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Desde que
foi divulgado que o diretor Peter Jackson levaria às telas uma trilogia
de filmes baseada na cultuada obra de Tolkien O Senhor dos Anéis,
os fãs de música de cinema começaram a especular sobre quem seria o
melhor compositor para criar as músicas da Terra Média. Os óbvios
prediletos sempre foram
John Williams e Jerry
Goldsmith, com um largo número de trabalhos no gênero, seguidos de
perto por James Horner.
que compusera as trilhas das fantasias Krull e Willow
(mais do que inspiradas em O Senhor dos Anéis). Dinheiro não
parecia ser o problema, já que Jackson contou com um generoso orçamento
providenciado pela New Line Cinema para realizar os 3 filmes. Deste
modo, houve uma grande surpresa quando anunciou-se que Howard Shore fora
o compositor escolhido. Shore, apesar de ter criado bons e elegantes
scores para filmes como A Mosca e O Silêncio dos Inocentes,
ainda é lembrado por muitos principalmente por suas partituras
eletrônicas ou experimentais para filmes de David Cronenberg (Scanners,
Crash), o que levava à dúvida sobre a sua competência para compor
para grande orquestra e coral, o estilo adequado à produção. Mas a
verdade é que Shore é um autor versátil, como já demonstrara compondo
para diversos gêneros cinematográficos, e o resultado de seu trabalho na
primeira parte da trilogia The Lord Of The Rings provavelmente
surpreendeu àqueles que duvidavam de sua capacidade.
Na melhor tradição da velha escola de Hollywood ele criou um score
temático, com 3 motivos principais: um lírico
em estilo celta, que representa os pequenos
Hobbits e o seu Condado, desenvolvido plenamente em flauta doce e cordas
em "Concerning Hobbits"; outro que evoca os malignos Espectros do Anel
com orquestra e coral, o mais ouvido no filme em faixas como "The Black
Rider" e "A Knife in The Dark"; e uma fanfarra para a Sociedade do Anel
("The Council of Elrond", "The Ring Goes South", "The
Bridge Of Khazad Dum"
)
e que celebra os feitos dos heróis e a irmandade do grupo. O que
permanece mais vivo na memória do ouvinte é o tom sombrio do score,
decorrente do uso intenso do "tema do mal", provavelmente a maior fonte
das críticas que classificam a trilha como "repetitiva". Fato acentuado
com o uso contínuo de música - um problema comum nos filmes de hoje. Os
velhos mestres de Hollywood sabiam como poucos o valor do silêncio
para acentuar certas cenas. Hoje, opta-se por musicar praticamente cada
segundo do filme, o que no caso nos dá praticamente 3 horas de música
contínua. Fato, sem dúvida, minimizado pela menor duração do CD
("apenas" 70 minutos). Assim o álbum tem a vantagem de ressaltar os
melhores momentos do score, como "A Knife In The Dark", onde a
orquestra e a percussão possuem admirável intensidade. Ainda sob o
aspecto de força orquestral, merece destaque "The Bridge of Khazad Dum",
que apresenta a maior versão do motivo principal da trilha e uma
intervenção agressiva do coral sobre tímpanos e metais.
Do lado lírico e emotivo, "The Breaking Of The Fellowship" é capaz de
arrancar lágrimas do espectador/ouvinte mais durão... Indiscutivelmente
o grande chamariz comercial da trilha é a participação da cantora Enya,
que colaborou com 2 canções originais. Contudo, diferentemente do que
ocorre com a maior parte das canções utilizadas atualmente em trilhas,
as músicas da cantora, em "The Council Of Elrond" e "May It Be",
integram-se harmoniosamente à partitura. Apesar de seus bons
scores experimentais, considero este Lord of The Rings: The
Fellowship of The Ring como a maior obra de Shore, capaz de
satisfazer à maior parte dos exigentes fãs de música de cinema. Ouvidos
os mais recentes trabalhos de Goldsmith e Horner, é de se questionar se
hoje eles comporiam algo melhor, e Williams... Quem sabe? É uma trilha
"convencional", mas no bom sentido é bom frisar, e sem dúvida era o que
o filme exigia: grande, ambiciosa e acima de tudo clássica. Totalmente
merecedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original conquistado, na
primeira indicação de Shore ao prêmio. Jorge Saldanha
Lord of
the Rings, o grande épico de J.R.R. Tolkien foi durante muito tempo
visto como algo impossível de passar para celulóide. E provavelmente com
razão. O novo filme de Peter Jackson falha em convir o tom épico e
heróico do livro, e pior ainda, é incapaz de transpor a rica mitologia
de Tolkien para o filme. Acrescente-se a isso planos estranhamente
escolhidos e uma montagem apressada, e temos mais uma fita saída da
máquina de fazer filmes de Hollywood, com o único intuito de vender
bilhetes à custa da Arte de contar histórias. Apenas isso... mais um
filme. Mais umas horas passadas na sala de cinema, e não uma experiência
única, como a que sentimos quando vemos cinema a sério. Não a
experiência que nos assombra muito depois de deixarmos a sala de cinema.
