EL ORFANATO
Música composta por Fernando Velázquez

Selo: Rhino
Catálogo: 5144250582
Lançamento: 2007
Faixas

1. Prólogo
2. Créditos
3. Una Luz Mágica
4. El Juego del Tesoro
5. Un Día de Fiesta
6. Atropello
7. Tomás
8. Dos Kilillos
9. Una Regresión
10. Crea, Entonces Verá
11. Sola en la Casa
12. La Casita de Tomás
13. Reunión y Final
14. Créditos Finales
15. Propuesta Inicial (Maqueta) Bonus Track 16. Tema Principal (Coro) Bonus Track

Duração: 47:26
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Hoje em dia, parece que a maioria dos diretores está perdendo aos poucos sua identidade. Parece-me que, para poder continuar no ramo, eles têm que relegar suas próprias convicções sobre cinema em prol da cultura de massa. Poucos diretores conseguem manter seu estilo como Steven Spielberg, George Lucas e Martin Scorcese, e ainda ter apoio de grandes estúdios. Dessa safra mais “nova” por assim dizer, Guillermo Del Toro é um dos diretores que mais mantém uma certa linearidade nas suas produções, via de regra ligadas ao fantástico - o que mostra uma personalidade cinematográfica consistente e madura.

Em O Labirinto do Fauno, ele nos trouxe uma fábula gótica, com elementos fantásticos, e ao mesmo tempo uma dura realidade. O filme peca pelo excesso de drama referente à Guerra Civil Espanhola, e todas as dificuldades passadas pela menina e sua mãe. Se tivesse se mantido mais no âmbito da fantasia teria sido um pouco menos cansativo. Mesmo assim, considero O Labirinto do Fauno um grande filme. Já em O Orfanato, apenas produzido por Del Toro, somos levados para um lado mais sombrio. Uma verdadeira história de fantasmas: o medo é real aqui, não apenas um conto de fadas como em O Labirinto do Fauno. Confesso que a trilha de Javier Navarrete não me chamou muito a atenção, e nesse aspecto O Orfanato já sai ganhando, pois o score é muito interessante. É uma trilha cheia de momentos, sombrios, tristes, misteriosos. Cada faixa é uma nova jornada. Fernando Velázquez acertou em cheio, assim Del Toro acertou na escolha do compositor.

O álbum abre com a faixa "Prólogo", que me lembrou bastante James Horner em momentos mais românticos. É nesta faixa que tudo começa: Laura é criança ainda e vive no orfanato. A música abre com glockenspiel e os violinos tocando uma nota pedal (contínua), que será sustentada enquanto o resto do naipe de cordas vai cantando uma melodia. Um toque de harpa inicia a segunda parte da música, onde as cordas e a harpa marcam a harmonia enquanto a flauta faz a melodia. Tremolos de violinos vão levando a música para um momento sombrio, até a flauta tomar as rédeas novamente e conduzir o tema doce e dramático. Clarinete repete a mesma melodia antes tocada nas flautas, interrompida pelo oboé que faz uma breve frase, e para finalizar a flauta entra novamente tocando uma breve linha do tema principal do filme, que será apresentado na próxima faixa. "Créditos" é a faixa dos créditos de abertura, um tema assustador, emocionante, que começa com harpa e um metalofone que, acredito, seja um vibrafone tocado bem seco. O cello inicia a melodia, em seguida entra o oboé tocando um contra-tema. Trompa segue tocando o contra-tema em seguida, acompanhado de violino solo. Agora vem o que poderia chamar de clímax da música, ou refrão. Aqui as cordas levaram a melodia, com ajuda das trompas que tecem harmonia auxiliando em algumas linhas da melodia, os baixos marcam um ritmo bem marcado por stacattos.

