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Até meados dos anos 1980, o compositor
Alan Silvestri incluía
em seu currículo trabalhos para a TV e filmes esquecíveis
como O Vôo do Navegador
e Delta Force. Sem dúvida seus
scores de maior destaque até então eram fruto de sua parceria com o
diretor Robert Zemeckis (que aliás, dura até hoje): Tudo por uma
Esmerada
(1984), e especialmente De Volta para o Futuro
(1985), produções que tiveram boa recepção de público e crítica e para
os quais Silvestri criou partituras bem distintas, mas de alto padrão.
Contudo, ainda lhe faltava no currículo um filme que, além de chamar a
atenção, lhe permitisse criar uma música estruturalmente mais complexa.
O momento chegou em 1987 com
Predador, filme que, apesar de ter um orçamento apenas mediano,
carregava vários trunfos: uma bem engendrada mistura de aventura,
suspense e ficção científica, um talentoso novo diretor e um astro
literalmente de peso - Arnold Schwarzenegger, já então consagrado como
grande nome de ação. O austríaco
interpreta o major "Dutch" Schaefer, líder de um grupo de comandos de
elite que, em uma missão de resgate nas selvas sul-americanas, vê-se
face a face com um alienígena cujo esporte é caçar seres humanos.
Esperando encontrar guerrilheiros convencionais, os comandos acabam
tendo que enfrentar a astúcia e a camuflagem do Predador, contra quem
seus armamentos e músculos são inúteis. O filme é uma grande perseguição
que culmina no antológico duelo entre o caçador alienígena e o seu
troféu humano – "Dutch".
Para acompanhar esta aventura Silvestri criou uma "musculosa" trilha
sonora baseada em metais, percussão e alguns instrumentos eletrônicos, que foi seu trabalho mais
elaborado até então. Aqui, a fórmula estabelecida para suas trilhas de ação
atinge o ápice, combinando a potência da orquestra
com porções que trazem
uma admirável sutileza no acompanhamento de seqüências de diálogos ou de
suspense. A estupenda sincronia visual da música, estruturada de forma a
ser elemento-chave da narrativa, é um dos melhores exemplos didáticos da
eficiência a que pode chegar um underscore em sua função de
acentuar, fortalecer as imagens que vemos na tela.
Carro-chefe da
partitura, seu "Main Title" representa tanto
"Dutch" como seus colegas de pelotão, e portanto é adequadamente uma
marcha militarista, com uma introdução em staccato de piano que
irá se desenvolver numa interpretação vigorosa de metais, percussão
e cordas. Ela pode ser considerada a base inicial para a parte "forte"
da trilha, que está associada às ações militares e boa parte das cenas
de ação.
"Jungle Trek", que antecipa a linha mais percussiva que seria adotada
por Alan na continuação de 1990, acompanha os soldados pela
selva com uma vivaz percussão latina que traz, em determinado momento, uma
curta aparição da marcha principal. Ainda na parte "muscular" se destacam
os agressivos ostinatos empregados principalmente em cenas de
perseguição, que podemos ouvir em faixas como "Payback Time", "Billy Stands Alone"
e "Predator's Big Finish". Para os momentos decisivos em que "Dutch" e o
Predador encontram-se face a face - "Hand To Hand Combat" -, Silvestri
solta as amarras da orquestra, permitindo que a percussão e os metais, a
toda força, conduzam a ação.
Mas Silvestri reserva na estrutura deste trabalho um nível mais lento (e
sutil, como já dito), caracterizado por harmonias e sonoridades de
suspense e angústia vinculadas às descobertas sinistras feitas pelos
comandos nas selvas, bem como às aparições do camuflado caçador
extraterrestre - representado no "Main Title" pelo marcante staccato.
Apesar de menos impactante, este nível musical proporciona a ambientação
perfeita (sombria, hostil) para a condução da narrativa, atingida
através de várias composições curtas, tremendamente eficientes.
Esta música, mesmo que muitas vezes relegada ao fundo de diálogos ou efeitos
sonoros, faz maravilhas em criar no espectador um senso da ameaça
oculta, do terror latente que poderá desabar a qualquer momento sobre os
militares. O motivo do alienígena é baseado em cordas que nos transmitem
sua ameaça e caráter desconhecido, estando presente em faixas como "Building
a Trap" e "The Waiting". Em uma partitura tão voltada à ação e à
ambientação com suspense, há pouco espaço para o lirismo ou a melodia.
De fato há apenas um motivo que se encaixa nesta categoria, presente em
"He's My Friend". O tema melancólico, quase um hino
patriótico, é desenvolvido por trompete solo
e violinos que evocam os soldados abatidos.
Apesar da qualidade dos trabalhos de Silvestri, muitos deles nunca foram
bem representados em disco, e este foi o caso de Predator.
Por longos 16 anos, ele somente pôde ser encontrado em CDs bootlegs
de qualidade
sonora medíocre, ou em coletâneas destacando apenas seu "Main Title"
regravado por outros. Para Predator 2
(1990) Alan reutilizou parte dos temas mais memoráveis do filme
anterior, e felizmente à época a Varèse Sarabande pôde lançar a trilha
em CD. Mas isso não bastava - faltava o original, o início de tudo. Essa
situação durou até 2003 quando novamente a Varèse, a
mesma que no mesmo ano e em 2002 já resgatara dos arquivos da Fox os scores
essenciais de ação dos anos 1980 Commando
(James Horner) e
Die Hard
(Michael
Kamen), lançou esta edição legítima de Predator,
ainda que em edição limitada. Finalmente, uma das partituras mais
desejadas pelos colecionadores passou a estar disponível quase na íntegra, e
numa qualidade de áudio que permitiu apreciar todas as suas nuances e
méritos.
Predator é uma das mais
estimadas e eficientes trilhas sonoras de ação de todos os tempos e,
indiscutivelmente, a obra-prima de Silvestri para o gênero.
Posteriormente ele entregaria outros trabalhos de linha mais melódica ou
de suspense, mas foi aqui que ele definitivamente se consagrou como um
dos mais talentosos e competentes profissionais do ramo, pavimentando o
caminho para uma carreira muitíssimo bem sucedida que permanece até hoje
- e que, esperamos, ainda produza novas obras deste calibre. |