MUSIC FROM MISSION: IMPOSSIBLE (TV)
Música composta por Lalo Schifrin

Selo: MCA
Catálogo: MCD 80069
Lançamento: 1996
Faixas

1. Mission: Impossible
2. Jim On The Move
3. Operation Charm
4. The Sniper
5. Rollin Hand
6. The Plot
7. Wide Willy
8. Cinnamon (The Lady Was Made To Be Loved)
9. Barney Does It All
10. Danger
11. Mission Blues
12. Self - Destruct
13. Affair In Madrid
14. Midnight Courier
15. The Chelsea Memorandum
16. More Mission
17. Intrigue
18. Danube Incident
19. Foul Play
20. The Getaway
21. Secret Code
22. Mission: Accomplished

Duração: 59:55
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 
Hoje em dia, dificilmente haverá alguém que não conheça o clássico tema de Missão Impossível, de autoria do pianista de jazz, arranjador, orquestrador, maestro e produtor argentino Lalo Schifrin. Contudo, a grande maioria ouviu a composição apenas nos filmes realizados a partir de 1996, estrelados por Tom Cruise, já que não assistiram à série de TV original, que estreou dia 17 de setembro de 1966 na CBS norte-americana. Nela, uma equipe de uma agência secreta, a MIF (Mission Impossible Force), levava a cabo arriscadas missões, onde o embuste e os disfarces eram a tônica dos episódios. Na primeira temporada a equipe era chefiada por Daniel Briggs (Steven Hill), que foi substituído na segunda temporada por Jim Phelps (Peter Graves), que permaneceu até o final das sete temporadas do programa. Outros personagens de destaque eram o mestre dos disfarces Rollin Hand (Martin Landau, por três temporadas), Cinnamon Carter (Barbara Bain, também por três temporadas), o mestre em tecnologia Barney Collier (Greg Morris) e o musculoso Willy Armitage (Peter Lupus) - estes dois últimos, presentes em todas as temporadas. No desenrolar do programa, novos atores e atrizes participaram do elenco fixo do programa, como o eterno Sr. Spock, Leonard Nimoy, que por duas temporadas esteve na equipe como o novo especialista em disfarces, Paris. O formato do programa foi copiado por uma infinidade de outras séries, sendo uma delas Alias - e não por coincidência seu criador, J. J. Abrams, foi escolhido por Tom Cruise para dirigir o mais recente longa da franquia.

Mas obviamente a série também foi um marco musical, como demonstra a perenidade de seu tema. E mais, sendo um de seus primeiros trabalhos em Hollywood, Schifrin (que iniciou sua carreira norte-americana como protegido do grande trompetista Dizzy Gillespie) criou um estilo de score para séries de espionagem, policiais ou de ação, que influenciou uma infinidade de outros programas e filmes durante as décadas de 1960 e 1970. Como não é raro de acontecer no mundo das trilhas, um trabalho mítico como este surgiu no meio de um cronograma apertadíssimo - Schifrin teve apenas duas semanas para compor a partitura do episódio piloto. Como resultado, o argentino entregou um score moderno, com toques de jazz e tons militares, que se revelou o acompanhamento perfeito para as aventuras do grupo de agentes secretos. Um dos primeiros temas criados por Schifrin foi "The Plot", que combina percussão militar com uma melodia conduzida pelos metais (trompete e trompas), e que pode ser considerado como uma segunda assinatura musical da série. Já o clássico e vibrante tema que hoje conhecemos foi criado somente seis dias antes da estréia do piloto, a pedido do produtor Bruce Geller, e o resto é história. Temos aqui um dos melhores exemplos de ajuste da música à imagem: traduzidas na música de ritmo vivo, estão todas as imagens que surgem durante a seqüência de créditos iniciais: o palito de fósforo que acende um pavio, a prévia das cenas do episódio que será exibido, o surgimento na tela do título "Mission: Impossible", o nome e as imagens dos atores... simplesmente perfeito. Tenho certeza de que um dos segredos do sucesso da série foram seus vibrantes créditos iniciais, dos quais o tema de Schifrin é a sua essência. Durante as sete temporadas originais de Missão: Impossível vários outros compositores de gabarito também contribuíram para a série, como Jerry Fielding, Gerald Fried, Robert Drasnin e Richard Markowitz. Porém, suas colaborações nunca se igualaram à do maestro argentino.

