THE NEW WORLD
Música composta e regida por James Horner, interpretada por The Hollywood Studio Symphony

Selo: New Line Records
Catálogo: NLR39058
Lançamento: 2005
Faixas

1. The New World
2. First Landing
3. A Flame Within
4. An Apparition in the Fields
5. Journey Upriver
6. Of the Forest
7. Pocahontas and Smith
8. Forbidden Corn
9. Rolfe Proposes
10. Winter - Battle
11. All is Lost
12. A Dark Cloud is Forever Lifted
13. "Listen to the Wind" - Hayley Westenra

Duração: 79:29
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 

O que dizer de um mímico em frente ao espelho? Assim, talvez melhor pudéssemos descrever os últimos trabalhos do californiano James Horner, que talvez tenha atingido o ápice de seu “método” em The New World. Seus despropósitos auto-plagísticos e sua incipiência melódica atual são já há um bom tempo defeitos dele indissociáveis, mas quando isso ocorre num filme de vibrantes ambições artísticas, tais coisas tendem a se maximizar, se tornando assim também mais difíceis de serem perdoadas.

Mesmo com apenas dois filmes no currículo, o roteirista e diretor Terrence Malick conseguiu uma grande reputação com a crítica e, depois de uma ausência de 20 anos, retornou com Além da Linha Vermelha, pelo qual foi indicado a sete Oscars. Então agora, Malick, realizou O Novo Mundo, um projeto antigo seu que retrata o famoso romance entre John Smith (Colin Farrell) e a índia americana Pocahontas (Q´Orianka Kilcher, de apenas 15 anos na época das filmagens). Com luz natural, de forma lenta e com poucos diálogos, o filme vai mostrando como chegaram os colonizadores ingleses em 1607 à região dos índios algonquins, onde aos poucos surge o romance improvável. Há um aprofundamento não visto recentemente no cinema comercial para esse tipo de situação. O que ocorre entre ambos os personagens é semeado, regado e cuidado. Não há um só momento em que esse improvável caso se torne irrealista ou soe falso. O Novo Mundo é um épico em estilo e ritmo diferenciados; para alguns, enfadonho, mas para mim, um exercício de sutilezas, onde a beleza pode ser descria sem pressa. Não é um filme sobre grandes navegações ou descobertas na América, como o título pode erroneamente indicar. É um épico sobre o amor. Sobre como dois seres humanos de culturas e vidas tão distintas podem se apaixonar, e como a separação pode ser dolorosa. Retrata a força de vontade, quase sobre-humana, para esquecer a quem se ama. Retrata o renascimento do amor em formas inesperadas. O filme é de fato “poesia visual”. Também não é um épico sobre grandes conquistas. Não deve ser julgado como tal. É mais simples, ao mesmo tempo em que também pode ser considerado infinitamente mais complexo, tanto quanto a vida pode ser. Deve ser sentido, não assistido. As imagens fluem, às vezes como recortes desconexos, sem sentido. Alguns cortes parecem deslocados, gerando um efeito quase hipnotizante – e bom! Não são poucos os momentos em que entramos nos pensamentos mais profundos dos personagens, através de uma apropriada narração in off. As imagens da floresta, praticamente virgem, sendo exploradas pela primeira vez pelos ingleses, propiciam um clima perfeito para o diretor explorar e brincar com sua câmera. Tem suas falhas, é verdade, mas são apenas arranhões em uma paisagem muito maior. E quando, no ato final, o filme vai para a Inglaterra, Malick surpreende com construções e recriação de época impecáveis.

