|
Primeiramente gostaria de dizer que se fui assistir ao filme Presumed
Innocent, não foi pelo fato de ter no elenco a sedutora Greta
Scacchi, mas pela música ser de autoria de
John Williams. Você
então perguntaria, mas afinal de contas, você vai ao cinema por causa do
filme ou da música? Eu responderia que pelos dois motivos, já que o
primeiro pode ser uma promessa, enquanto que, dependendo do compositor,
esta promessa pode ser cumprida. Quanto ao cineasta Alan Pakula,
confesso que desde Klute, fiquei com a impressão que ele
detestava música, se fosse possível faria um filme sem ela. Ah, tem
gente que diz que a melhor música é aquela que não é ouvida... pura
mentira. Voltemos ao filme, que teve críticas desfavoráveis quanto à
conduta de Harrison Ford como o promotor acusado de matar a colega.
Acharam que ele ficou pequeno diante do papel, que exigiria, nos bons
tempos do “cinema noir”, Humphrey Bogart. Mas a história é boa, baseada
no livro de Scott Turow, e como Alan Pakula sempre soube contar uma
história na tela, isso poderia ser uma garantia de um bom filme.
O filme é permeado de impacto que acaba sendo conduzido por uma trilha
sonora mostrando resultados em todas as passagens do filme. O tema de
abertura já nos oferece uma dimensão exata quanto ao teor do suspense
reservado. No entanto, John Williams faz questão de suavizar os
sentimentos promovendo acordes sensoriais que passam pelos sentimentos
do espectador, conectando-o na história que começa a ser contada. Quando
dos “flashbacks” para pontuar a história, a música de Williams parece
soar como consciência pesada, ou seja, ela não deixa nenhuma pista
quanto ao golpe resolutório, o que contribui ainda mais para sustentar o
clima de ansiedade e expectativa. Quando da cena da família do promotor
incriminado, a música de Williams nos faz entrar nessa intimidade,
compartilhando o clima, através de notas estruturadas de tal forma
pertinente que mergulhamos dentro da tela. Para as cenas de amor,
Williams provoca respostas emocionais específicas já que ela nos toca.
O discurso musical organizado por John Williams em Presumed Innocent
nos permite perceber relações rítmicas, melódicas, harmônicas,
contrapontísticas, formais e timbrísticas que nos inserem dentro da
história de maneira que muitos poderiam até imaginar que não haveria
música. Mas na verdade essa impressão da inexistência da música está
muito mais intimamente relacionada à capacidade do compositor em
penetrar no subconsciente do espectador, o que revela seu poder
sensorial. Claro, esta capacidade sensorial dos trabalhos de John
Williams, que não se restringem apenas a Presumed Innocent, tem
sido como que uma marca registrada, quando existe a necessidade da
música não assumir um papel principal, pois isso implicaria em
comprometer as cenas. Ocorre que, por outro lado, sem a música de
Williams o filme correria o risco de deixar de existir. Presumed
Innocent pode não ser uma grande realização cinematográfica, mas a
sua música assumiu dimensões que reforçam a potencialidade do tema,
principalmente quando o seu autor é alguém como John Williams, que nos
inspira respeito e admiração. Afinal de contas, Williams nos lembra
Chopin, que fazia nascer melodia sobre melodia quando seus dedos
improvisavam no teclado do piano. A música de Williams é sonhadora,
carinhosa, triste, saudosa, mas também arrebatadora como em sua trilha
de Presumed Innocent. |