WE ARE MARSHALL
Música composta por Christophe Beck

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 779 2
Lançamento: 2006
Faixas

1. Theme from We Are Marshall
2. Marshall vs East Carolina
3. Winning is Everything
4. Annie and Chris
5. Breaking News
6. Our Boys Plane
7. Aftermath
8. Nate Plea
9. Dedmon List
10. Why Jack Called
11. Sons of Marshall
12. Rebirth
13. The Young Thundering Herd
14. Back on Track
15. Remembering 29
16. Marshall vs Xavier
17. Game Day
18. Second Half
19. Touchdown
20. From the Ashes we Rose


Duração: 54:26
Cotação:


Comentário de
Pablo Nieto

 

O futebol americano, como exemplo de superação e metáfora do sonho americano, está muito presente na indústria de Hollywood com histórias pretensamente comovedoras e épicas, que tem como pano de fundo um jogo tão artificial como incompreensível. Nota-se que muitos produtores sentem nostalgia de seu passado universitário, das irmandades Alpha Kappa Delta, dos embarrados treinamentos nos estádios da universidade, das broncas dos treinadores…

Somos Marshall se baseia na historia real da equipe de futebol americano da Universidade de West Virginia, e o trágico acidente aéreo que sofreu em 14 de novembro de 1970, no qual faleceram 75 pessoas entre jogadores, técnicos e amigos, quando voltavam para casa após jogar contra a Universidade de East Carolina. Com os precedentes próximos de Remember the Titans, Varsity Blues ou Gridiron Gang, este filme traz um ponto de vista mais humano e dramático, com a superação da tragédia de todo um povo que se vê afetado, a reconstrução da equipe, o drama dos sobreviventes. Dirigida pelo imprevisível Mc G (Charlie's Angels), e protagonizada por David Strathairn, Matthew McConaughey e Matthew Fox, estamos diante de uma das propostas mais felizes da temporada.

Musicalmente falando, o nome de Christophe Beck não é dos mais estimulantes no panorama atual. Um compositor onipresente, com um ritmo de trabalho exagerado para os resultados que oferece, e de quem se espera pouco ou nada. Mas
We Are Marshall nos traz um Beck diferente. E mais, tomando como referência seus trabalhos anteriores, estamos diante de um Beck que se sobressai. Sóbrio e contido, inspirado melodicamente, sintonizado com o aspecto dramático da história, contundente na descrição de emoções e de poderoso sinfonismo para o clímax do filme.

É um score construído em torno de um tema central pegadiço e relevante, na melhor tradição coplandiana de trompas e cordas, e que bem poderia ter sido assinado pelos compositores fetiches das produções “Made in NFL” , como são Trevor Rabin e Mark Isham. O tema, de fundo triste e envoltório nobre e sincero, será desenvolvido com profusão durante todo o score. A destacar a apresentação e o desenlace, cuja única interconexão é a retentiva melodia central. O princípio é toda uma homenagem, uma triste antecipação do que irá acontecer. O hino dos “Marshall”, introduzido na primeira faixa, terá seus conseqüentes desenvolvimentos em outras peças como “Winning is Everything” ou “Annie and Chris”.

Da homenagem passamos às conseqüências. Um desafio para Beck na hora de pretender credibilidade no ponto de inflexão do filme. Para isso, opta por um tom elegíaco da música, como demonstram “Breaking News”, “Our Boys Plane” e “Aftermath”. São estas três melodias (por outro lado, as mais distanciadas do convencionalismo sinfônico) que atribuem a solução e a qualidade desta partitura. O tom sóbrio começa a ser quebrado em “Nate Plea”, reaparecendo o tema central em passagens como “Sons of Marshall”, “Rebirth” ou “The Young Thundering Herd”. Atenção ao acertado trabalho percussivo de Beck, que introduz ritmos de banda universitária para descrever o fragor da batalha no campo de jogo (“Marshall vs East Carolina” e “Marshall vs Xavier”).

Chegamos ao desenlace, e o melhor é não fazer rodeios. As quatro últimas faixas deste disco, e por extensão, da partitura, trazem alguns dos momentos mais estimulantes e inspirados de 2006. Beck libera uma força e um talento musical oculto até o momento, e como que possuído pelo espírito de um James Newton Howard mais sinfônico, sem esquecer as óbvias reminiscências goldsmithianas, nos fornece versões grandiloqüentes e compactas do tema central. Movimentos de grande poderio de metais e percussões, com vibrantes staccatos e emocionantes crescendos. Uma autêntica delícia, que começa em “Game Day”, continua em “Second Half” e se encerra em “Touchdown”. A última faixa do disco, “From the Ashes we Rose”, é uma intensa e profunda homenagem final aos falecidos, onde
brilham especialmente as cordas.

Está claro que os defeitos existem para que outros critiquem seus possuidores. Com Christophe Beck, até agora, era fácil cair na tentação da incompreensão e da crítica. Mas após sua composição para
We are Marshall, tudo muda. Por fim ele conseguiu transmitir algo. Já não haverá incompreensão, mas sim decepção se ele voltar a apresentar seus antigos defeitos. Por sorte, ele já conseguiu um touchdown.

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