PRESUMED INNOCENT
Música composta e regida por John Williams

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo:
VSD 5280
Ano: 1990

14 Faixas
Cotação:


Comentário de
Márcio Alvarenga

 

Primeiramente gostaria de dizer que se fui assistir ao filme Presumed Innocent, não foi pelo fato de ter no elenco a sedutora Greta Scacchi, mas pela música ser de autoria de John Williams. Você então perguntaria, mas afinal de contas, você vai ao cinema por causa do filme ou da música? Eu responderia que pelos dois motivos, já que o primeiro pode ser uma promessa, enquanto que, dependendo do compositor, esta promessa pode ser cumprida. Quanto ao cineasta Alan Pakula, confesso que desde Klute, fiquei com a impressão que ele detestava música, se fosse possível faria um filme sem ela. Ah, tem gente que diz que a melhor música é aquela que não é ouvida... pura mentira. Voltemos ao filme, que teve críticas desfavoráveis quanto à conduta de Harrison Ford como o promotor acusado de matar a colega. Acharam que ele ficou pequeno diante do papel, que exigiria, nos bons tempos do “cinema noir”, Humphrey Bogart. Mas a história é boa, baseada no livro de Scott Turow, e como Alan Pakula sempre soube contar uma história na tela, isso poderia ser uma garantia de um bom filme.

O filme é permeado de impacto que acaba sendo conduzido por uma trilha sonora mostrando resultados em todas as passagens do filme. O tema de abertura já nos oferece uma dimensão exata quanto ao teor do suspense reservado. No entanto, John Williams faz questão de suavizar os sentimentos promovendo acordes sensoriais que passam pelos sentimentos do espectador, conectando-o na história que começa a ser contada. Quando dos “flashbacks” para pontuar a história, a música de Williams parece soar como consciência pesada, ou seja, ela não deixa nenhuma pista quanto ao golpe resolutório, o que contribui ainda mais para sustentar o clima de ansiedade e expectativa. Quando da cena da família do promotor incriminado, a música de Williams nos faz entrar nessa intimidade, compartilhando o clima, através de notas estruturadas de tal forma pertinente que mergulhamos dentro da tela. Para as cenas de amor, Williams provoca respostas emocionais específicas já que ela nos toca.

O discurso musical organizado por John Williams em Presumed Innocent nos permite perceber relações rítmicas, melódicas, harmônicas, contrapontísticas, formais e timbrísticas que nos inserem dentro da história de maneira que muitos poderiam até imaginar que não haveria música. Mas na verdade essa impressão da inexistência da música está muito mais intimamente relacionada à capacidade do compositor em penetrar no subconsciente do espectador, o que revela seu poder sensorial. Claro, esta capacidade sensorial dos trabalhos de John Williams, que não se restringem apenas a Presumed Innocent, tem sido como que uma marca registrada, quando existe a necessidade da música não assumir um papel principal, pois isso implicaria em comprometer as cenas. Ocorre que, por outro lado, sem a música de Williams o filme correria o risco de deixar de existir. Presumed Innocent pode não ser uma grande realização cinematográfica, mas a sua música assumiu dimensões que reforçam a potencialidade do tema, principalmente quando o seu autor é alguém como John Williams, que nos inspira respeito e admiração. Afinal de contas, Williams nos lembra Chopin, que fazia nascer melodia sobre melodia quando seus dedos improvisavam no teclado do piano. A música de Williams é sonhadora, carinhosa, triste, saudosa, mas também arrebatadora como em sua trilha de Presumed Innocent.

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