The Chronicles Of Narnia: The Lion, The Witch And The Wardrobe
Música composta e regida por Harry Gregson-Williams


Selo: Walt Disney Records
Catálogo: 61374-7
Ano: 2005
Faixas:
1. The Blitz, 1940
2. Evacuating London
3. The Wardrobe
4. Lucy Meets Mr. Tumnus
5. A Narnia Lullaby
6. The White Witch
7. From Western Woods to Beaversdam
8. Father Christmas
9. To Aslan's Camp
10. Knighting Peter
11. The Stone Table
12. The Battle
13. Only the Beginning of the Adventure
14. Can't Take It In (Imogen Heap)
15. Wunderkind (Alanis Morissette)
16. Winter Light (Tim Finn)
17. Where (Lisbeth Scott)
Duração: 70:11
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 

Harry Gregson-Williams habitualmente alterna seus trabalhos entre potentes e exóticas partituras percussivas (Jogos de Espiões, Assassinos de Aluguel) e divertidas paródias em partituras de animação (Shrek, A Fuga das Galinhas) mantendo sempre um patente ritmo em sua instrumentação, o que me parece ser uma tendência atual entre os iniciantes. Sua tendência ao trato com sonoridades eletrônicas, seu afã pela experimentação, pela fusão de música contemporânea com sons étnicos (inspirada, talvez, por sua estadia na África ensinando música às crianças) e, sobretudo, um polêmico e excessivo comprometimento com os clichês de seu mentor e amigo Hans Zimmer, não lhe tem conferido mais que infâmia e críticas, em muitos casos injustificadas, que o rotulam com uma personalidade fraca, até então, incapaz de conquistar o respeito dos aficionados por trilhas sonoras. A verdade é que ele transcende seu mestre, sendo mais sensível, minucioso e perspicaz em suas leitura emocionais e dramáticas - observando atentamente suas nuances em cena, fugindo à música meramente ambiental, dissociada da cena. Mas também é verdade que falta-lhe uma certa austeridade, uma certa fidelidade de estilo que nos faça confiar que o minuto, a faixa seguinte será tão boa quanto a anterior. Uma sobriedade que talvez a experiência lhe dará. Todavia, seu talento e o espírito de superação foram capazes de convertê-lo, junto a seu colaborador habitual, John Powell, em um ícone da música de animação com obras como Antz, Sinbad e a própria Shrek de Andrew Adamson, diretor também desta primeira aventura da série Narnia.

Assim, em As Crônicas de Nárnia ele dá continuidade à tradição britânica através do classicismo das cordas e da orquestração repousada em elegias como em The Magic of Marciano ou Bridget Jones 2, adentrado em seguida ao âmbito das superproduções com Cruzada de Ridley Scott, onde frustrara os que dele esperavam uma demonstração de independência intelectual e competência individual. Agora o encontramos em As Crônicas de Narnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa que diziam ser, desde o seu anúncio, sua grande oportunidade de mudar toda má impressão que deixara e dizer a que veio. Baseada na aclamada a obra de C.S Lewis, esta história narra as aventuras de quatro irmãos: Lucy, Edmund, Susan e Peter, que durante a Segunda Guerra Mundial descobrem, através de uma passagem oculta em um guarda-roupa, o mundo de Narnia, no qual se embrenham.

Apesar de não ter lido nenhum dos sete livros da série As Crônicas de Nárnia, e, portanto, não poder dizer se os diversos problemas que atravessam esta adaptação para o cinema vieram do material original, posso falar de seu roteiro enfadonho, previsível, e de sua direção equivocada. Assim, descrever este filme como um "O Senhor dos Anéis para crianças" (impulso inicial de qualquer pessoa) acabaria sendo uma ofensa tanto para a trilogia dirigida por Peter Jackson quanto para os pueris espectadores que, apenas por serem jovens, não merecem produções, que apesar de visualmente deslumbrantes, são mal-acabadas como esta. A previsibilidade do roteiro, no entanto, não é o principal equívoco de As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, cuja maior fraqueza reside na falta de tensão ao longo da projeção. Desde o início, quando vemos a esquadrilha nazista sobrevoando Londres, o filme assume um clima de inocuidade que mantém o espectador seguro de que nada de mau acontecerá – e o fato de ser voltado para o público infantil não justifica esta atmosfera inofensiva. Mesmo as cenas de batalha falham em nos levar a temer pela segurança dos heróis, que parecem apenas estar brincando de guerreiros, cientes de que ninguém os machucará seriamente. Bem mais longo do que o ideal com seus 140 minutos de duração, esta primeira parte de As Crônicas Nárnia é cansativa e nada envolvente.

