para O Senhor das Armas é um trabalho de inspirado poder ambiental, com a corajosa, ou talvez, em alguns momentos poderia dizer, imprudente utilização de vários estilos (música eletrônica, acústico-solista e étnica) e grande variedade temática, que desta forma poderia imprimir ao disco uma difícil coesão; de tal modo que, com seu arranhar acústico em violões e bandolins, influências árabes e africanas e seu trabalho eletrônico nada sutil, não chega a entusiasmar. Sua trilha, em meio à massiva utilização de música pop e trechos de música erudita ("Ride of the Valkyrie" de Wagner, "Swan Lake - Lake In Moonlight" de Tchaikovsky, etc.) apenas se resigna a discretas aparições, como já é de seu hábito. No entanto, quando surge -, surge com competência e se integra perfeitamente à cena; revelando-se na parte final do filme com mais intensidade em meio à instauração do drama pessoal de Orlov e sua crise de identidade.

Mas grandes momentos são perdidos para a música pop, como a seqüência de abertura, uma criativa apresentação que nos leva a seguir o percurso que faz uma bala, desde o seu "nascimento" até ao momento em que se aloja no crânio de uma qualquer criança num qualquer país da áfrica subariana. Já aqui, temos uma idéia do que está por vir - uma oportunidade de criação musical perdida e um prelúdio de toda a abordagem musical implementada. Há também um importante momento perdido para a música erudita: a cena na qual Orlov manuseia suas armas AK-47, descrevendo-as in off, enquanto ao fundo, caminhões carregados cruzam o horizonte e ouvimos a belíssima música de Tchaikovsky.

Nesta trilha encontramos novamente a rabeca[1], que persiste como trademarck de seu trabalho, em alguns momentos, talvez mais como uma limitação, do que como opção de estilo. Aliás, é necessário dizer que este instrumento surge como uma inovação em meio aos “instrumentos étnicos” clichês como o duduk e o ney, que um dia provavelmente estarão assentados em uma velha estante, em um lugar qualquer, acumulando pó ao lado das vocalistas étnicas que povoam hoje a música de cinema -, creio que eles se lembrarão dos bons tempos em que eram moda. Para fins práticos, podemos dizer que esta trilha é dividida em dois momentos musicais distintos: um mais acústico e criativo; e outro eletrônico e preguiçoso. Existem basicamente quatro temas bem definidos, o primeiro identificado com o warlord personificado por Cage e apresentado na primeira faixa; um outro que se identifica com a ameaça policial representada por uma mescla de ritmos eletrônicos; outro que representa a morte na sonoridade melancólica e áspera da rabeca e por fim a consciência apresentada como uma elegia para cordas e notas dedilhadas ao piano - todas são recorrentes na obra, e por isso bem identificadas. Percorramos então meticulosamente as faixas deste álbum:

"Lord of War" (Faixa 01 – 03:09 ) - Aqui talvez esteja um de seus melhores momentos; com uma melancólica simplicidade, a faixa de abertura do CD apresenta o  tema warlord que será usado como fio condutor de toda trilha; e reaparecerá mais tarde, como uma re-exposição da forma sonata, na última faixa, “Warlord” (Faixa 15), quase que intacta em meio adição tímida da massa orquestral e da transposição de seu tema, tirado do violão e dado ao piano. Tendo como base o violão, a faixa é iniciada com um ostinato que, posteriormente variado, se transformará em um dos principais temas do álbum; ao fundo surge em contraponto, indo e vindo, uma guitarra elétrica pacata, metálica e seca. Este embate desaparece para surgir finalmente a esperada variação do ostinato que se repete e dá origem a outra camada melódica imediatamente acima, logo assumida por completo pelo violão e a guitarra elétrica, que ressurge em contratempo e que por fim liberta o bandolim que dá origem a uma magnífica sucessão de variações num duelo com o violão deixando a guitarra ao fundo somente acentuando um ambiente de tênue instabilidade — algo está “errado”! É neste instante que a música é justificada e encontra seu fim na reapresentação, pelo violão, do tema que deu origem a tudo sobre o ostinato que agora retorna, como se a música retrocedesse, fechando o ciclo e a faixa que no surgir desencontrado do bandolim e da guitarra tem seu fim e temos certeza de que algo realmente está “errado”. Lamentavelmente esta faixa não encontra seu lugar no filme, aparecendo apenas no trecho já citado de “Warlord”.

“Little Odessa” (Faixa 02 – 02:50) -  É um elegante waltz que tem início numa pacata cena num restaurante familiar e leva o seu tema central - onde restam os ecos do tema anterior -, vibrantemente executado com mandolina e bandolim a um efeito interessante, cheio de uma peculiar inquietação e um senso de fatalidade, digna da escrita de Nino Rota, com evidentes traços do mestre. Pois é quando ao atravessar a rua, Orlov presencia uma disputa armada da Máfia Russa; e o tema, através da massa orquestral das cordas, se amplia, insurgindo das reminiscências musicais da mediterrânica Europa, em um vibrante solo de violino. Aqui, sem dúvida, está o melhor momento deste álbum.

“Ava's Arms” (Faixa 03 – 02:00) - A partir desta faixa o álbum ganha homogeneidade, mas parece se perder em qualidade efetiva. Em torno de uma etérea atmosfera de sintetizadores, como refresco em meio ao óbvio, surge a rabeca e sua peculiar sonoridade em um lamento com ares étnicos; por fim a comovente introdução da massa de cordas - é a primeira representação da morte... É a cena em que os irmãos Orlov testemunham, por detrás de uma parede ruída, a execução de guerrilheiros, alguns, ainda crianças.