"Una Luz Mágica" abre com tremolo de cordas e madeiras, a harpa entra para conduzir a faixa a um novo momento, mais sombrio, construído apenas por acordes menores. Em "El Juego del Tesouro", mais uma vez tremolo de cordas e harpa inciam a faixa. A flauta entra tocando linhas uma variação do tema principal. Todo o naipe de cordas surge dando um ritmo bem marcado, enquanto o fagote acompanha a harmonia, fazendo alguns glissandos, e flauta, clarinete e oboe fazem floreios. Algumas paradas repentinas acontecem, e em seguida recomeça o ritmo marcado. Essa alternância acontece alguma vezes, até que finalmente uma das paradas repentinas marca mesmo o final da faixa. "Un Dia de Fiesta" começa mais atonal. Pelos 1:50 começa um motivo tocado pelos violinos, até que um crescendo de trompas sinaliza uma pausa. O baixo faz uma breve aparição, e logo o cello retoma o motivo que os violinos tocavam antes. Volta o clima mais atonal com breves linhas de harpa, brevemente as cordas relembram o motivo, então o vibrafone entra suave, cordas em tremolo ao fundo vão crescendo gradativamente, até começar um novo motivo de cordas que será a base para a entrada de uma variação do tema principal que vai até o final da faixa. "Atropello" acompanha uma da cenas mais chocantes do filme, onde a misteriosa Benigna é atropelada. Foi um dos maiores sustos que levei vendo o filme. A faixa começa mais com ruídos e efeitos orquestrais do que com música propriamente dita, e assim vai até 1:20 mais ou menos com duas notas de harpa; logo as cordas entram suaves e em seguida uma explosão agressiva causa um grande susto, mesmo quando se ouve a faixa separadamente do filme. Um grande efeito, muito bem enquadrado - aliás, foram muito poucas as vezes em que apenas com a audição de uma trilha pulei da cadeira.

"Tomás" é o nome da próxima faixa, e também de um personagem de papel fundamental no filme. Uma linha de violino abre com uma nota longa a música tocando con sordino (coloca-se um abafador na ponte para mudar a sonoridade), logo viola e mais violinos aparecem para complementar as linhas. Uma frase de cello e baixo é apresentada como resposta. Os violinos e violas voltam com a frase do inicio, agora o cello e o baixo irão acompanhar. Em seguida oboé e clarinete marcam a entrada das madeiras, ao fundo uma harpa marca algumas notas. Em seguida temos um novo momento, um instrumento de madeira, que tenho quase certeza de que seja a clarineta, sustenta uma nota, enquanto coro e cordas tecem uma melodia. Logo cordas, madeiras e até trompas tocam um motivo que é uma certa variação do tema principal. Após, um momento dissonante vai crescendo e encerra a faixa. Em "Dos Kilillos", harpa e flauta são os principais elementos. É uma peça suave, quase que minimalista. A harpa sustenta a harmonia, enquanto a flauta canta uma melodia delicada, da metade para o final outra flauta e o corne inglês se juntam. Cordas dissonantes e ruídos orquestrais entram para quebrar o clima de calmaria. Há um crescendo suave, uma pausa e então mais um crescendo, desta vez mais abrupto, para o final da faixa.

