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Em geral,
eu gosto mais da música composta para salas de concerto por compositores
que dedicaram a sua vida ao cinema, do que propriamente por aquilo pelo
que ficaram famosos. É natural que assim seja. Embora o cinema seja
uma fonte de inspiração, aqui o compositor é livre para fazer o que
quiser, e demorar o tempo que desejar (tanto para compor como em termos
de duração da peça de música). Quando cheguei a esta nova composição de
Kamen, temia, que embora de agradável audição, não fosse capaz de
acrescentar nada de novo ao que conhecemos do compositor. Enganei-me. O
meu medo, derivado do lindíssimo Concerto para Saxofone, mas que parece
rigorosamente saído de um filme, não foi cumprido. Este longo e
inventivo poema sinfônico, que Kamen disse ser a sua sinfonia do
milênio, e que cobre justamente cerca de 1000 anos de história, mantém
tudo que gostamos em Kamen: é melódico e dificilmente pode ser visto
como algo que desbrave novos caminhos, mas também tem substância e é
igualmente profundo no tema de que deriva e nos caminhos que segue
musicalmente.
Satisfaz-me dizer que este é um Michael Kamen adulto. A obra resultou de
uma encomenda da National Symphony Orchestra, e do seu diretor
musical Leonard Slatkin, um dos grandes campeões da música para sala de
concertos de compositores de Hollywood (uma das suas recentes comissões
foi o ciclo de canções "Seven for Luck" de
John Williams, que não
chegou a receber a sua estréia prevista pela soprano Kathleen Battle
achar 'demasiado complicado' para um compositor de Hollywood). Agora
Slatkin e a sua orquestra regressam para a estréia em CD da peça.
Dividida em quatro partes, as três primeiras subdivididas em outras
duas, a obra reflete sobre a história dos índios Anasazi, e do seu
flautista Kokopelli (que é retratado na capa do CD), desde 1000 D.C. até
à virada para este novo milênio. O primeiro movimento começa com ritmos
percussivos, primitivos, que recordam Stravinsky, sendo depois o ouvinte
encaminhado para um scherzo, o primeiro de três, onde flauta (Toshiko
Kohno) e violoncelo (David Hardy) dialogam. O segundo movimento "The
Prayer" começa de forma reflectiva com "Sunset" e daí segue para um
segundo scherzo. O terceiro "In the Moonlight" é o mais misterioso, e
está dividido em "Trio: From the Mists of Time" e "Scherzo III: The
Gathering of the Spirits". O movimento final "2000 A.D.: Reaching for
the Star" é o que está mais próximo do idioma mais fílmico de Kamen e
surge como uma conclusão capaz para a peça. A National S.O. interpreta
com gusto e Slatkin obviamente diverte-se com esta nova e
interessante obra de Kamen.
O restante do álbum é preenchido com "Mr. Holland Opus - An American
Symphony", uma suíte em cinco movimentos da partitura para o belíssimo
filme com Richard Dreifuss. "Iris" inicia com os compassos de abertura
do filme e avança para o tema da esposa de Holland (Dreifuss). "Cole's
Tune" merece um muito bem interpretado solo por Leila Josefowicz no
violino, representando o filho surdo de Holland. O movimento central "Marking
Homework" conta com um solo para virtuoso, tocado na perfeição por Simon
Mulligan, contando ainda com citações de várias obras do repertório. "Rowena",
a paixão juvenil de Dreifuss no filme, é retratada pelo corne inglês,
interpretado pelo próprio compositor. Este é um dos momentos altos do
filme, quando o protagonista tem que deixar o seu sonho quase encontrado
na sua jovem aluna, pela sua família e escola. A música é ao mesmo tempo
triste e cheia de esperança, pelos sonhos perdidos e por outros ganhos.
"Finale" apresenta a música com que encerra o filme. Kamen tem sido
muito criticado pelo seu uso de música pop nas suas partituras, e
embora eu não seja um apreciador do gênero isto tem que ser dito: o que
Kamen consegue, quase de forma única, é unir o mundo da música clássica
e o do Rock/Pop. Se por vezes não o consegue de uma forma muito
boa, noutras, como é o caso, em que junta à orquestra uma guitarra
elétrica (Phil Palmer), baixo elétrico (Pino Paladino) e bateria (Andrew
Newmark), o resultado é excepcional. Esta era a suíte que a partitura do
filme pediu desde o início.
É de notar que Kamen e Dreifuss fundaram a Mr Holland's Opus
Fundation, para angariar fundos para crianças sem possibilidades
econômicas para estudar música. Este álbum é mais um passo nessa
direção, uma vez que a Decca Records se juntou a esta cruzada e parte
das receitas deste CD serão encaminhadas para a fundação. No final ficou
a música. E o que posso dizer mais, senão que esta é uma experiência
extraordinária e que me faz esperar com particular antecipação os
próximos esforços para salas de concerto deste compositor.
Verdadeiramente música para ouvir e guardar próxima de nós. |