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Vincent Price já era um símbolo do cinema de horror quando
The Abominable Dr. Phibes (O Abominável Dr. Phibes, 1971)
chegou às telas. Promovido como o centésimo filme do ator, Dr. Phibes
foi um dos mais famosos e autênticos casos de filme cult: foi
mais ou menos apreciado e compreendido em sua época e com o passar dos
anos recebeu a devida atenção acumulando a fama merecida. Não era
exatamente “o centésimo” filme de Price, mas sem dúvida foi um de seus
mais famosos, além de ser um daqueles casos raros de filme que não perde
a graça mesmo depois de inúmeras revisões. A bizarrice assumida e a
estilização geral, além do humor que Price imprimia ao personagem,
fizeram do filme e sua seqüência, Dr. Phibes Rises Again (A
Câmara de Horrores do Dr. Phibes, 1972), dois dos maiores momentos
do ator.
O curioso (para não dizer estranhíssimo) tom nostálgico de Dr. Phibes
seria destacado de forma bastante eficiente na trilha sonora de Basil
Kirchin (compositor inglês da vanguarda jazzística), que com seu
poderoso e evocativo tema principal transmite perfeitamente a atmosfera
de deslocamento e reminiscências passadas, característica tão marcante
ao personagem em sua sede de vingança pela morte da esposa e tão
essencial ao filme em sua assumida farsa macabra. A valsa "Dr. Phibes
Theme" é recorrente em toda a trilha e seus arranjos diferenciados
servem aos momentos específicos, como na dança de Phibes com a
assistente Vulnavia ("Dr. Phibes Waltz"), que no filme era executada por
uma banda de bonecos, os inesquecíveis Clockwork Wizards. A
edição da trilha em CD foi um verdadeiro acontecimento, aguardado há
anos por colecionadores, e apesar da irregularidade de som das faixas
(muitas vieram de fontes diferentes: masters originais, fita
magnética e até da própria película) o lançamento vale como a primeira
edição oficial em CD (licenciada pela MGM) e acaba integrando o espírito
bizarro da película, talvez até de forma involuntária em sua
irregularidade: "War March of the Priests", peça para órgão de Felix
Mendelshon, abre a audição, seguida das diversas versões da valsa tema
principal, intercaladas com momentos de suspense, como nos violinos
“desafinados” de "Locusts" ou o baixo acústico dedilhado em "Cage Full
of Bats".
Apesar de menos interessante enquanto filme, a seqüência Dr.
Phibes Rises Again teve melhor rendimento musical na trilha de John
Gale, compositor inglês atuante no mercado de rádio e TV. Também
assumindo o clima bizarro e o humor, Gale optou por uma ironia maior e o
emprego de formas musicais bastante diferentes, indo da tradicional
dramaticidade para grande orquestra e coro, a momentos pop
típicos do período, como em "Vulnavia’s Theme", que de uma
belíssima ária vocal evolui para um tema pop em órgão elétrico.
Outros momentos trazem uma inesperada e riquíssima variedade musical,
incluindo foxtrots românticos ("Dance on the High Seas", "Cabin
Fever") introspecção e mistério ("Elixir of Life"), lirismo para violão
solo ("To Egypt") e a referência étnica ao velho Egito (segundo
Hollywood) na divertida grandiosidade de "Into the Catacombs".
Para completar, a trilha também traz a antológica performance de ninguém
menos do que o próprio Dr. Phibes na canção "Somewhere Over the Rainbow".
De forma poética, o velho doutor encontrou sua tão buscada imortalidade
através da inesquecível performance de Vincent Price. Menção especial
deve ser feita aos encartes que acompanham as edições: fartamente
ilustrados e informativos, com notas do diretor Robert Fuest e dos
compositores, valorizam os dois lançamentos como imprescindíveis (e até
históricos) itens de coleção, destinados à idolatria cult tanto
quanto as películas. |