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A saga de
filmes baseada nos livros protagonizados pelo Doutor Hannibal Lecter
apresenta (como no caso de Alien, por exemplo) a particularidade
de contar com três diferentes diretores e compositores. Silence of
the Lambs (1991) teve atrás das câmeras Jonathan Demme, e foi
Howard Shore quem se
encarregou da composição musical. Hannibal (2001), em troca,
reuniu os talentos do famoso realizador Ridley Scott e seu colaborador
desde Black Rain (1989), o compositor alemão
Hans Zimmer
(acompanhado como de hábito por seus associados da Media Ventures,
fundamentalmente Klaus Badelt). Finalmente, Red Dragon foi
dirigido por Brett Ratner e a partitura ficou a cargo do compositor Danny
Elfman. Como era de se esperar, cada um destes filmes apresenta um
tratamento e uma aposta em diferentes direções, o que também se
transporta para as trilhas sonoras. Em Silence of the Lambs,
Shore oferece um trabalho centrado no dramático e com alguns toques de
suspense, mas definitivamente é muito sóbrio e discreto, com massas de
acordes carregadas em registro grave enlaçando-se lentamente. É uma
partitura de características muito sérias, que evita cair em qualquer
tipo de excesso, convertendo-se deste modo em uma peça funcional para o
tom seco e realista do filme.
A visão mais teatral, obscura e visualmente estilizada de Ridley Scott
para Hannibal motivou uma composição mais melodramática.
Aproveitando a ambientação européia e algumas particularidades do
personagem (que além de ser um perigoso assassino serial é também um
eminente psiquiatra de elevado nível cultural e gostos refinados), a
música de Zimmer é elegante, sofisticada, por momentos muito romântica e
não casualmente plena de referências à música clássica. E em comparação
com o trabalho de Shore, também muito mais variada ao nível das texturas
instrumentais, incluindo passagens do tipo ambiental e quase
eletroacústico, outras coloridas pela participação de um coral, e
algumas que requerem um maior envolvimento orquestral. Para Red
Dragon (filme que se passa antes dos anteriores) Danny Elfman
elaborou um trabalho que é praticamente uma antítese de seus
predecessores. Colaborador habitual do diretor Tim Burton (Sleepy
Hollow, Batman, Planet of the Apes ), Elfman neste
novo projeto destaca os aspectos mais góticos, obscuros e retorcidos da
história, brindando-nos com uma visão quase expressionista. É como se o
compositor decidisse realizar o reverso do trabalho de Zimmer,
refletindo o lado mais monstruoso e perverso do personagem.
Da mão de Elfman a música alcança então dimensões caóticas, quase
apocalípticas, com força orquestral e critério rítmico inéditos para a
saga, o que se evidencia em detalhes muito significativos: ao passo que
Howard Shore usava em sua partitura um ostinato sinuoso e quase
enigmático, o ostinato utilizado por Elfman no “Main
Title”
(elemento propulsor de boa parte do score ) está orquestrado de
maneira tal que adquire uma dramaticidade e uma violência transbordante.
Por seus tons sombrios acentuados pelo frenesi de cordas e metais, fica
claro que Elfman se encaminha decididamente para o terror no lugar do
suspense, realizando uma abordagem interessante que nos entrega seu
ponto de vista particular. Se é discutível a boa aplicação de seu
trabalho no filme, sempre se agradece quando o compositor procura deixar
sua marca autoral. Cremos não estar errados se dissermos que o próprio
Hannibal talvez gostasse de ouvir esta trilha sonora, acompanhada,
claro, de um bom Chianti. Obviamente, sabemos o que haveria para jantar.
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