THE OMEN (2006)
Música composta por Marco Beltrami, regida por Pete Anthony

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 736 2
Lançamento: 2006
Faixas

1. The Omen Main Titles
2. The Adoption
3. Ambassador Gets Fired
4. New House / Damien's Deliverance
5. The Nanny's Noose
6. A Cross to Bear
7. Ms. Baylock
8. Damien's Tantrum
9. More Tantrums
10. Kate Doubts
11. Scooter
12. Don't Let Him Kill Me
13. On the Heels of Spiletto
14. Dogs in the Cemetery
15. Drive to Bugenhagen
16. Dirty Deeds
17. Altar of Sacrifice
18. The Funeral
19. Boy Genius
20. Omen 76/06 (arranged by Marco Beltrami and Bill Boston, based on "Ave Satani" by Jerry Goldsmith)

Duração: 53:57
Cotação:


Comentário de
Carlos Alberto Bissogno

 
Jerry Goldsmith em 1976 compôs uma das maiores trilhas sonoras da história cinematográfica para um dos mais interessantes filmes de Richard Donner. A Profecia (The Omen) passara então a tomar parte da seleta lista das obras primas legadas por este compositor da sétima arte, graças a uma temática dual magistralmente balanceada: um belo tema associado à família do embaixador protagonista que avança às zonas obscuras e tensas, à medida que antecipa a destruição de uma família; e um grandioso, meticuloso e adequado manejo do terror que se apóia sobre um surpreendente emprego de coros em uma partitura em espiral de angústia.

Como igualar o sucesso artístico de uma obra já consagrada? Como? O primeiro passo, deve ser dado com uma boa dose de personalidade... Imitar as formas da obra pregressa, por si só, já seria um grande erro, pois assim as comparações seriam inevitavelmente suscitas e colocadas sobre o domínio da pergunta: “Qual é melhor?”. Para evitar comparações diretas, nas quais a obra pregressa leva a vantagem de sua história, há de se prestar à música uma feição totalmente pessoal baseada em concepções e caminhos antes não tomados. Deve-se ter em mente que não se supera a obra em si, mas o seu mito. A superação não é de sua qualidade, pois esta, está atestada por sua história, mas sim, do conceito precípuo de que ela — e nenhuma outra — poderia ocupar aquele lugar. O segundo passo, penso, está sob total domínio do compositor, que não deve se comportar como um desafiante vivendo à sombra de seu desafio, mas deve se sentir desafiado a provar seu valor e prestar totais esforços para que sua obra — não, como já disse, supere a outra em qualidade, mas que esta adquira qualidade própria independentemente da existência de alguma obra pregressa de um outro. Pois foi nesse segundo passo que primordialmente Marco Beltrami tropeçou, não conseguindo imprimir, convincentemente, qualidade individual ao seu trabalho, mesmo em comparação a suas obras anteriores.

Com estas premissas, neste remake dirigido por John Moore, Beltrami, tendo como um de seus compositores favoritos Goldsmith, em The Omen teria supostamente uma oportunidade única de demonstrar seu frescor estilístico e prestar sua homenagem ao maestro californiano em uma de suas obras chave. O resultado não podia ser mais decepcionante, firmando o compositor uma de suas piores partituras. Comum, carente de emoção, sem progressão narrativa, sem força interior, a partitura carece de natureza própria. Tematicamente, Beltrami se limita a aplicar as mesmas premissas introduzidas por Goldsmith, mas permeadas por sua estética futurista e uma fraqueza de espírito patente: Beltrami contrapõe um delicado e harmônico tema para cordas, dedicado à família (“The Adoption” – Faixa 02; “New House” – Faixa 04), a um desdobramento de notas entregues à percussão e frias passagens lentas que perpassam a partitura sem rigor, carecendo de um mínimo de tensão que a justifique, demonstrando que o compositor confundiu a profundidade e o medo do desconhecido, insuflado por Goldsmith, com estéreis golpes de efeito e estridentes metais.

Com um discreto apoio coral, talvez presente apenas para homenagear a trilha de 1976, pronunciando as palavras latinas: sanguis-vivimus-corpus-elibus, Beltrami aposta em um tema tenso e dinâmico que, sobre um ostinato de cordas, alcança seu auge com a introdução da percussão e dos metais (“Main Titles” – Faixa 01); tanto a estruturação da cena, quanto a forma musical lembram a abertura do filme Hulk de Ang Lee, com composição de Danny Elfman. Como Goldsmith, Beltrami encerra o filme com este mesmo tema quase sem alteração, é o eterno retorno (“Boy Genius” – Faixa 19).

Passagens musicais memoráveis na versão antiga, como a feroz tempestade e a perseguição dos cães no cemitério, resultam desta vez em inexpressivas passagens de suspense com em “A Cross to Bear” (Faixa 06), ou em ruidosos e descritivos fragmentos de mera ação, quebrando as regras mínimas do terror psicológico (“Dogs in the Cemetery” – Faixa 14). Ainda mais estranhas e confusas são certas decisões de Beltrami, como o exemplo de coros em fusão com incoerentes sons eletrônicos na excessiva “More Tantrums” (Faixa 09), a estridência gratuita de “Altar of Sacrifice” (Faixa 17) e o burlesco tom arábico de “Drive to Bugenhagen”, mostras de sua falta de bom senso.

Talvez buscando comparações para as quais certamente não preparou sua música, Beltrami comete a ousadia incauta de homenagear Goldsmith com a apresentação, suavemente adaptada, dos pretéritos “Ave Satani-A Doctor Please-Killer Storm” que coroam o álbum em “The Omen 76/06”. Assumindo assim, para si, a pergunta que não soube responder: “Afinal, como igualar um mito?”.

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