PREDATOR
Música composta por Alan Silvestri

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: VCL 0803 1022
Lançamento: 2003
Faixas

1. Twentieth Century Fox Fanfare - Alfred Newman (arr. Elliot Goldenthal)
2. Main Title
3. Something Else
4. Cut ´Em Down
5. Payback Time
6. The Truck
7. Jungle Trek
8. The Girl´s Escape
9. Blaine's Death
10. He´s My Friend
11. We´re All Gonna Die
12. Building A Trap
13. The Waiting
14. The Hunt Is On
1. Dillon Is Disarmed
16. Billy Stands Alone
17. Battle Plans
18. Wounded Predator
19. Hand To Hand Combat
20. Predator's Big Finish
21. The Rescue and End Credits

Duração: 73:15
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 

Até meados dos anos 1980, o compositor Alan Silvestri incluía em seu currículo trabalhos para a TV e filmes esquecíveis como O Vôo do Navegador e Delta Force. Sem dúvida seus scores de maior destaque até então eram fruto de sua parceria com o diretor Robert Zemeckis (que aliás, dura até hoje): Tudo por uma Esmerada (1984), e especialmente De Volta para o Futuro (1985), produções que tiveram boa recepção de público e crítica e para os quais Silvestri criou partituras bem distintas, mas de alto padrão. Contudo, ainda lhe faltava no currículo um filme que, além de chamar a atenção, lhe permitisse criar uma música estruturalmente mais complexa.

O momento chegou em 1987 com Predador, filme que, apesar de ter um orçamento apenas mediano, carregava vários trunfos: uma bem engendrada mistura de aventura, suspense e ficção científica, um talentoso novo diretor e um astro literalmente de peso - Arnold Schwarzenegger, já então consagrado como grande nome de ação. O austríaco interpreta o major "Dutch" Schaefer, líder de um grupo de comandos de elite que, em uma missão de resgate nas selvas sul-americanas, vê-se face a face com um alienígena cujo esporte é caçar seres humanos. Esperando encontrar guerrilheiros convencionais, os comandos acabam tendo que enfrentar a astúcia e a camuflagem do Predador, contra quem seus armamentos e músculos são inúteis. O filme é uma grande perseguição que culmina no antológico duelo entre o caçador alienígena e o seu troféu humano – "Dutch".

Para acompanhar esta aventura Silvestri criou uma "musculosa" trilha sonora baseada em metais, percussão e alguns instrumentos eletrônicos, que foi seu trabalho mais elaborado até então. Aqui, a fórmula estabelecida para suas trilhas de ação atinge o ápice, combinando a potência da orquestra com porções que trazem uma admirável sutileza no acompanhamento de seqüências de diálogos ou de suspense. A estupenda sincronia visual da música, estruturada de forma a ser elemento-chave da narrativa, é um dos melhores exemplos didáticos da eficiência a que pode chegar um underscore em sua função de acentuar, fortalecer as imagens que vemos na tela.

Carro-chefe da partitura, seu "Main Title" representa tanto "Dutch" como seus colegas de pelotão, e portanto é adequadamente uma marcha militarista, com uma introdução em staccato de piano que irá se desenvolver numa interpretação vigorosa de metais, percussão e cordas. Ela pode ser considerada a base inicial para a parte "forte" da trilha, que está associada às ações militares e boa parte das cenas de ação. "Jungle Trek", que antecipa a linha mais percussiva que seria adotada por Alan na continuação de 1990, acompanha os soldados pela selva com uma vivaz percussão latina que traz, em determinado momento, uma curta aparição da marcha principal. Ainda na parte "muscular" se destacam os agressivos ostinatos empregados principalmente em cenas de perseguição, que podemos ouvir em faixas como "Payback Time", "Billy Stands Alone" e "Predator's Big Finish". Para os momentos decisivos em que "Dutch" e o Predador encontram-se face a face - "Hand To Hand Combat" -, Silvestri solta as amarras da orquestra, permitindo que a percussão e os metais, a toda força, conduzam a ação.

Mas Silvestri reserva na estrutura deste trabalho um nível mais lento (e sutil, como já dito), caracterizado por harmonias e sonoridades de suspense e angústia vinculadas às descobertas sinistras feitas pelos comandos nas selvas, bem como às aparições do camuflado caçador extraterrestre - representado no "Main Title" pelo marcante staccato. Apesar de menos impactante, este nível musical proporciona a ambientação perfeita (sombria, hostil) para a condução da narrativa, atingida através de várias composições curtas, tremendamente eficientes. Esta música, mesmo que muitas vezes relegada ao fundo de diálogos ou efeitos sonoros, faz maravilhas em criar no espectador um senso da ameaça oculta, do terror latente que poderá desabar a qualquer momento sobre os militares. O motivo do alienígena é baseado em cordas que nos transmitem sua ameaça e caráter desconhecido, estando presente em faixas como "Building a Trap" e "The Waiting". Em uma partitura tão voltada à ação e à ambientação com suspense, há pouco espaço para o lirismo ou a melodia. De fato há apenas um motivo que se encaixa nesta categoria, presente em "He's My Friend". O tema melancólico, quase um hino patriótico, é desenvolvido por trompete solo e violinos que evocam os soldados abatidos.

Apesar da qualidade dos trabalhos de Silvestri, muitos deles nunca foram bem representados em disco, e este foi o caso de
Predator. Por longos 16 anos, ele somente pôde ser encontrado em CDs bootlegs de qualidade sonora medíocre, ou em coletâneas destacando apenas seu "Main Title" regravado por outros. Para Predator 2 (1990) Alan reutilizou parte dos temas mais memoráveis do filme anterior, e felizmente à época a Varèse Sarabande pôde lançar a trilha em CD. Mas isso não bastava - faltava o original, o início de tudo. Essa situação durou até 2003 quando novamente a Varèse, a mesma que no mesmo ano e em 2002 já resgatara dos arquivos da Fox os scores essenciais de ação dos anos 1980 Commando (James Horner) e Die Hard
(Michael Kamen), lançou esta edição legítima de Predator, ainda que em edição limitada. Finalmente, uma das partituras mais desejadas pelos colecionadores passou a estar disponível quase na íntegra, e numa qualidade de áudio que permitiu apreciar todas as suas nuances e méritos.

Predator é uma das mais estimadas e eficientes trilhas sonoras de ação de todos os tempos e, indiscutivelmente, a obra-prima de Silvestri para o gênero. Posteriormente ele entregaria outros trabalhos de linha mais melódica ou de suspense, mas foi aqui que ele definitivamente se consagrou como um dos mais talentosos e competentes profissionais do ramo, pavimentando o caminho para uma carreira muitíssimo bem sucedida que permanece até hoje - e que, esperamos, ainda produza novas obras deste calibre.

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