Mal pomos o pé fora da sala, já não sabemos exatamente o que vimos... e
o mais triste é estarmos a perder um dos mais épicos contos de ficção da
história. Isto só serve para provar o seguinte: o compositor é o
elemento mais menosprezado na 'linha de montagem' de Hollywood. Como
estes homens conseguem com a sua música suportar filmes insuportáveis é
um mistério... e que nesse processo consigam criar obras primas, não só
da música para cinema, mas de toda a música, é um autêntico milagre.
Homens como Williams,
Goldsmith,
Bernstein,
antes deles Steiner,
Waxman e
North, e agora
Goldenthal e Shore são autênticos milagreiros.
No caso especifico, Howard Shore, criador de algumas das partituras mais
inventivas e exigentes do seu tempo (alguém ouviu o seu trabalho em
Crash?), poderia ser visto como um
Bernard Herrmann
dos nossos dias, embora com um feitio muito mais agradável. Shore foi
capaz de imbuir a sua partitura com o tom épico, heróico e místico que
falta ao desastroso filme de Jackson. E ainda conseguiu apoiar o filme e
disfarçar algumas das suas falhas através da música. Muitas vezes, é
isso que é pedido ao compositor, a tarefa ingrata de melhorar um
trabalho medíocre, e embora o filme em questão esteja além de qualquer
salvamento, Shore consegue levar a história a sério (provavelmente,
através do texto de Tolkien), e apresentar uma obra completa e de
proporções épicas, proporções essas vistas pela última vez quando
Williams musicou as aventuras de cavaleiros Jedi. Shore faz um grande
uso do coro, que contribui de forma definitiva para o tom mítico da
música. Mas em vez de grandioso e empolgante como em Star Wars, o
som que ouvimos é mais dramático. A música ajuda-nos a entender que a
aventura que vamos assistir é uma de grandes provações e onde não é
claro que o bem se sobreporá sobre o mal.
Há interessantes passagens para coro e metais ao longo do CD, que fazem
lembrar o trabalho do já mencionado Elliot Goldenthal. O trabalho de
Goldenthal em Alien 3 também vem à memória no uso de solistas em
faixas como "Lothlorien" e "The Breaking of the Fellowship", onde a voz
surge como perdida por cima de uma delicada textura instrumental.
Tematicamente há material associado ao anel e ao seu criador, aos
Hobitts (ouvido no seu maior e completo desenvolvimento na faixa 2 "Concerning
Hobbits"), que recorda um dos temas de Willow de
James Horner, uma
fanfarra para a irmandade e para a sua missão, fanfarra que surge tanto
nos metais, cheia de força e nobreza com um tom mais dramático, diluída
na paleta orquestral. A meio do nosso caminho somos apresentados a uma
canção de Enya, que não é outra coisa senão um love theme para
duas das personagens. No final Enya canta outra canção ("May It Be"), e
ao contrário do desastroso uso de canções no recente A.I. de
Williams, aqui estas duas canções são perfeitas partes integrantes do
todo. Para além de surgirem integradas noutro material e de seguirem a
mesma orientação estética, há breves citações deste material durante o
resto do trabalho. Shore cria um todo que bem podia contar sozinho a
história desta irmandade através da música, sem a presença das imagens
de Jackson. E com certeza que o faz. E quando a canção "May It Be" se
dilui no silêncio, e os metais ecoam uma última vez a brilhante fanfarra
nós sabemos que Shore acredita nesta história e que a vai continuar a
contar... mesmo com filmes tão medíocres como este. Miguel Andrade
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