The New Moon in the Old Moon's Arms
Michael Kamen - Symphonic Poem*; Mr Holland's Opus - An American Symphony** - *National Symphony Orchestra; **BBC Symphony Orchestra; *&**Leonard Slatkin, maestro

Selo:
Decca Records
Catálogo:
 467 631-2
Ano: 2000

Cotação:

Comentário de
Miguel Andrade

 

Em geral, eu gosto mais da música composta para salas de concerto por compositores que dedicaram a sua vida ao cinema, do que propriamente por aquilo pelo que ficaram famosos.   É natural que assim seja. Embora o cinema seja uma fonte de inspiração, aqui o compositor é livre para fazer o que quiser, e demorar o tempo que desejar (tanto para compor como em termos de duração da peça de música). Quando cheguei a esta nova composição de Kamen, temia, que embora de agradável audição, não fosse capaz de acrescentar nada de novo ao que conhecemos do compositor. Enganei-me. O meu medo, derivado do lindíssimo Concerto para Saxofone, mas que parece rigorosamente saído de um filme, não foi cumprido. Este longo e inventivo poema sinfônico, que Kamen disse ser a sua sinfonia do milênio, e que cobre justamente cerca de 1000 anos de história, mantém tudo que gostamos em Kamen: é melódico e dificilmente pode ser visto como algo que desbrave novos caminhos, mas também tem substância e é igualmente profundo no tema de que deriva e nos caminhos que segue musicalmente.

Satisfaz-me dizer que este é um Michael Kamen adulto. A obra resultou de uma encomenda da National Symphony Orchestra, e do seu diretor musical Leonard Slatkin, um dos grandes campeões da música para sala de concertos de compositores de Hollywood (uma das suas recentes comissões foi o ciclo de canções "Seven for Luck" de John Williams, que não chegou a receber a sua estréia prevista pela soprano Kathleen Battle achar 'demasiado complicado' para um compositor de Hollywood). Agora Slatkin e a sua orquestra regressam para a estréia em CD da peça. Dividida em quatro partes, as três primeiras subdivididas em outras duas, a obra reflete sobre a história dos índios Anasazi, e do seu flautista Kokopelli (que é retratado na capa do CD), desde 1000 D.C. até à virada para este novo milênio. O primeiro movimento começa com ritmos percussivos, primitivos, que recordam Stravinsky, sendo depois o ouvinte encaminhado para um scherzo, o primeiro de três, onde flauta (Toshiko Kohno) e violoncelo (David Hardy) dialogam. O segundo movimento "The Prayer" começa de forma reflectiva com "Sunset" e daí segue para um segundo scherzo. O terceiro "In the Moonlight" é o mais misterioso, e está dividido em "Trio: From the Mists of Time" e "Scherzo III: The Gathering of the Spirits". O movimento final "2000 A.D.: Reaching for the Star" é o que está mais próximo do idioma mais fílmico de Kamen e surge como uma conclusão capaz para a peça. A National S.O. interpreta com gusto e Slatkin obviamente diverte-se com esta nova e interessante obra de Kamen.

O restante do álbum é preenchido com "Mr. Holland Opus - An American Symphony", uma suíte em cinco movimentos da partitura para o belíssimo filme com Richard Dreifuss. "Iris" inicia com os compassos de abertura do filme e avança para o tema da esposa de Holland (Dreifuss). "Cole's Tune" merece um muito bem interpretado solo por Leila Josefowicz no violino, representando o filho surdo de Holland. O movimento central "Marking Homework" conta com um solo para virtuoso, tocado na perfeição por Simon Mulligan, contando ainda com citações de várias obras do repertório. "Rowena", a paixão juvenil de Dreifuss no filme, é retratada pelo corne inglês, interpretado pelo próprio compositor. Este é um dos momentos altos do filme, quando o protagonista tem que deixar o seu sonho quase encontrado na sua jovem aluna, pela sua família e escola. A música é ao mesmo tempo triste e cheia de esperança, pelos sonhos perdidos e por outros ganhos. "Finale" apresenta a música com que encerra o filme. Kamen tem sido muito criticado pelo seu uso de música pop nas suas partituras, e embora eu não seja um apreciador do gênero isto tem que ser dito: o que Kamen consegue, quase de forma única, é unir o mundo da música clássica e o do Rock/Pop. Se por vezes não o consegue de uma forma muito boa, noutras, como é o caso, em que junta à orquestra uma guitarra elétrica (Phil Palmer), baixo elétrico (Pino Paladino) e bateria (Andrew Newmark), o resultado é excepcional. Esta era a suíte que a partitura do filme pediu desde o início.

É de notar que Kamen e Dreifuss fundaram a Mr Holland's Opus Fundation, para angariar fundos para crianças sem possibilidades econômicas para estudar música. Este álbum é mais um passo nessa direção, uma vez que a Decca Records se juntou a esta cruzada e parte das receitas deste CD serão encaminhadas para a fundação. No final ficou a música. E o que posso dizer mais, senão que esta é uma experiência extraordinária e que me faz esperar com particular antecipação os próximos esforços para salas de concerto deste compositor. Verdadeiramente música para ouvir e guardar próxima de nós.

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