A primeira parte de "Una Regresion" música é composta mais por ruídos e efeitos orquestrados. Enquanto o violino sustenta uma nota bem aguda em sul tasto (arco tocando próximo ao fingerboard), a trompa faz alguns pequenos crescendos, em seguida violas fazem um crescendo em tremolo. O violino segue sul tasto sustentando aquela nota, até que pára e ouvimos alguns acordes e linhas da melodia principal. Dissonâncias começam a se sobrepor, criando uma textura densa e atonal. Essa massa vai crescendo e logo após temos pausa. Em seguida o clarinete toca um motivo de três notas em um registro bem agudo. Entram cordas em tremolo para sustentar o motivo que é novamente apresentado agora no clarinete baixo, que dobra o baixo. A harpa inicia a tocar um motivo de suspense (muito parecido, para não dizer igual, a um dos motivos de harpa da trilha de Rose Red, composta por Gary Chang), cordas em tremolo, e o clarinete toca uma variação do motivo apresentado antes. Aos 2:32 dá para se ouvir um som meio de raspado, isso é uma técnica de cordas chamada col legno. É quando o instrumentista vira o arco e toca com a parte da madeira raspando na corda, gerando esse som meio percussivo. Baixo entra logo em seguida para dar mais peso. Há então o clímax, com tutti. A melodia fica essencialmente nas cordas, e no coro. Após isso a harpa volta com o motivo de suspense, a flauta toca um novo motivo, enquanto as cordas fazem crescendos em tremolo. Em seguida a viola toca algumas linhas de uma variação da melodia principal, evoluindo para um outro pico, onde o tema é apresentado. Há então uma subtração sonora, e os violinos prosseguem até que outras cordas em dissonância entram, enquanto as trompas bem suavemente seguram a harmonia e ouvimos o cello, no fundo, em tremolo bem suave. Há uma estabilização com as notas agudas de cordas, entram madeiras tocando trinados, as cordas imitam em tremolo, vai havendo um acréscimo de massa sonora com baixo e tuba estabelcendo o peso. Trompas e trombones dobram a tuba em oitava, criando uma espécie de harmonia. Há um motivo tocado no fundo pelas cordas, principalmente cello. Vai culminando com um golpe de percussão, címbalos e tímpanos fazendo um rolo em diminuendo, seguido de uma nota de trombone.

"Crea, Entonces Verá" é uma faixa mais silenciosa. Começa com o cello tocando suavemente uma variação do tema principal, o baixo entra no fundo. Violino e viola entram harmonizando, junto a um crescendo de trompa. As cordas seguem com a trompa na harmonia, enquanto o cello com som mais penetrante, toca a melodia; a tuba faz uma breve aparição para adicionar peso. A seguir temos notas graves tocadas por baixo e cello (dobrados em oitava), as cordas ficam em tremolo tecendo um pano de fundo para a trompa, que toca um motivo que já ouvimos na faixa anterior levado no clarinete, e o cello faz a marcação em pizzicato. O clima segue, e os violinos se fazem mais proeminentes mesmo que de forma suave, tocando em tremolos. Aos poucos algumas notas de cello aparecem, abrindo caminho para a harpa, que vem junto com a viola tocar uma variação do tema principal. A trompa entra na harmonia, cordas ao fundo. Se encaminhando para o final algumas madeiras entram, sendo a flauta a mais perceptível, dobrando as cordas. A finalização é doce e suave.

"Sola en la Casa" é uma das minhas favoritas do disco. É agressiva e faz uma espécie de recall do tema principal, com variações na harmonia e uma orquestração que lembra um pouco Danny Elfman, com frases rápidas de oboé, flauta. Temos arpeggios e muitas nuances. O cello inicia com um ostinato bem Elfman. A flauta faz uma breve introdução e as cordas logo entram, o ritmo é bem marcante. Há uma pausa e então reinicia, agora as madeiras fazem subidas e descidas muito velozes, como trinados, mais uma vez reforçando o estilo Elfman. Outra pausa, alguns ruídos no baixo, e então nos violinos. O ritmo retoma, cordas fazem a melodia. Mais uma pausa, agora cello, viola e violinos tecem uma textura mais suave. O cello vai ganhando espaço e descrevendo uma melodia assombrosa. A faixa segue nesse clima até o final, sendo finalizada com um acorde sinistro e dissonante. "La Casita de Tomás" é uma faixa mais atonal e com bastante ruídos. Começa com o que parece ser um misto de trompa e cello em extrema dissonância. Um rolo de tímpanos. Cordas bem atonais se sobrepõem, criando uma textura tensa. Em seguida tremolos de baixo e cello vão aparecendo. É nesse clima denso que a faixa vai seguindo, com alternâncias, tremolos e dissonâncias. Aos 3:54 começa a parte mais musical propriamente da faixa. O que é tocado aqui essencialmente são acordes nas cordas e trompas e coro. Um crescendo leva ao final.

