THE REAPING
Música composta por John Frizzell

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo:
302 066 802 2
Lançamento: 2007
Faixas

1. The Incident In Chile
2. The Call From Costigan
3. Trip To Haven
4. River Of Blood
5. Katherine Encounters Lauren
6. Plague Of Flies
7. Katherine´s Story
8. Katherine´s Faith
9. Katherine Reaches For Lauren
10. Why Not?
11. Livestock
12. Katherine Believes / Costigan Burns
13. The Sacrifice Room
14. Flowing Blood
15. Locusts
16. Ben Is Dead / The Confrontation
17. The Darkness
18. God Intervenes
19. The Boy
20. The Reaping Title Sequence


Duração: 48:17
Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 

Os produtores do grande cinema comercial de Hollywood possuem algumas fórmulas que lhe são muito caras, e que mesmo quando mostram sinal de esgotamento continuam a ser utilizadas. Uma das suas preferidas é a seguinte: pega-se uma história de terror ou suspense, protagonizada por uma atriz em evidência ou que tenha recentemente ganho um Oscar®, e pronto: temos um filme que, em tese, está apto a levar multidões aos cinemas. Como exemplos recentes de filmes deste tipo podemos citar Reencarnação, com Nicole Kidman, Na Companhia do Medo, com Halle Berry, Plano de Vôo, com Jodie Foster, e A Chave-Mestra, com Kate Hudson.

O mais recente título desta fórmula que tem resultado em produções irregulares é
A Colheita do Mal, baseado em um livro de Stephen King e dirigido por Stephen Hopkins. Nele, Hilary Swank (premiada como Melhor Atriz em 2000 e 2005) interpreta Katherine Winter, uma ex-missionária cristã que perde sua fé e passa a investigar e desmascarar fenômenos religiosos. Ela encontra seu maior desafio numa pequena cidade da Louisiana, que aparentemente está passando por eventos similares às dez pragas bíblicas e a ciência é incapaz de achar uma explicação científica para tais eventos.

O compositor John Frizzell, que já trabalhara em outros filmes da produtora Dark Castle de Joel Silver, Richard Donner e Robert Zemeckis (
Navio Fantasma, 13 Fantasmas), foi escolhido para fornecer mais um score de horror, mas desta vez trazendo como diferencial as influências religiosas oriundas das citações bíblicas contidas na trama. O selo Varèse sarabande, responsável pelo lançamento em CD da trilha original, o define como "um grande trabalho para coral e orquestra, que captura a antiga, épica e bíblica batalha entre o Bem e o Mal". O que, como veremos adiante, é um exagero de marketing.

Frizzell, para este tipo de filme, sempre acaba produzindo trabalhos funcionais que atingem o objetivo que deles se espera - reforçar o suspense e os sustos despejados, da tela, sobre os espectadores. O problema é que, ouvidas isoladamente, estas trilhas sonoras demonstram ser nada mais que uma colagem irregular de estilos, feitas por um compositor que, até o momento, não soube achar uma linguagem ou voz próprias que lhe permita se desvincular, definitivamente, da sombra de seu mentor James Newton Howard.

O tenso tema principal do score é uma melodia baseada em piano, ouvido primeiramente em "The Call From Costigan" e que soa clichê, já que este instrumento já foi usado de modo similar em incontáveis filmes deste tipo. O fato de que este tema apareça em numerosas variações durante este trabalho só reforça a impressão de que, assim como o filme, também sua partitura resultou de uma fórmula desgastada tirada do bolso dos produtores. Fora isto, o que ouvimos nestes quase 50 minutos de música, interpretada por uma orquestra de 80 instrumentos e coral, carece de um desenvolvimento mais elaborado do tipo que mestres como Goldsmith ou Williams obtiveram em obras de referência como
A Profecia, A Fúria e Poltergeist.

Os elementos sobrenaturais e religiosos do filme são traduzidos musicalmente através de recursos que não agregam qualquer contribuição verdadeiramente autoral, ou elementos que nos permitam vislumbrar alguma originalidade por parte de Frizzell. Em determinadas faixas, o coral remete diretamente aos cantos profanos de
A Profecia, mas o que já soou impactante agora se torna meramente burocrático, rotineiro. Adicionalmente, ao lado da orquestra por vezes excessiva (pecado já cometido por Frizzell em sua conturbada Alien: A Ressurreição), a música em momentos pontuais traz sintetizadores e samplers, combinação que culmina na esquizofrênica faixa final "The Reaping Title Sequence", um exagero que acaba não agradando nem pelo lado sinfônico, nem pelo lado eletrônico.

Mas em que pese o escasso conteúdo capaz de tornar
A Colheita do Mal uma audição plenamente satisfatória, há alguns momentos interessantes que, infelizmente, são pouco explorados e que chegam nas cadências firmes de metal e percussão ouvidas em faixas como "Costigan Burns", "Locusts" e "The Darkness". A faixa "The Boy" é um dos maiores destaques desta trilha, iniciando com o que nos parece mais uma revisão da música de A Profecia, mas que no seu seguimento e conclusão apresenta um atraente trabalho para orquestra (cordas, em especial) e coral.

Talvez esteja sendo demasiadamente severo na avaliação deste trabalho de Frizzell, até porque, em que pese sua fraca expressividade estilística, não duvido de sua eficácia para o acompanhamento das imagens. No entanto, é inegável que sua audição isolada não oferece suficientes atrativos para alçá-lo à condição de uma trilha sonora relevante, fazendo deste
The Reaping mais um exemplo da aplicação de uma fórmula que tolhe a criatividade e fracassa em cativar ao ouvinte.

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