MINORITY REPORT
Música composta e regida por John Williams


Selo:
DreamWorks
Catálogo:
450385
Ano: 2002

16 Faixas

Duração: 73:58
Cotação:


Comentário de
Miguel Andrade

 
A mais recente colaboração da dupla Steven Spielberg e John Williams é um animal estranho. Certamente não será uma grande obra-prima, há muito para ouvir com atenção, mas acima de tudo, o que me parece ser este novo trabalho de um grandes de Hollywood, é acima de tudo música para sustentar as imagens. Isto é invulgar com Williams, já que as suas partituras para cinema são mais do que apenas música para filmes, são autênticas peças de música abstrata, que acidentalmente, foram escritas a pensar nas imagens filmadas por um realizador qualquer. Mas infelizmente, isso nem sempre acontece - o simples fato de isto ser a regra na obra de Williams é um feito único. Minority Report é muito mais atmosférico, temático, assente em breves motivos, alguns deles tratados de forma minimalista, o que não torna a audição do CD tão aprazível como, por exemplo, a colaboração anterior com Spielberg, A.I. - Artificial Inteligence. O referir à colaboração anterior não é casual - ambas as histórias são ficção cientifica futurista, e inevitavelmente há pontos de contato entre as duas partituras, mais presas às ambiências e acontecimentos do filme do que à própria estética musical do compositor.

A center-piece do álbum é o "Sean's Theme", um tema esteticamente próximo do lírico vocalise "Where Dreams are Born" de A.I. - Artificial Inteligence. Este é um tema muito delicado, para o falecido filho de Anderton (Cruise), e tem uma qualidade a que eu chamaria de emocionalmente instável, muito como a instabilidade que encontramos no "Anakin's Theme" de The Phantom Menace. Nas várias aparições do tema este parece nunca atingir a sua plena resolução, com exceção de "A New Beginning", a faixa final do álbum. Em "Sean and Lara", o uso do oboé é reminescente das orquestrações de Herrmann, mentor de Williams (o oboé tem uma qualidade que me trás à memória o violino na valsa de Snows of Kilimanjaro). Aliás, a referência ao lendário compositor nas notas de Spielberg não é de todo de estranhar. Vários dos motivos de matiz minimalista trazem facilmente à memória o famoso tema para Vertigo. Mas Minority Report é mais que um tema lírico: embora mais motívico que temático, há bastante mais material para apreciar: a faixa de abertura apresenta a maior parte desse material, começando por uma breve apresentação de "Sean's Theme", e depressa avançando para o motivo associado com o departamento da polícia Pré-Crime. Este motivo é minimalista na sua qualidade, e surge em diversas ocasiões durante o álbum, sendo também apresentadas várias variações sobre o mesmo, como é o caso de "Anderton's Great Escape". Um outro motivo, na mesma linha estética do anterior surge, sendo totalmente desenvolvido mais tarde em "Spyders". A faixa conclui com o "Sean's Theme", usando a mesma variação de "A New Beginning". Esta faixa surge quase como uma suíte da partitura, e não será de espantar que seja a peça que Williams apresentará futuramente em concerto.

Eventualmente aquilo que ficará mais depressa na memória dos ouvinte serão as faixas de ação, como "Pre-Crime To The Rescue", que começa com uma discreta apresentação do tema associado ao grupo da polícia Pré-Crime, muito à moda de "The Conspirators" de JFK. A faixa avança, ganhando tensão que deságua em música baseada no motivo principal, mas com forte participação da percussão, uma das apostas de Williams nos seus trabalhos mais recentes. "Spyders" é o desenvolvimento de um dos motivos de cariz minimalistas já ouvidos na primeira faixa. Ao contrário do motivo principal, que funciona como um motor que nos propulsiona para a frente, este segundo motivo é estático, e serve essencialmente para criar tensão. A faixa em si é exatamente isso - um ponto de tensão, já que no final parece não chegar a uma resolução que a alivie. "Eye-Denstiscan" introduz um novo tema que faz lembrar um dos temas de Alan Silvestri para Death Becomes Her, uma melodia 'diabólica' nas cordas. A faixa inclui ainda um outro tema recorrente durante a partitura, associado às visões do futuro. Com um toque etnográfico, é interpretado pela voz etérea de Deborah Dietrich. A faixa seguinte, "Everybody Runs!" é uma das grandes faixas de ação, com material que parece saído do último filme da saga Star Wars. De modo idêntico, "Anderton's Great Escape" parece ser um parente próximo de "On the Conveyer Belt" de Attack of the Clones. A brilhante fanfarra com que termina faz recordar as fanfarras associadas a Coruscant, na nova trilogia Star Wars. Estas acabam por ser as faixas que ficam na memória, quanto mais não seja por serem as mais barulhentas.

O fato de muitas das faixas terem um tom ambiental, acaba por fazer perder-se bastante o tema de Sean. E isso traz-me novamente à memória o exemplo de Herrmann: muita da sua música era também música de cena, mais ligada à atmosfera do que às estruturas musicais. Eventualmente alguns pedaços viviam para além do filme - com Minority Report acontece isso mesmo: poderá funcionar como um souvenir do filme, após ver os dois em simbiose. Sozinha, entregue a si própria, a música tem dificuldade de viver, pelo menos na forma como é apresentada. Possivelmente uma versão mais reduzida da partitura poderia ter sido, enquanto experiência musical, muito mais satisfatória. Mas se assim fosse, caso Williams e a Dreamworks optassem por um CD mais curto, teriam que lidar com a fúria dos fãs... Desta forma uns quantos fanáticos ficaram satisfeitos por terem um CD de setenta minutos, mas perdeu-se em coesão musical. Para os admiradores incondicionais de Williams ou para quem tiver a paciência de estudar detalhadamente este álbum, será naturalmente indispensável. Fica aqui mais uma amostra da escrita modernista de Williams. Mas não agradará, pelo menos da mesma forma, aos restantes. No final temos um acompanhamento de imagens, que oferece apenas uma paisagem musical competente. Ainda assim, mesmo quando Williams não acerta em cheio, continua a ser um dos melhores no seu meio, e o ouvinte sempre pode programar o leitor de CDs com as faixas que mais lhe agradam.

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