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O compositor Don
Davis teve um ano atarefado em 2003. Ele compôs mais de seis horas de
música para a franquia Matrix – duas continuações,
Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, nove curtas de
animação reunidos na coletânea Animatrix e o game
Enter the Matrix. Para o capítulo final da trilogia de
filmes Matrix, Davis criou a mais intensa, épica e tocante
música ouvida na série, em uma muito interessante e sólida evolução
musical do trabalho originalmente criado para o filme de 1999.
Matrix possuía um poderoso score de vanguarda composto por
Davis, o qual dividia a tela com música rock-eletrônica. Em disco, foi
lançada uma coletânea de canções, além de um CD da Varèse Sarabande
contendo unicamente 30 minutos da partitura. Já para Matrix
Reloaded Davis compôs um score mais longo e rico
(infelizmente o CD duplo omitiu grande parte dele), em alguns casos
combinando o coral e a orquestra com os ritmos eletrônicos pulsantes do
trio Juno Reactor. Finalmente, em Matrix Revolutions, a
luxuriante música orquestral de Davis é o foco central da atenção, com
os sons pop e eletrônicos relegados a um plano muito secundário.
O álbum de Revolutions apresenta mais de uma hora de música, com
quase 50 minutos da partitura orquestral de Don Davis interpretada por
mais de 200 instrumentistas e vocalistas. A única canção incluída é a
deslocada "In My Head", interpretada por Pale 3, ouvida no clube do
personagem Merovingian. Há duas score tracks de Davis novamente
em parceria com Juno Reactor, e uma versão remix do trio para "Neodämmerung"
("Nevra") com nove minutos de duração, ouvida durante os créditos
finais, na qual foram utilizados coral e estranhos vocais femininos do
Oriente Médio. É necessário ressaltar que, desta vez, mesmo nas faixas
em colaboração com Juno Reactor, é o trabalho de Davis que prevalece. O
filme narra os últimos esforços de Neo (Keanu Reeves), Morpheus (Laurence
Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss) contra a Matrix e sua legião de
máquinas, a fim de salvar a última cidade do mundo real, Zion. Esta
conclusão épica, muito criticada por privilegiar a ação no lugar de uma
trama mais inteligente, é largamente beneficiada pelas duas horas de
música original escrita por Don Davis. A maior duração da partitura foi
necessária devido às épicas seqüências de batalha mostradas ao longo do
filme.
Novamente temos muita música faltando no CD, porém o último álbum da
franquia é completo o suficiente para satisfazer à grande maioria dos
ouvintes. Em "Logos/Main Title", a assinatura musical da série, um
motivo de duas notas interpretado por metais, abre o score. Como
de hábito, a seqüência dos créditos principais é ligeiramente diferente
das que foram vistas nos filmes anteriores, mesmo em termos musicais.
Desta vez o tema é mais dramático, representando os eventos capitais que
conduzirão a trilogia ao seu final. "The Trainman Cometh" e "Tetsujin",
faixas com a colaboração de Juno Reactor, são essencialmente o score
de Davis com acompanhamento mínimo de sintetizadores. A primeira faixa
marca a curta aparição inicial do conhecido tema de Neo e Trinity, uma
das melhores criações de Davis. A segunda nos mostra um atraente uso dos
tambores Kodo, antes do ritmo eletrônico começar. "Men in Metal"
apresenta uma versão mais militar do motivo de Zion que foi ouvido pela
primeira vez em Reloaded, no momento em que vemos os
“Mechwarriors” da última cidade humana livre preparando-se para a
batalha. "Niobe's Run" é música de ação no melhor estilo Matrix,
iniciando com acordes de suspense que logo em seguida são substituídos
pelo conhecido motivo das Sentinelas, que se desenvolve em uma
estimulante música de perseguição.
"Woman can Drive" é uma faixa de ação soberba que acompanha a agitada
corrida da nave pilotada por Niobe rumo a Zion, conduzida por cordas
rápidas e metais em alto volume. "Moribund Mifune" e "Kidfried" são os
melhores exemplos da música de batalha de Davis, ouvida no grande ataque
das máquinas a Zion. A primeira composição inicia com coral e violinos
dramáticos, encerrando-se com um triste trompete que anuncia a morte do
bravo guerreiro. Na segunda, a música é interpretada com a orquestra a
plena força, e atinge níveis intensos de emoção quando alguns atos
heróicos são praticados na tela. "Saw Bitch Workhorse" descreve, de
forma poderosa, algumas visões de pesadelo na Cidade das Máquinas, além
de pontuar o confronto de Neo com as Sentinelas. Mas, definitivamente, a
melhor faixa de ação do score é "Neodämmerung", que inicia com o
coral entoando cânticos em sânscrito, com um piano percussivo de
acompanhamento. A faixa acompanha a luta final entre Neo e o Agente
Smith, combinando harmonia e elementos atonais, com a orquestra
interpretando de forma brilhante alguns dos temas principais do filme. A
faixa seguinte, "Why. Mr. Anderson?", é uma composição dramática que
descreve o último destino de Neo e Smith. Em um nível mais melódico, "Trinity
Definitely" é uma faixa emocionante que, após uma melancólica
introdução, nos presenteia com a mais tocante e triste versão do tema de
amor da série, destacando-se as interpretações de violoncelo e trompa.
Outro destaque nesta área é "The Road to Sourceville", que acompanha a
jornada de Neo e Trinity até a Cidade das Máquinas, com um belo trabalho
de cordas e metais. A última faixa da partitura, "Spirit of The Universe",
emprega toda a orquestra com coral. A voz de um garoto soprano e uma
harpa ressaltam os tons religiosos da mensagem final do filme, antes que
o tema de duas notas nos leve a uma última, e estrondosa, intervenção da
orquestra. Em resumo, o trabalho de Davis em Matrix Revolutions
combina os já conhecidos sons dissonantes de Matrix com música
mais harmônica, melódica e épica, polindo os motivos dominantes da série
e, ao final, criando a melhor trilha sonora dos três filmes. Altamente
recomendada.
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