"Reunión e Final" é faixa do momento final, dramático e emocionante, onde todos se reúnem no "além" que (SPOILER a seguir) nada mais é que o Orfanato. As cordas predominam na faixa inteira. A 0:34 temos uma aparição de harpa, que logo se esvai para as cordas assumirem. Cello e viola tocam algumas linhas de melodia. Volta a harpa e agora quem comanda a melodia é a flauta, relembrando a melodia ouvida lá na “Prólogo”. Cordas bem contrapontísticas assumem novamente. O baixo entra em pizzicato, cello faz uma frase ascendente sendo imitado pela flauta. O cello repete a frase agora junto com o corne inglês, a flauta imita mais uma vez. Reparem que aos 2:12 a harpa faz uma frase do motivo que vai ser tocado na seqüência. Agora sim, as cordas e a flauta entram na melodia, tocando por completo o motivo que a harpa insinuou. Outras linhas de cordas complementam a melodia (fazendo o que é conhecido como contraponto). Aos 2:56 esse motivo, que já vinha sendo exposto, é tocado com mais eloqüência, a entrada do coro dá mais preenchimento sonoro. Há uma certa redução da textura orquestral. Aos 3:30, elementos como o coro são retirados, a flauta não está mais dobrando as cordas, e o cello aparentemente está na harmonia junto com as trompas, e dessa forma o final se encaminha.

Quando chegamos a "Créditos Finales", a trilha já está bem cansativa. Aliás esses créditos finais parecem um prolongamento da faixa anterior. Começamos com a harpa tocando um dos motivos do tema principal. Junto com a melodia a harpa toca alguns acordes, no que talvez eu pudesse chamar de uma harmonia em bloco bem contida. Logo a flauta vai entrar assumindo a melodia. Harpa, glockesnpiel e coro fazem o fundo enquanto a flauta canta o tema. Em seguida as cordas entram para deixar a textura mais densa. O coro e o cello complementam a melodia do violino, a viola está bem baixinho atrás, quase inaudível, mas está lá fazendo uma linha diferente do cello e do coro. O coro fica bem suave, junto com cello faz a harmonia para violino e flauta tocarem a melodia, em seguida aos violinos vão subir um pouco de registro, não ficando mais tão agudo. Por volta dos 4:01 não é mais a flauta que faz a dobradura, e sim o clarinete. As trompas entram tocando acordes que encaminham para a finalização com harpa, e uma breve e suave nota de clarinete fecha a última faixa oficial da trilha, já que as próximas duas são bônus e não estão presentes no filme.

"Propuesta Inicial (Maqueta) Bonus Track" é uma outra apresentação do tema do Prólogo, que o compositor mesmo chama de Tema Principal (vide próxima faixa). Piano tecendo a harmonia, violino toca a melodia, cello e viola fazem uma linha de baixo. A faixa não tem grandes orquestrações e nem variações. Assim como ela começa ela termina. E a única coisa que essa faixa mostra é a tendência polifônica do compositor. E "Tema Principal (Coro) Bonus Track" não é nada mais que uma releitura do "Prólogo" para coral. Mais uma vez a única coisa que essa faixa me traduz é o conhecimento do compositor em escrita coral. No mais achei-a um pouco fraca, meio que lembrando música Sacra. Para uma trilha tão vanguardista eu esperaria algo que explorasse o coro de forma mais contemporânea.

O Orfanato é uma trilha interessante de um compositor jovem, que conseguiu o que queria - atrair a atenção de grandes produtoras. O score não reflete uma personalidade, já que se notam muitos clichês de outros compositores. Se bem que esse agregado de características de outros compositores, ao final, acaba formando uma nova personalidade. É uma trilha interessante para se ter na sua coleção, apresentando bastante material temático. Mas não leva quatro estrelas por ser cansativa e não desenvolver mais os temas, com algumas faixas ficando restritas a ruídos.

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