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A mais recente colaboração da dupla Steven
Spielberg e John Williams
é um animal estranho. Certamente não será uma grande obra-prima, há
muito para ouvir com atenção, mas acima de tudo, o que me parece ser
este novo trabalho de um grandes de Hollywood, é acima de tudo música
para sustentar as imagens. Isto é invulgar com Williams, já que as suas
partituras para cinema são mais do que apenas música para filmes, são
autênticas peças de música abstrata, que acidentalmente, foram escritas
a pensar nas imagens filmadas por um realizador qualquer. Mas
infelizmente, isso nem sempre acontece - o simples fato de isto ser a
regra na obra de Williams é um feito único. Minority Report é
muito mais atmosférico, temático, assente em breves motivos, alguns
deles tratados de forma minimalista, o que não torna a audição do CD tão
aprazível como, por exemplo, a colaboração anterior com Spielberg,
A.I. - Artificial Inteligence. O referir à colaboração anterior não
é casual - ambas as histórias são ficção cientifica futurista, e
inevitavelmente há pontos de contato entre as duas partituras, mais
presas às ambiências e acontecimentos do filme do que à própria estética
musical do compositor.
A center-piece do álbum é o "Sean's Theme", um tema esteticamente
próximo do lírico vocalise "Where Dreams are Born" de A.I. -
Artificial Inteligence. Este é um tema muito delicado, para o
falecido filho de Anderton (Cruise), e tem uma qualidade a que eu
chamaria de emocionalmente instável, muito como a instabilidade que
encontramos no "Anakin's Theme" de The Phantom Menace. Nas várias
aparições do tema este parece nunca atingir a sua plena resolução, com
exceção de "A New Beginning", a faixa final do álbum. Em "Sean and
Lara", o uso do oboé é reminescente das orquestrações de
Herrmann, mentor de
Williams (o oboé tem uma qualidade que me trás à memória o violino na
valsa de Snows of Kilimanjaro). Aliás, a referência ao lendário
compositor nas notas de Spielberg não é de todo de estranhar. Vários dos
motivos de matiz minimalista trazem facilmente à memória o famoso tema
para Vertigo. Mas Minority Report é mais que um tema
lírico: embora mais motívico que temático, há bastante mais material
para apreciar: a faixa de abertura apresenta a maior parte desse
material, começando por uma breve apresentação de "Sean's Theme", e
depressa avançando para o motivo associado com o departamento da polícia
Pré-Crime. Este motivo é minimalista na sua qualidade, e surge em
diversas ocasiões durante o álbum, sendo também apresentadas várias
variações sobre o mesmo, como é o caso de "Anderton's Great Escape". Um
outro motivo, na mesma linha estética do anterior surge, sendo
totalmente desenvolvido mais tarde em "Spyders". A faixa conclui com o "Sean's
Theme", usando a mesma variação de "A New Beginning". Esta faixa surge
quase como uma suíte da partitura, e não será de espantar que seja a
peça que Williams apresentará futuramente em concerto.
Eventualmente aquilo que ficará mais depressa na memória dos ouvinte
serão as faixas de ação, como "Pre-Crime To The Rescue", que começa com
uma discreta apresentação do tema associado ao grupo da polícia
Pré-Crime, muito à moda de "The Conspirators" de JFK. A faixa
avança, ganhando tensão que deságua em música baseada no motivo
principal, mas com forte participação da percussão, uma das apostas de
Williams nos seus trabalhos mais recentes. "Spyders" é o desenvolvimento
de um dos motivos de cariz minimalistas já ouvidos na primeira faixa. Ao
contrário do motivo principal, que funciona como um motor que nos
propulsiona para a frente, este segundo motivo é estático, e serve
essencialmente para criar tensão. A faixa em si é exatamente isso - um
ponto de tensão, já que no final parece não chegar a uma resolução que a
alivie. "Eye-Denstiscan" introduz um novo tema que faz lembrar um dos
temas de Alan Silvestri
para Death Becomes Her, uma melodia 'diabólica' nas cordas. A
faixa inclui ainda um outro tema recorrente durante a partitura,
associado às visões do futuro. Com um toque etnográfico, é interpretado
pela voz etérea de Deborah Dietrich. A faixa seguinte, "Everybody Runs!"
é uma das grandes faixas de ação, com material que parece saído do
último filme da saga Star Wars. De modo idêntico, "Anderton's
Great Escape" parece ser um parente próximo de "On the Conveyer Belt" de
Attack of the Clones. A brilhante fanfarra com que termina faz
recordar as fanfarras associadas a Coruscant, na nova trilogia Star
Wars. Estas acabam por ser as faixas que ficam na memória, quanto
mais não seja por serem as mais barulhentas.
O fato de muitas das faixas terem um tom ambiental, acaba por fazer
perder-se bastante o tema de Sean. E isso traz-me novamente à memória o
exemplo de Herrmann: muita da sua música era também música de cena, mais
ligada à atmosfera do que às estruturas musicais. Eventualmente alguns
pedaços viviam para além do filme - com Minority Report acontece
isso mesmo: poderá funcionar como um souvenir do filme, após ver
os dois em simbiose. Sozinha, entregue a si própria, a música tem
dificuldade de viver, pelo menos na forma como é apresentada.
Possivelmente uma versão mais reduzida da partitura poderia ter sido,
enquanto experiência musical, muito mais satisfatória. Mas se assim
fosse, caso Williams e a Dreamworks optassem por um CD mais curto,
teriam que lidar com a fúria dos fãs... Desta forma uns quantos
fanáticos ficaram satisfeitos por terem um CD de setenta minutos, mas
perdeu-se em coesão musical. Para os admiradores incondicionais de
Williams ou para quem tiver a paciência de estudar detalhadamente este
álbum, será naturalmente indispensável. Fica aqui mais uma amostra da
escrita modernista de Williams. Mas não agradará, pelo menos da mesma
forma, aos restantes. No final temos um acompanhamento de imagens, que
oferece apenas uma paisagem musical competente. Ainda assim, mesmo
quando Williams não acerta em cheio, continua a ser um dos melhores no
seu meio, e o ouvinte sempre pode programar o leitor de CDs com as
faixas que mais lhe agradam. |
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