Pois este é o ambiente de trabalho de Gregson-Williams que, imbuído de todo logro que este filme demonstra ser, talvez não percebendo-o, acaba por pecar pelo excesso desde o início - como quando as crianças fogem da governanta ao som de uma música desproporcionalmente tensa e grandiosa, mais um exemplo da música superando a obra para qual foi feita. Para este filme Gregson-Williams compôs a partitura mais ambiciosa, completa, e em todos os sentidos, bem sucedida de toda sua carreira. Um trabalho de exuberante riqueza temática, preciosismo melódico, orquestração original e variada, e, sobretudo, de contrastes, passando de um terno intimismo a contundentes e espetaculares paisagens de ação com a preciosa onipresença de coros. Também encontramos seus pontos fracos: há a importuna introdução de sonoridades eletrônicas e enfadonhas vocalizações new age que, num filme épico de fantasia, o bom-senso mandaria evitar.

Introduzirmo-nos no universo musical idealizado por Gregson-Williams é uma experiência difícil... A consistência de suas músicas em integração com as imagens é tão importante, que poderíamos dizer que o score é o encantado Wardrobe deste filme. Se Gregson-Williams não o tivesse aberto, o resultado final certamente teria sido ainda mais questionável, pois ao final ele faz de sua música o melhor do filme. Tematicamente, as crianças são a chave da partitura. Para descrever suas fragilidades, a dramaticidade por terem sido abandonados por sua mãe, e incluindo as dúvidas entre os próprios irmãos, Gregson-Williams utiliza uma bonita, mas triste melodia, que contrasta com o tema dos Reis. Fato que será primordial nas seqüências de ação que na prática refletirão seus futuros, seu heroísmo e determinação. Todavia, o próprio mundo mágico de Narnia também possui seu próprio tema, assim como, Aslan e sua antagonista, a Feiticeira Branca, que paira em espírito sob as cenas ameaçadoras. Em segundo plano, existem ainda os temas da viagem, associado a um fragmento de sonoridade contemporânea com percussões eletrônicas e vocalização new age manifestado no decorrer de jornadas; e de Mr. Tummus, preciosa e comovente melodia executada primordialmente pelo violino elétrico.

O suporte narrativo do qual se incumbem todos os temas, e não a mera descrição, é uma das características mais admiráveis e bem sucedidas deste score de Gregson-Williams... Outro dos múltiplos motivos pelos quais devemos considerar As Crônicas de Narnia sua melhor composição até o momento. Passemos pelos principais momentos do score:

“The Blitz, 1940” (Faixa 01 - 02:32): Os primeiros compassos deste álbum se apresentam como uma intensa e dramática Abertura para percussão e metais sobre o adorno dos efeitos sonoros da aproximação e ataque de bombardeiros alemães, que ameaçam a população de Londres durante um de seus múltiplos ataques durante a II Guerra Mundial. Através de seu tema principal, doado aos metais logo em seu início, lembramos John Barry e sua música para os filmes de James Bond. Nesta música nos é apresenta o tema antagonista utilizado indistintamente durante o filme sempre que os protagonistas sofrerem alguma ameaça (como posteriormente ocorrerá durante as aparições de Feiticeira Branca e seus aliados). Por fim, a evolução temática nos levará ao tema das crianças, apresentado aqui em sua vertente mais dramática.