Da discografia originada da série, dois LPs do selo Dot Records, trazendo gravações de Schifrin, se destacaram: "Music from Mission: Impossible", de 1967, e "More Mission: Impossible", de 1968. Com o advento do CD eles tiveram edições isoladas, mas em 1994 a One Way Records, em parceria com a MCA, lançou o CD "Mission: Anthology", que trazia o conteúdo dos dois antigos LPs e uma faixa inédita, "Secret Code". Dois anos depois, coincidindo com a chegada aos cinemas do primeiro filme da franquia, a MCA lançou este CD no Brasil com o título de "Music from Mission: Impossible", que é o objeto deste comentário. À exceção da arte de capa diferenciada, os CDs americano e brasileiro são idênticos em conteúdo. Nele podemos notar certas diferenças entre um LP e outro: o primeiro é centrado nos personagens da série, enquanto o segundo dedica boa parte de sua música para representar os locais onde se desenrolavam os episódios. Porém ambos também trazem sonoridades jazz, pop e cadenciadas, antecipando obras que Schifrin posteriormente comporia para a tela grande, como Bullit
(1968) e Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971).

No conjunto, esta música é a prova da versatilidade Schifrin, trazendo padrões harmônicos que são sua marca registrada e, como de hábito, grandes performances de excelentes músicos. A dinâmica "Jim On The Move" é dedicada ao personagem Jim Phelps, onde se destacam os improvisos de piano de Mike Melvoin. O mestre dos disfarces é apresentado em "Rollin Hand", com início em piano e cordas e que, em seguida, traz a orquestra com um uma elegante e poderosa interpretação dos metais. Outras faixas dedicadas a personagens individuais se seguem, como "Wide Willy", "Cinnamon" (esta, com tons românticos levados por cordas e flauta, composta por Jack Urbont e Bruce Geller), mas temos também cortes como a já citada "The Plot", dedicada às atividades do grupo, a sensual e étnica "Danger", a tensa e improvisada "The Sniper", com o próprio Schifrin no harpsichord e com Bill Plummer na sítara. O conteúdo de "More Mission: Impossible" inicia com "Mission Blues", faixa que combina metais e baixo funky.  "Self-Destruct" é uma tentativa de experimentação de Schifrin, apresentando percussões singulares acompanhando o saxofone. As já citadas músicas de acompanhamento local, descrevendo o cenário / país onde se desenrola a ação estão em faixas como "Affair in Madrid" (guitarras flamencas), a jazzística "The Chelsea Memorandum" (composta por Shorty Rogers, com destaque para o órgão) e "Danube Incident" (com um uso criativo dos címbalos). Já "The Getaway" apresenta tons humorísticos aplicados ao tema principal da série, "More Mission" dá toques latinos a "The Plot" e "Secret Code" revela-se uma composição jazzística com ótimo emprego de órgão, tabla hindú e flautas).

Vale ressaltar que, como era de praxe, os LPs (e portanto o CD) não trazem as gravações originais utilizadas na série. Já que os temas e as cues via de regra eram de curta duração, sua audição em disco ficaria muito truncada. Deste modo, Schifrin arranjou versões especiais para serem gravadas em disco, com faixas desenvolvendo versões mais longas dos temas principais, ou então combinando várias cues para formar uma faixa maior. Deste modo, as músicas soam mais como peças autônomas de jazz / pop do que propriamente de underscore. Algumas das gravações originais foram lançadas pelo selo GNP Crescendo em 1992, no CD "The Best of Mission: Impossible - Then and Now", que incluía músicas de Schifrin para a série original e de John E. Davis para uma nova versão lançada em 1988. É curioso comparar as gravações originais de certos temas com as versões deste CD, mas o principal é poder constatar como as composições posteriores de Davis, já utilizando sintetizadores, soam mais datadas que as criações de Schifrin feitas nos anos 1960. Um atestado do talento e genialidade do grande maestro argentino.

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