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A saga do
anel do poder continua em As Duas Torres. E com ela volta também
segue a epopéia musical de
Howard Shore, cuja
partitura para o primeiro capítulo da trilogia O Senhor dos Anéis,
A Sociedade do Anel, mostrou para todos que ele é muito mais do
que um mero compositor de música de suspense - rótulo que já estava
fadado a carregar por causa de sucessivas composições para filmes como
Seven e O Silêncio dos Inocentes (claro que quem afirmava
isso nunca deve ter ouvido suas trilha para Crash ou Nobody's
Fool, entre outros trabalhos). Ele não apenas capturou com grande
maestria todas as nuances do mundo criado por J.R.R. Tolkien, mas também
teve criatividade e arrojo suficientes para injetar sangue novo à arte
de compor música para filmes de fantasia e aventura, terreno já trilhado
no passado por monstros sagrados como
Bernard Herrmann,
John Williams,
Jerry Goldsmith e
tantos outros. Ou seja: era fácil deixar-se levar pelas "influências" e
trilhar o caminho mais conhecido dos clichês musicais. Mas Shore
entendia o peso da responsabilidade que carregava e não decepcionou. Não
é a toa, portanto, que fisgou os prêmios mais importantes daquele ano,
bem como o respeito e a admiração de praticamente todos os apreciadores
da música cinematográfica.
Depois do sucesso da primeira empreitada, a grande questão que pairava
no ar era: será que Shore terá fôlego para criar partituras tão boas
quanto a do primeiro para os outros filmes da trilogia? As Duas
Torres finalmente chegou e resposta foi um sonoro SIM! Ele não
apenas compôs uma trilha à altura da primeira, como a superou em vários
momentos. Livre de algumas necessidades mercadológicas que acabaram
limitando a trilha anterior, Shore pôde concentrar-se mais na
experimentação e na criação de temas menos fáceis de serem digeridos à
primeira leitura (como o tema dos Hobbits, cuja simplicidade proposital
acabou gerando todo tipo de crítica equivocada e comentários apressados,
tais como afirmar que "era plágio de Titanic" só por usar
instrumentos de sopro semelhantes aos daquela trilha). Antes dos
louros, porém, vamos ao que para muitos será um grave defeito. Somos
apresentados novamente a um CD que contém apenas pouco mais de 70
minutos de música. Parece muito? Pois no próprio livreto os produtores
contam que Shore compôs quatro e gravou três horas de música para o
filme! Isso quer dizer que, de cara, já estamos privados de extenso
material que só poderá ser ouvido durante o filme ou quando resolverem
editar um álbum duplo, no futuro. Esse defeito, todavia, ficou mais
grave no CD de A Sociedade do Anel, no qual Shore optou por
deixar de fora material extremamente rico e repetiu demais nas primeiras
faixas o tema dos "Espectros do Anel" (problema que não existia no
filme). Aqui ele foi mais sensato na edição e ao menos escolheu por
inserir material mais variado e menos repetitivo, embora as músicas
tenham sido todas editadas, emendando seqüências que não estão na ordem
do filme.
A trilha de As Duas Torres está dividida em duas partes bem
claras. Em uma há a recorrência aos temas principais criados para o
primeiro filme. Faixas como "Foundations of Stone", "Passages of the
Marshes", "The Uruk-hai" e "The Black Gate Is Closed" basicamente
refrescam nossa memória acerca do material anterior, mas sempre com uma
nova leitura ou desenvolvimento. Já a outra parte apresenta as
novidades, que começam em "The
Riders of Rohan"
e passam a dar o tom a partir da belíssima "The King of the Golden
Hall", onde a nobreza dos Cavaleiros de Rohan é representada no solo do
violino norueguês de Dermot Crehan (os mais atentos vão poder
identificar nessa faixa uma breve referência ao nobre tema de Gondor que
havia aparecido por breves momentos no primeiro filme durante uma fala
de Boromir, mas não no álbum). O diretor Peter Jackson explica que nesse
filme somos apresentados ao "mundo do dos Homens"
e isso se faz sentir na trilha de modo acentuado. Ficam em segundo
plano, portanto, os temas etéreos e os místicos (que deram o tom à
primeira trilha). Prevalece agora um tom mais melódico, mais realista,
fazendo eco à tradição musical européia romântica. E isso é sentido
claramente nos momentos mais emocionais, principalmente em "The White
Rider", "Helm’s Deep", "The Hornburg" e "Forth Eorlingas" – sem dúvidas
as melhores faixas do álbum, nas quais a performance dos metais
(principalmente das trompas) impressiona.
Entretanto, a trilha de As Duas Torres é mais pesada, soturna,
sombria do que a de A Sociedade do Anel, seguindo obviamente o
clima do segundo capítulo da saga. Shore às vezes abusa de gongos e
pratos para representar a grandeza na tela, mas ainda assim há espaço
para músicas reflexivas e elegantes, representadas em "Evenstar" e "Breath
of Life". O compositor faz novamente extenso uso de coral (ainda mais
acentuadamente do que na primeira partitura) e de solistas, mas nunca de
forma bombástica ou intrusiva (pecado mortal de nove entre dez trilhas
que utilizam dessa técnica), ficando como destaque a retumbante "Marcha
dos Ents", incluída em "Isengard Unleashed". A trilha é encerrada com "Gollum’s
Song", na voz de Emilliana Torrini (sem dúvida uma canção bizarra, mas
cujo valor cresce à medida que se entende seu conteúdo já que é o
retrato perfeito do atormentado personagem), seguida de uma releitura
dos temas principais do filme.
Valeu a pena esperar um ano inteiro para finalmente poder julgar a obra
de Shore. Seu talento e versatilidade foram colocados à prova novamente
e ele saiu-se melhor do que encomenda, fato que é ainda mais relevante
se levarmos em conta a progressiva decadência das trilhas musicais nos
últimos anos, durante os quais ganham cada vez mais destaque trabalhos
medíocres de compositores como
Hans Zimmer ou
Danny Elfman, e onde
até mesmo compositores consagrados como Williams ou Goldsmith têm
apresentado sinais de cansaço, com partituras cada vez mais burocráticas
e derivativas. Com As Duas Torres, Peter Jackson confirma que não
poderia ter sido mais feliz na escolha do compositor para O Senhor
dos Anéis, cuja missão é, sem dúvida, tão importante quando à do
pequeno Hobbit que tem em mãos o destino dos povos da Terra Média... |