“Evacuating London” (Faixa 02 - 3:38): Encontramos esta música com a evacuação de Londres e a fuga dos irmãos, a separação de sua mãe e em seguida a viagem de trem das crianças em busca de um novo lar. Toda seqüência tem início com a apresentação do tema das crianças em seu invólucro melancólico nas notas mais que apropriadas de um piano, mas que ainda assim contem a esperança de que tudo voltará a ser como antes.  Com o inicio do main title inicia-se uma dinâmica e contemporânea passagem lírica na voz de Lisbeth Scott conciliada com sintetizadores e ritmos eletrônicos, que apesar de afetivos, são uma intromissão estranha ao ambiente de onde surgem, em segundo plano, os temas de Narnia e das crianças.

“The Wardrobe” (Faixa 03 - 02:54): Aqui encontramos a cena em que a pequena Lucy descobre o guarda-roupa e, através dele, o mundo de Narnia. É um dos momentos mais mágicos do filme e certamente do score. Flauta, harpa e sobretudo o piano que interpreta o tema de Aslan, acompanham Lucy em seu caminho rumo ao desconhecido. O surgimento do coro, o crescendo das cordas e a inserção de sinetas, terminam por nos situar em um novo mundo, pleno de magia; logo interrompida pela aparição de Mr. Tummus (o fauno).

“Lucy Meets Mr. Tumnus” (Faixa 04 - 04:10): A busca de sons próprios para Narnia levou Gregson-Williams a contar com seu amigo Hugh Marsh, virtuoso interprete do violino elétrico, para prover as explicações de Mr. Tummus a Lucy de um ar quase místico e surreal. É uma preciosa passagem onde o tema de Narnia é retomado em sua parte final por meio do clarinete e em seguida pelas cordas e coro (elementos indissoluvelmente unidos durante todo o score).

“A Narnia Lullaby” (Faixa 05 - 01:12): Sem dúvida uma dos pontos altos deste score. Mr. Tummus deseja adormecer Lucy para entregá-la à Feiticeira Branca, e para isso faz uso de um instrumento mágico, que Gregson-Williams associa ao som do duduk. A melodia de claras sonoridades orientais vai crescendo através da inserção do coro e do maior protagonista da orquestra, a percussão, até alcançar seu auge sinfônico por meio dos metais - talvez uma metáfora da evolução dramática e épica do filme.

“The White Witch” (Faixa 06 - 05:30): É tempo de nos dedicarmos ao ambiente musical desenvolvido para a Feiticeira Branca. Logicamente a atmosfera obscurece, a percussão se mostra mais agressiva, o coro adota um ar diabólico onde os piores temores se expressão. Uma dinâmica só interrompida por um interlúdio para flauta em um ambiente etéreo que antecede um final vibrante e sombrio.

“From Western Woods to Beaversdam” (Faixa 07 - 03:34): Para suavizar um pouco a rigidez e agressividade da faixa anterior, se recorre ao tema da viagem de “Evacuating London”. A estética new age domina esta primeira parte através das percussões e da cálida voz de Lisbeth Scott. A segunda parte, em exuberante contraste com a passagem anterior, se concentra mais no desenvolvimento do tema de Aslan através da candura das flautas, da nostalgia das cordas e da nobreza dos metais.

“Father Christmas” (Faixa 08 - 03:20): Uma das passagens mais surreais do filme se dá com a aparição do Papai Noel em uma seqüência na qual os protagonistas acreditam estar sendo perseguidos pela Feiticeira Branca. Gregson-Willians compôs uma preciosa peça tipicamente natalina com coros, sinetas e cordas que precedem a entrega de presentes aos meninos, presentes dignos de calafrios - armas! - refletidos na música por meio do tema de Narnia e de Aslan interpretado com grande solenidade e nobreza pelo coro e grande orquestra.

“To Aslan's Camp” (Faixa 09 - 03:12): Aqui encontramos a primeira aparição do tema dos Reis por meio de uma emocionante fanfarra. Em resumo, na seqüência do rio congelado onde Peter utiliza a espada para salvar a todos. Esta faixa trás um início espetacular e um breve interlúdio de moderada música em que encontramos novamente o tema de Narnia seguido de um momento quase místico com a aparição de Aslan. A faixa se finaliza com uma nova referência ao tema dos Reis, neste caso em uma variação mais nobre e menos dinâmica que o começo da peça.

