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O
Americano Tranqüilo é uma produção da Miramax, baseada em um romance
de Graham Greene ambientado no Vietnam por volta de 1952. Basicamente
trata de um triângulo amoroso entre um veterano jornalista inglês
(Michael Caine), um jovem representante do governo norte-americano (Brendan
Fraser) e uma bela vietnamita (Do Thi Hai Yen), tendo como pano de fundo
a guerra que franceses e comunistas travavam pelo controle da região.
Com lançamento previsto originalmente para 2001, o filme foi engavetado
pela produtora após os atentados de 11 de setembro. Mas por insistência
de Michael Caine e para que a produção fosse elegível para as indicações
ao Oscar, ela finalmente teve um lançamento limitado nos EUA em dezembro
de 2002, precedendo à distribuição nacional e internacional. Entre as
indicações buscadas para o filme pela Miramax estavam a de Melhor Trilha
Sonora Original e a de Melhor Canção, o que motivou a distribuição aos
membros da Academia de um CD promo com a música do filme.
Quando escrevi esta resenha, o score de Craig Armstrong ainda não
havia sido lançado pela Varèse Sarabande, mas graças à agência do
compositor, recebi uma cópia do CD promocional para avaliação, que foi a
base para este comentário. Como sabem, o escocês Armstrong consagrou-se
com seu original trabalho em Moulin Rouge, pelo qual ganhou o
Globo de Ouro e os prêmios AFI e BAFTA. Nesta segunda reunião com o
diretor Phillip Noyce (a primeira foi em The Bone Collector) o
compositor entregou um trabalho mais tradicional do que aquele que o
consagrou, mas ainda assim apresentando algumas liberdades formais.
Tendo pesquisado a cultura e a música vietnamitas, Armstrong agregou à
sua partitura orquestrações clássicas, instrumentos de corda e sopro
típicos do Vietnam e vocais femininos, que muitas vezes entoam letras no
idioma vietnamita, a fim de dar o tom místico/ambiental exigido pelo
trabalho. Mas um tanto quanto inesperadamente, até por ser um filme que
se passa há mais de 50 anos, a formação pop do compositor (que já
trabalhou com artistas tão diversos como Madonna, U2, Bjork e Massive
Attack), faz-se mais uma vez presente através da utilização parcimoniosa
de sintetizadores e de percussão eletrônica em determinados momentos.
O que poderia ser uma combinação indigesta revela-se uma obra atraente e
que agrega elementos da música ocidental e oriental, certamente que de
modo não tão marcante como em Green Dragon, dos irmãos Danna,
para realçar a trama e a cultura presentes na produção. O score
inicia com "The Quiet American", onde somos apresentados ao tema
principal do filme, desenvolvido sobre um ciclo de cinco notas
interpretadas inicialmente por piano (instrumento de grande realce na
partitura) e cordas. Logo temos um acompanhamento percussivo/eletrônico
e a primeira aparição do vocal feminino, colaborando para tornar esta
uma composição bela e triste. Na segunda faixa, "Saigon 1952", a cantora
entoa letras em vietnamita sobre um acompanhamento que mescla sons
eletrônicos, percussão e cordas. "Pyle´s Best Friend/Asking for a
Divorce" é outra faixa triste, com a intervenção de vocal feminino,
cordas e piano. Em "Drive Up Holy Mountain" temos em maior destaque os
instrumentos de sopro típicos, juntamente com percussão e novamente voz
feminina.
A orquestra, que até o momento vinha sendo ouvida em intensidade
média/baixa, ganha volume em "Brothers in Arms", que apresenta em seu
final uma interessante e sutil utilização de coral. O tema principal
retorna na metade de "Death in The Square", enquanto que em "Fowlers
Temptation" Armstrong mais uma vez lança mão de instrumentos de sopro e
percussão típicos. "The Quiet American Piano Solo" é, como o nome
indica, uma interpretação do tema principal apenas no piano - no CD não
há qualquer informação a respeito, mas presumo que seja o próprio
Armstrong seu intérprete. "The Ritual of Revenge" retoma a linha e o
clima da faixa inicial, porém com o uso mais agressivo de orquestra e
percussão, tudo entremeado pelo já familiar vocal feminino. Encerrando a
partitura, voltamos a um tom mais intimista e triste com piano e cordas
em "Will you Let my Hair Down?", que encerra-se com mais uma repetição
do tema e da voz feminina.
Para os "End Titles", Armstrong compôs a música e foi o co-autor da
letra de "Nothing in This World (Song for Phoung)" em parceria com a
cantora vietnamita Hong Nhung, que interpreta a canção - também
oferecida à apreciação da Academia. The Quiet American acabou não
conseguindo suas almejadas indicações musicais ao Oscar. O que era
previsível, até porque, em que pesem os critérios (ou falta de) para as
indicações, dificilmente alguém sairá do cinema assobiando ou
cantarolando as composições de Armstrong: temos aqui música
essencialmente complementar às imagens, mas que graças às habilidades do
autor, fica também atraente para a audição em separado. |