PAN'S LABYRINTH
Música composta por Javier Navarrete, regida por Mario Klemens

Selo: Milan
Catálogo: M2-36190
Lançamento: 2006
Faixas

1. Long, Long Time Ago
2. The Labyrinth
3. Rose, Dragon
4. The Fairy and the Labyrinth
5. Three Trials
6. The Moribund Tree and the Toad
7. Guerrilleros
8. A Book of Blood
9. Mercedes Lullaby
10. The Refuge
11. Not Human
12. The River
13. A Tale
14. Deep Forest
15. Vals of the Mandrake
16. The Funeral
17. Mercedes
18. Pan and the Full Moon
19. Ofelia
20. A Princess
21. Pan's Labyrinth Lullaby


Duração: 72:51
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 

O cineasta mexicano Guillermo del Toro está desenvolvendo uma bem sucedida carreira devotada a filmes de fantasia, horror e ficção científica. Em sua língua natal ele dirigiu cults por excelência como Cronos (1993) e A Espinha do Diabo (2001), enquanto em Hollywood realizou a ficção de terror Mutação e as aventuras baseadas em quadrinhos Blade II e Hellboy. Seu mais recente filme falado em espanhol é este admirável O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno / Pan's Labyrinth, 2006), onde Del Toro expõe seu estilo mais pessoal e único como realizador.

Este rico e multifacetado filme tem como pano de fundo a Guerra Civil Espanhola. A história é vista através dos olhos de Ofélia, uma garotinha sonhadora que, juntamente com a sua mãe, vive numa casa do interior onde está a tropa comandada pelo seu novo padrasto, o Capitão Vidal, que persegue os rebeldes que lutam contra o governo ditatorial do General Franco. A dura realidade que cerca Ofélia a leva a buscar uma maneira de fugir para um mundo melhor, mágico. Ela começa a viver uma fábula só dela quando uma criatura, que se parece com um verdadeiro Fauno, surge para salvá-la. O Fauno poderá tornar seus sonhos realidade, mas para isso ela deverá passar por três provas.

O Labirinto do Fauno marca a segunda colaboração do diretor com o compositor espanhol Javier Navarrete após A Espinha do Diabo, e aqui sua parceria criativa atingiu um novo nível de maturidade (que fique registrado, para sua produção hollywoodiana del Toro utiliza outro colaborador habitual,
Marco Beltrami). A partitura de Navarrete possui ricas orquestrações que capturam perfeitamente o clima fantástico imaginado pelo diretor - com toda a tensão, sensibilidade e imaginação dele decorrentes - e é interpretada pela City of Prague Philharmonic Orchestra regida por Mario Klemens, destacando os solos vocais da cantora Lua.

Como o filme a que serve, o score é uma criativa representação do clássico confronto entre o Bem e o Mal, traçando um paralelo entre as fantasias da garotinha e sua realidade - de um lado a psicologia da infância, a fantasia, o mundo de contos de fadas; do outro, a crueldade dos adultos, a realidade, o destino indesejado. No encarte do CD del Toro descreve como o próprio filme é uma espécie de conto de fadas para adultos, e de como necessitava de uma canção de ninar para conduzir a história do início ao fim. Deste modo, Navarrete construiu sua música em torno de um doce, ainda que melancólico lullaby apresentado já na primeira faixa, "Long, Long Time Ago", que enfatiza a inocência roubada de Ofélia, aqui representada pela suave voz feminina acompanhada por um bucólico piano que dará lugar à irrupção final das cordas. É um tema gentil, memorável, que também traduz a bondade que deriva de outros personagens, como a serva Mercedes ("Mercedes Lullaby") e mesmo o novo mundo a ser revelado para a menina ("The Labyrinth).

Com exceção da canção de ninar, Navarrete evita o uso de leitmotivs claramente associados aos personagens. Em vez disso, a música passa a ser centrada em sentimentos e nos eventos da trama. Metais anunciam os atos cruéis do Capitão Vidal, com a Guerrilha Republicana sendo representada por tons épicos e militaristas ("Guerrilleros") ou peças melódicas, esperançosas ("The River"). O afeto de Mercedes, a governanta do Capitão, por Ofélia, e sua resistência contra o militar, são assimiladas em faixas como a suave "Mercedes" e a já citada "The River". Conforme o álbum progride, a música gradualmente perde seu lado mágico e começa a mostrar uma faceta mais assustadora, levando ao ouvinte os perigos cada vez mais terrificantes que Ofélia passa a enfrentar.

A figura ambígua do Fauno simboliza a conexão de Ofélia entre a realidade e a fantasia, e as dúvidas sobre as suas verdadeiras intenções quanto à menina são capazes de nos trazer tanto um contido otimismo (como os sopros e a introdução em piano de "The Moribund Tree and the Toad") como o horror causado pela ameaça de um monstro de pesadelo ("Not Human"). A emocionante elegia de "The Funeral" e os tons sombrios e por vezes agressivos de "Mercedes" precedem as últimas faixas, que levarão o filme a seu paradoxal e bem engendrado final. "The Princess" é um dos momentos mais tocantes do score, um destaque da trilha seja apenas ouvida no disco ou em conjunto com as seqüências finais do longa. "Pan's Labyrinth Lullaby" acompanha os créditos finais, onde Navarrete nos traz mais uma vez seu tema principal, desta vez com solo de violino, para encerrar esta partitura indispensável.

Considero El Laberinto del Fauno um dos melhores scores do ano passado (de fato é o melhor de 2006, entre os que ouvi), e a primeira indicação ao Oscar® de Javier Navarrete (ainda que não tenha conquistado o prêmio) é um justo e bem merecido reconhecimento a um trabalho soberbo, sob qualquer aspecto.

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