“By Sea” (Faixa 04 – 03:14) - Nesta faixa encontramos uma mistura de familiares ritmos nordestinos e efeitos eletrônicos, atmosferas dissonantes e um toque étnico, numa evolução progressiva e intensa à medida que se introduz a orquestra em contraponto melodia principal; uma idéia que posteriormente será repetida com idêntica estrutura em “By Air” e figura como o tema da ameaça policial. Para alguns este tema é uma clara referência a “Black Hawk Down”, de Hans Zimmer, principalmente a trechos da faixa “Sychrotone” daquele álbum -, mas não acredito nesta tese, somente motivada pela aproximação dos estilos na utilização de recursos eletrônicos em meio sonoridade étnica -, fato comum aos dois trabalhos.

“Andina” (Faixa 05 – 01:25) - Retomando a pureza acústica, em contraste à linha eletroacústica que se vinha traçando desde “Ava's Arms” (Faixa 03), recorre-se novamente ao violão e bandolim, buscando a sonoridade da faixa de abertura “Lord of War” (Faixa 01), mas agora com a introdução de uma nova gama temática.

“Love Deception” (Faixa 06 – 03:43) - O tema central, warlord, aqui executado pelo reed organ e pelo piano elétrico, logo é envolvido por um ritmo eletrônico que prontamente desaparece para deixar apenas a tímida sonoridade inicial do tema warlord, por fim enredado pela harmonia da massa orquestral de cordas a um passo de seu desfecho.

“Consequences And Loss” (Faixa 07 – 04:26) - Ressurge a rabeca e encontramos uma peça de grande intensidade emocional, que tem início com uma elegia para cordas em textura grave que posteriormente se transformará numa interessante passagem minimalista para piano; enquanto as cordas, agora, em segundo plano, mais ambiental, se pontuam de sucintas aparições de um vocalize étnico. É o tema da consciência que retornará na faixa de mesmo nome, “Conscience” (Faixa 13).

“By Air” (Faixa 08 – 01:39) - É uma reapresentação das idéias introduzidas em “By Sea” (Faixa 03), com leves transformações e extensão reduzida.

“The Promise” (Faixa 09 – 01:46) - Elementos já conhecidos em “Love Deception” (Faixa 06) são reutilizados, mas com algumas variações melódicas e estruturais.

“Yakar Diamm” (Faixa 10 – 02:34) - Simplesmente não sei o que esta música est fazendo no meio do álbum, quando de fato aparece somente nos créditos do filme. É mais uma daquelas canções originais incluídas, como de praxe, sem nenhuma função dramática. Composta talvez por A.R. Rahman, considerado um dos mais prestigiados compositores indianos, e que contribuiu com algumas passagens musicais na trilha sonora, e às vezes em colaboração com Antônio Pinto. Há de sua autoria talvez, apresentada na cena em que o avião é “desmanchado”, uma música que não entrou no CD, executada por um solo de flauta em meio à marcação da celestra.

“Everything That Comes From The Earth” (Faixa 11 – 01:24) - Esta faixa e a seguinte revelam um compositor mais descritivo e ambiental que nas passagens anteriores. Em ambos os casos as cordas são grandes protagonistas, potencializam sua acústica através de elevadas reverberações.

“Truth” (Faixa 12 – 03:01) - É um bom exemplo do estilo puramente ambiental, trazendo idéias musicais independentes que coexistem em leve dissonância.

“Conscience” (Faixa 13 – 02:06) - Uma reapresentação de “Consequences And Loss” (Faixa 07), porém mais breve.

“AK-47 Love” (Faixa 14 – 02:00) - O disco encontra seu fim com duas oportunas e brilhantes “re-exposições”... A primeira encontramos nesta faixa, onde se resgata o waltz de “Little Odessa” (Faixa 02), só que agora despojado de parte de seu suporte rítmico, transformando-se numa faixa muito mais melancólica e austera.

“Warlord” (Faixa 15 – 03:09) - Por fim, encontramos, com a seqüência final do filme e seus créditos finais, a magistral reapresentação do tema central warlord; tendo início com o violão, como em “Lord of War” (Faixa 01), e, como de hábito em todo álbum, se convertendo, por fim, na sonoridade da orquestra de cordas que leva, junto ao piano, a partitura a seu clímax musical.

Nesta trilha a opção é pelo sutil, sem chamar a atenção do espectador que certamente se satisfaz ao ouvi-la junto ao filme, mas em CD perde força justamente quando a ganha em cena, já que suas músicas mais criativas são, justamente, as mais sub-aproveitadas e recônditas em cena. Enfim, O Senhor das Armas de Antônio Pinto, em seus 38min26s, não é uma trilha notável, contudo satisfaz s necessidades do filme para o qual foi feito e não desagrada o ouvinte mais atento. O enredar de pacatos violões e sintetizadores etéreos não chega a ser completamente original, mas sua habilidade é suficiente para que não se desprezem seus potenciais. Portanto, aprecie a lamúria pungente da rab
eca antes que ela se torne outro clichê.

[1] A rabeca é uma espécie de violino de timbre mais baixo, com quatro cordas friccionadas em arco com crina untada em breu. Tem uma sonoridade roufenha e melancólica. Tocam-na, apoiando-a na altura do coração ou no ombro esquerdo, sempre a voluta para baixo.  Construída artesanalmente e com poucos recursos lembra certos instrumentos árabes.  Fora  em  encarnação anterior a viola-de-arco, instrumento preferido pelos trovadores medievais.

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