“Knighting Peter” (Faixa 10 - 03:48): Traz um início lento com predomínio do tema de Aslan passando a uma breve, mas intensa, passagem de ação que coincide com a cena do enfrentamento entre Peter e os Lobos. Seu triunfo, descrito musicalmente com moderação, leva a uma nova apresentação do tema das crianças por meio da flauta, no momento em que Peter é nomeado cavaleiro por sua destreza e valia com a espada. Será ele quem guiará Narnia ao glorioso futuro que o espera.

“The Stone Table” (Faixa 11 - 08:06): Transcendente passagem do filme cujas conotações religiosas perpassam todo o ambiente. Vemos então a figura da Aslan, sacrificando-se pelos seus, permitindo ser executado em público. A cerimônia pagã dirigida pela Feiticeira Branca e acolhida quase que lascivamente por seus súditos é um dos momentos chave deste score onde se elabora uma peça dominada pelas percussões, as vozes étnicas (tibetanas), com a orquestra a todo o instante incrementando a tensão ao compasso de um ritmo que vai em crescendo. Este tempo será a chave do momento da execução, com a voz de Lisbeth Scott evocando o drama que está por vir. Uma aceleração da música que leva a tensão a limites imprevisíveis e de repente tudo cessa. O tempo pára e o tema de Aslan se transforma em uma dolorosa elegia para cordas. É o lamento pela morte do líder transmitido ao acampamento pelas árvores através de suas folhas, e a música através da percussão acompanhada por uma versão grave e obscura do tema dos Reis.

“The Battle” (Faixa 12 - 07:08): Uma das razões para este score ser lembrado é sem duvida por esta peça para orquestra e coro. Uma das maiores junções música-imagem conseguidas pelo compositor britânico ao longo de sua carreira. Uma longa faixa de ação de sete minutos, de ímpeto contido e solene, apresentando o tema dos Reis em clara metáfora da preocupação que invade os protagonistas antes da parte final e definitiva da batalha em campo aberto ante o exército da Feiticeira Branca. Contudo, este ímpeto não será mais que um prelúdio de uma sucessão de crescendos de um fabuloso tema perfeitamente compassado que alcança seu clímax justo quando coro e orquestra se fundem para elevar o misticismo e a magia da batalha, a bravura dos combatentes, o sacrifício do indivíduo pelo grupo. Convém destacar um elemento, a princípio questionável: o uso de uma base rítmica eletrônica que vai intocada por vários compassos por sob a orquestra e o coro com certo ar das antigas composições da extinta Media Ventures.

“Only the Beginning of the Adventure” (Faixa 13 - 05:32): Não é o “Throne Room and finale” de Star Wars, mas é uma passagem musical muito agradável utilizada na cena final no Castelo. É uma faixa que na realidade é uma suíte não declarada que tem início com o tema das crianças, em seguida de Aslan e o de Narnia, e o evidente e necessário tema dos Reis, já que é o momento da coroação dos quatro irmãos. A vaga referência ao tema de Mr. Tummus, no reencontro deste com Lucy, não será mais do que um pretexto para que o tema dos Reis de Narnia se desenvolva brevemente antes de seu desenlace final.

Como “ônus”, encontramos nas quatro faixas finais uma avalanche de canções originais, sendo que a última, “Where”, apresenta um trecho do tema das crianças interpretada por Lisbeth Scott, que nos últimos anos também serviu a John Williams em Munique e John Debney em A Paixão de Cristo.

Por fim, deve-se dizer que o trabalho de Gregson-Williams neste As Crônicas de Narnia não se limitou só a escrever o score, mas a criar toda uma realidade ambiental, através de texturas ousadas e ritmos patentes, que o filme por si seria ineficiente em criar. O vigor que reclamam faltar-lhe nesta partitura, não o encontro em falta, sendo que a preponderância ainda maior de seus elementos musicais poderia soar excessivo, até mesmo megalomaníaco, e em alguns momentos o é, pois que o filme “derrapa" e não lhe honra. Talvez ainda fiquemos esperando por uma manifestação mais clara da austeridade de sua música, mas também ele ficará esperando pela oportunidade de se embrenhar num filme de qualidade que realmente o desafie. No entanto, podemos dizer que neste score ele deu mostras efetivas de seu talento.

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