Assim, para surpresa de todos, um dos mais controvertidos e importantes elementos de um filme, a sua música, ficou a cargo do não muito menos controvertido compositor: James Horner. Deixando de lado a surpresa inicial, a sua música acabou por se traduzir numa partitura que, como temíamos, não deixa lugar para surpresas; frustrando aqueles que esperavam que, sobre o auspício de Malick, o compositor seria forçado a experimentar ambientes musicais distintos dos que ele nos acostumou. Mas, ao contrário,  Horner parece mais assentado do que nunca em seu “estilo particular”. Se estabelecêssemos como premissa que estamos ouvindo pela primeira vez uma trilha de Horner, em um filme qualquer, poderíamos dizer que estamos diante de um score preciosista, sereno, assentado num tipo de música descritiva e intimista; na qual não se renuncia a instantes de preciosismo melódicos – fato inusitado nos filmes de Malick, mas quase coerente com a grandeza das paisagens mostradas. Estamos definitivamente diante de uma partitura afável, sentimental em suas formas... Mas lembrando-se de que Horner já é um compositor experiente e premiado, percebemos uma partitura absolutamente previsível e monótona que acaba por deixar o ouvinte com a amarga sensação de já ter ouvido esta música em algum lugar. Já aqueles que conhecem bem a obra do compositor podem inclusive prognosticar certos acordes antes que eles soem; circunstância que corresponde em bem pouco à originalidade de um trabalho destinado a um cineasta “rupturista”.  Naturalmente o diretor optou por rejeitar grande parte da música original de Horner. De fato a música no filme é pontuada em grande parte por partituras eruditas diversas (em especial por fragmentos do “Anel dos Nibelungos”, de Wagner), o que parece uma decisão extrema de um diretor que teve várias divergências artísticas com o compositor no processo de criação da trilha.

O tema principal, insolente coletânea melódica de outros main themes já conhecidos do autor, se converte em um recurso tremendamente pegajoso, de irrupção contínua e artificial utilização por Horner. Sem contar os insólitos samplers do trinar de pássaros que seguidamente insurgem azucrinantemente nas faixas, o compositor se limita, como vem fazendo assiduamente há muito tempo, a desenvolver a partitura com base em mais ou menos descaradas variações de seu leitmotiv central, alargando suas frases e rearranjando seus registros melódicos (seus orquestradores são precisamente os que vêm salvando atualmente a sua música da mediocridade mais absoluta). É uma melodia singela, pretensamente cálida, a qual tanto o piano, quanto os coros femininos, dotaram de uma aura emotiva, como podemos ouvir nas faixas “A Flame Within” (Faixa 03) e “Forbidden Corn” (Faixa 08), e posteriormente apresentada em sua versão mais épica nas cordas nos primeiros seis minutos de “All is Lost” (Faixa 11). Com esta mesma melodia ele compôs a canção contida nos créditos finais, “Listen to the Wind” (Faixa 13), interpretada pela angelical voz de Haley Westenra, neozelandesa de dezoito anos.

Horner recorre também ao leitmotiv central para utilizá-lo como love theme na faixa “Pocahontas and Smith” (Faixa 07), sem conseguir, portanto, evocar o lendário romance de seres antagônicos.  O que dizer então de um tema de batalha que parece extraído integralmente do repertório bélico de William Wallace de Braveheart, assim encontramos “Winter / Battle” (Faixa 10). No entanto; por entre a quase absoluta falta de originalidade em auto-referências a scores anteriores como Braveheart, O Homem Bicentenário ou aos coros sintéticos reciclados diretamente de Titanic; há curtos momentos em que nos deparamos com trechos musicais interessantes; podendo destacar-se, por sob a camada importuna de efeitos sonoros, a faixa “Of the Forest” (Faixa 06); exemplo inequívoco de que o autor, até mesmo em suas obras mais tediosas, segue oferecendo mostras de que um dia pode despertar de pesadelos recorrentes, pululados de músicas igualmente recorrentes, e compor algo de verdadeiramente novo.

Sendo ainda mais condescendente, posso reafirmar que, esquecendo o fato de Horner ser quem é, e ter feito o que fez, esta obra pode ser apreciada em sua devida medida: subtraídos os efeitos sonoros, definida e contida em si mesma, sem referências, seja a história a qual acompanha, ou ao passado. Só assim abriremos caminho para provarmos sua tênue e oculta beleza.

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