PARIS, TEXAS
Música composta por Ry Cooder
Selo: Warner Bros.
Catálogo: 25270 2
Ano: 1988
Faixas

1. Paris, Texas
2. Brothers
3. Nothing Out There
4. Canción Mixteca (Harry Dean Stanton)
5. No Safety Zone
6. Houston In The Seconds
7. She's Leaving The Bank (Ry Cooder / Jim Dickinson)
8. On The Couch
9. I Knew There People (Harry Dean Stanton / Nastassja Kinski)
10. Dark Was The Night (Blind Willie Johnson)


Duração: 33:36
Cotação:


Comentário de
Rogério Costa 

 

No início dos anos 1980, Ry Cooder já tinha seu nome escrito como um dos mais conceituados bluesmen de sua geração, tendo em seu currículo participações em álbuns de artistas do porte de Rolling Stones, Van Morrison e Captain Beefheart, e tendo lançado álbuns consagrados como “Get Rhythm” e “Borderline”, quando decidiu aventurar-se no mundo das trilhas sonoras. Logo em seu primeiro trabalho, para o faroeste Cavalgada de Proscritos, de Walter Hill, arrebatou o  prêmio de melhor trilha sonora do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles. E assim seguiu, trabalhando com Hill (foram nove filmes juntos) e com diretores renomados internacionalmente como Louis Malle (A Baía do Ódio) e Wim Wenders.

A primeira parceria entre Wenders e Cooder rendeu uma das mais bonitas e aclamadas trilhas da primeira metade da década de 1980, o cult Paris, Texas. O filme de Wenders é um road-movie seco, reflexivo, sem muita ação ou diálogos, que narra a história de um homem sem memória, interpretado brilhantemente por Harry Dean Stanton, em busca de sua família e de seu passado nas estradas do Texas. Assim como o filme, simples na concepção, Cooder juntou-se a somente dois músicos, os também guitarristas David Lindley e Jim Dickinson, e criou com perfeição o clima para as andanças de Travis Henderson.

Às vezes a transposição da grandiosidade de uma trilha da sala escura para um CD se perde, mas isso não acontece nesse caso, até porque não se trata de um blockbuster. Mesmo se você nunca tiver visto o filme, colocar a faixa título para tocar e eu lhe disser “imagine uma pessoa andando sozinha, devagar, numa estrada vazia no meio do deserto”, eu posso apostar que é isso que você vai ver e sentir. Nessa faixa, abertamente inspirada em “Dark Was The Night” de Blind Willie Johnson, destacam-se de cara a slide guitar de Cooder e o violão de cordas de metal  de Lindley, ambos esbanjando feeling sem se preocupar muito em ter um som limpo, o importante é sentir a aridez do deserto.

A melancolia é latente em todas as faixas. Na canção tradicional “Canción Mixteca”, cantada por Harry Dean Stanton, você quase sente o cheiro da tequila em um barzinho vagabundo, praticamente vazio, onde o cantor se apresenta para não mais que meia dúzia de bêbados, absolutamente perfeita. Ou em “I Knew These People”, onde as guitarras espanholas e o delicado piano de Dickinson dão o clima para o diálogo entre Stanton e Nastassja Kinski. Mesmo em “She’s Leaving The Bank”, onde os três músicos começam devagar e aceleram o ritmo, fazendo um blues clássico, a música termina com a slide guitar acabando com quaisquer esperanças.

Entendam-me, não se trata de uma música depressiva, auto-destrutiva, de maneira alguma. A música de Cooder é feita de muitos silêncios, de notas pequenas, mas de virtuosismo, de sentimento, vibração somente a das cordas de metal dos violões. Se você conheceu Cooder como produtor do maravilhoso Buena Vista Social Club ou pelo blues elétrico de A Encruzilhada, apague as luzes, escute Paris, Texas e deixe-se levar.

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