THE LORD OF THE RINGS: THE TWO TOWERS
Música composta, orquestrada e regida por Howard Shore

Selo:
Reprise/WMG Soundtracks
Catálogo:
48379
Ano: 2002

19 Faixas

Duração:
76:49
Cotação:

 

A saga do anel do poder continua em As Duas Torres. E com ela volta também segue a epopéia musical de Howard Shore, cuja partitura para o primeiro capítulo da trilogia O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel, mostrou para todos que ele é muito mais do que um mero compositor de música de suspense - rótulo que já estava fadado a carregar por causa de sucessivas composições para filmes como Seven e O Silêncio dos Inocentes (claro que quem afirmava isso nunca deve ter ouvido suas trilha para Crash ou Nobody's Fool, entre outros trabalhos). Ele não apenas capturou com grande maestria todas as nuances do mundo criado por J.R.R. Tolkien, mas também teve criatividade e arrojo suficientes para injetar sangue novo à arte de compor música para filmes de fantasia e aventura, terreno já trilhado no passado por monstros sagrados como Bernard Herrmann, John Williams, Jerry Goldsmith e tantos outros. Ou seja: era fácil deixar-se levar pelas "influências" e trilhar o caminho mais conhecido dos clichês musicais. Mas Shore entendia o peso da responsabilidade que carregava e não decepcionou. Não é a toa, portanto, que fisgou os prêmios mais importantes daquele ano, bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os apreciadores da música cinematográfica.

Depois do sucesso da primeira empreitada, a grande questão que pairava no ar era: será que Shore terá fôlego para criar partituras tão boas quanto a do primeiro para os outros filmes da trilogia? As Duas Torres finalmente chegou e resposta foi um sonoro SIM! Ele não apenas compôs uma trilha à altura da primeira, como a superou em vários momentos. Livre de algumas necessidades mercadológicas que acabaram limitando a trilha anterior, Shore pôde concentrar-se mais na experimentação e na criação de temas menos fáceis de serem digeridos à primeira leitura (como o tema dos Hobbits, cuja simplicidade proposital acabou gerando todo tipo de crítica equivocada e comentários apressados, tais como afirmar que "era plágio de Titanic" só por usar instrumentos de sopro semelhantes aos daquela trilha).  Antes dos louros, porém, vamos ao que para muitos será um grave defeito. Somos apresentados novamente a um CD que contém apenas pouco mais de 70 minutos de música. Parece muito? Pois no próprio livreto os produtores contam que Shore compôs quatro e gravou três horas de música para o filme! Isso quer dizer que, de cara, já estamos privados de extenso material que só poderá ser ouvido durante o filme ou quando resolverem editar um álbum duplo, no futuro. Esse defeito, todavia, ficou mais grave no CD de A Sociedade do Anel, no qual Shore optou por deixar de fora material extremamente rico e repetiu demais nas primeiras faixas o tema dos "Espectros do Anel" (problema que não existia no filme). Aqui ele foi mais sensato na edição e ao menos escolheu por inserir material mais variado e menos repetitivo, embora as músicas tenham sido todas editadas, emendando seqüências que não estão na ordem do filme.

A trilha de As Duas Torres está dividida em duas partes bem claras. Em uma há a recorrência aos temas principais criados para o primeiro filme. Faixas como "Foundations of Stone", "Passages of the Marshes", "The Uruk-hai" e "The Black Gate Is Closed" basicamente refrescam nossa memória acerca do material anterior, mas sempre com uma nova leitura ou desenvolvimento. Já a outra parte apresenta as novidades, que começam em "The Riders of Rohan" e passam a dar o tom a partir da belíssima "The King of the Golden Hall", onde a nobreza dos Cavaleiros de Rohan é representada no solo do violino norueguês de Dermot Crehan (os mais atentos vão poder identificar nessa faixa uma breve referência ao nobre tema de Gondor que havia aparecido por breves momentos no primeiro filme durante uma fala de Boromir, mas não no álbum). O diretor Peter Jackson explica que nesse filme somos apresentados ao "mundo do dos Homens
" e isso se faz sentir na trilha de modo acentuado. Ficam em segundo plano, portanto, os temas etéreos e os místicos (que deram o tom à primeira trilha). Prevalece agora um tom mais melódico, mais realista, fazendo eco à tradição musical européia romântica. E isso é sentido claramente nos momentos mais emocionais, principalmente em "The White Rider", "Helm’s Deep", "The Hornburg" e "Forth Eorlingas" – sem dúvidas as melhores faixas do álbum, nas quais a performance dos metais (principalmente das trompas) impressiona.

Entretanto, a trilha de As Duas Torres é mais pesada, soturna, sombria do que a de A Sociedade do Anel, seguindo obviamente o clima do segundo capítulo da saga. Shore às vezes abusa de gongos e pratos para representar a grandeza na tela, mas ainda assim há espaço para músicas reflexivas e elegantes, representadas em "Evenstar" e "Breath of Life". O compositor faz novamente extenso uso de coral (ainda mais acentuadamente do que na primeira partitura) e de solistas, mas nunca de forma bombástica ou intrusiva (pecado mortal de nove entre dez trilhas que utilizam dessa técnica), ficando como destaque a retumbante "Marcha dos Ents", incluída em "Isengard Unleashed". A trilha é encerrada com "Gollum’s Song", na voz de Emilliana Torrini (sem dúvida uma canção bizarra, mas cujo valor cresce à medida que se entende seu conteúdo já que é o retrato perfeito do atormentado personagem), seguida de uma releitura dos temas principais do filme.

Valeu a pena esperar um ano inteiro para finalmente poder julgar a obra de Shore. Seu talento e versatilidade foram colocados à prova novamente e ele saiu-se melhor do que encomenda, fato que é ainda mais relevante se levarmos em conta a progressiva decadência das trilhas musicais nos últimos anos, durante os quais ganham cada vez mais destaque trabalhos medíocres de compositores como Hans Zimmer ou Danny Elfman, e onde até mesmo compositores consagrados como Williams ou Goldsmith têm apresentado sinais de cansaço, com partituras cada vez mais burocráticas e derivativas. Com As Duas Torres, Peter Jackson confirma que não poderia ter sido mais feliz na escolha do compositor para O Senhor dos Anéis, cuja missão é, sem dúvida, tão importante quando à do pequeno Hobbit que tem em mãos o destino dos povos da Terra Média...

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