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Depois do arrebatador êxito de
sua estréia em
Casino Royale, Daniel Craig regressa
para encarnar pela segunda vez o agente 007 em Quantum Of
Solace. Casino Royale não havia sido apenas um
grande filme de Bond, mas sim um grande filme de um modo
geral. Como poucas vezes acontece, foram reunidos diversos
elementos que funcionaram coordenadamente quase à perfeição:
um roteiro muito bom, atuações convincentes, uma direção
acertada, locações atraentes e uma ótima trilha sonora.
Devido ao acerto anterior, a
expectativa nesta seqüencia era bastante alta, porém tudo o
que Casino Royale tinha de bom se diluiu
rapidamente em Quantum Of Solace. Recordo que
na conferência de imprensa do lançamento de Quantum Of
Solace, o produtor Michael Wilson anunciou que esta
película teria o dobro de ação em relação à sua antecessora.
E foi precisamente assim, mas em detrimento do roteiro, das
atuações e do filme em geral.
Deste contratempo não escapou
nem o experiente compositor
David Arnold,
já que sua quinta partitura consecutiva para Bond parece ser
uma de suas mais fracas, se não a mais fraca. Em cada
partitura que Arnold compôs para Bond, sempre havia um ou
mais pontos destacados, sejam pela composição, os arranjos
ou pela inovação. Mas nesta ocasião, pela primeira vez, me
entediei ouvindo uma trilha sonora de Bond. Não fui capaz de
escutá-la duas vezes seguidas, fiquei esperando que chegasse
o tema que salvaria a partitura, mas isso não aconteceu. Isto
nunca havia me acontecido antes, nem mesmo com
Goldeneye.
O que houve com esta
partitura? Na verdade não tenho muita certeza, os
tradicionais sons de Arnold estão presentes como sempre, as
seqüências de ação estão musicadas em seu estilo
tradicional, mas há algo neste score que não o faz
decolar.
Tenho algumas teorias que
poderiam explicar esta situação:
A falta de um motivo
principal para liderar a partitura.
Parece que, na estrutura
musical de Arnold para Bond, é imprescindível a existência
de um tema principal que guie a partitura. Claros exemplos
disso são: “Surrender” de
Tomorrow Never Dies, “The World Is Not Enough”
e “Only Myself To Blame” de
The World is Not Enough
e “You Know My Name” de
Casino
Royale. Não é por acaso então que, em seus trabalhos
mais fracos, David Arnold não tenha recorrido aos temas
principais (“Die Another Day” e “Another Way To Die”),
entre outras razões, porque não os compôs. Em Quantum Of
Solace Arnold nunca utiliza o tema principal “Another
Way To Die”.
A ausência quase total
do Tema de James Bond.
Em Casino Royale esta
situação tinha uma razão argumental, e ainda assim Arnold compensou esta
ausência muito acertadamente com versões
instrumentais do tema principal “You Know My Name”. Em Quantum Of Solace, além
da quase ausência do Tema de
James Bond, tampouco há um tema identificável que o
substitua. Esta situação é curiosa já
que Arnold sempre declarou que o tema de James Bond
deve ser utilizado nas seqüências típicas de Bond,
e além disso o público espera ouvi-lo nessas ocasiões
(principalmente seqüências de ação), porém em Quantum Of Solace
isto não ocorre. Apenas o escutamos nos créditos finais (não
incluído no álbum) e brevemente, quase oculto em algumas
faixas (“Time To Get Out”, “Pursuit
At Port Au Prince”, “Perla De Las Dunas”, “Bond In Haiti”,
Field Trip, etc.).
Não há tema romântico.
Uma das características de
Arnold é a de compor temas românticos muito bons (como exemplos podemos mencionar os de
The World is Not Enough
e
Casino
Royale), mas nesta película não há romance nem insinuações deste tipo,
e portanto
não houve espaço para este tipo de composições. O mais
próximo de um tema romântico é a faixa “What's Keeping You
Awake”, que contém algumas breves notas do tema de Vesper
de Casino Royale.
Os temas alusivos às
locações tampouco funcionam.
Ainda que nunca tenham sido
muito proeminentes nas partituras, os temas alusivos à
locação têm seu encanto e novidade (quase sempre acompanham
a chegada de Bond a algum país ou cidade). Porém em Quantum Of Solace
são temas sem nenhum
sabor ou atrativo. Atrever-me-ia a dizer que das faixas deste tipo, “Bond In Haiti”
e “Bolivian Taxi Ride” tendem mesmo a ser um tanto
depreciativas para os locais.
Parece ser uma constante crer que a música alusiva à América
Latina tem que basear-se em violões, percussões e sopros. A
exceção é “Talamone”, que tem um
som mais bondiano.
Esgotamento do estilo
Arnold?
Finalmente, e o que talvez seja
o ponto
mais preocupante, pode ser a falta de renovação de Arnold.
É possível que seu estilo já tenha se esgotado e seja necessário
incorporar algumas mudanças, sejam pelo próprio Arnold, ou
por outras alternativas.
Os temas de ação, como
“Time To Get Out”, “The Palio”, “Pursuit At Port Au Prince”,
“Target Terminated” e “Perla De Las Dunas”, respondem ao
típico estilo de musicalização e arranjos de David Arnold,
incluindo novamente a combinação de orquestra e
instrumentos eletrônicos. Mesmo assim eles não soam
atraentes, não há um tema guia que os conduza ou os
distinga. Em outras palavras são mais do mesmo que já
conhecemos anteriormente, mas com melodias menos atrativas.
Neste campo provavelmente o
mais inovador seja o tema “Somebody Wants To Kill You”, onde Arnold incorpora um novo segmento baseado
fortemente em percussão, acompanhado de metais e guitarra. O único tema identificável nesta partitura
é o alusivo ao vilão Dominic Greene, que
podemos escutar nas faixas “Greene & Camille”, “No
Interest In Dominic Greene” e “Night At The Opera”. Esta
última, na minha opinião, é a melhor de toda a trilha sonora.
Quanto à canção
principal “Another Way To Die”, após a seqüência de créditos de abertura, nunca mais voltamos a
ouvi-la. Não acrescenta nada à trilha sonora, além de não
ter nenhuma incidência na
partitura. Inclusive no álbum ela chega no final,
situação nunca antes vista, já que sempre os temas
principais estão no início do disco. Não é um tema que vá
entrar para a história como um dos melhores da série, e provavelmente
não terá nenhuma importância com o passar do tempo.
Também há outros temas no álbum que não têm maior
transcendência, além de não serem muito agradáveis de ouvir (“Camille's Story”,
“Oil Fields”,
“Restrict Bond's Movements”, etc.). Dentro deste grupo há
um par de temas (“Inside Man” e “The Dead Don't Care About
Vengeance”) que incorporam como novidade segmentos dominados
por baixos que quebram de alguma maneira o contexto da faixa completa.
Em resumo, creio que esta
partitura é bastante coerente com a qualidade do filme. Quantum Of Solace
é uma das películas
de Bond mais fracas dos últimos tempos, e sua partitura
provavelmente seja a pior já composta por Arnold.
Anteriormente sempre afirmei
que não havia ninguém melhor preparado que Arnold para compor as partituras de Bond.
Mas depois desta quinta
incursão me pergunto se não chegou a hora de mudar, ou de Arnold descansar um pouco de Bond para poder
revitalizar-se e voltar com novos brios no futuro. |