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O recente evento
MÚSICA EM CENA - 1º Encontro Internacional de
Música de Cinema
não foi relevante só por trazer ao
público brasileiro
nomes como Ennio
Morricone e Gustavo Santaolalla. Ele foi importante também por colocar
na pauta de discussões do meio artístico e acadêmico a música
composta para a tela grande, o que valoriza o trabalho dos
profissionais que lidam com esta arte ainda pouco reconhecida,
pelo menos em nosso país.
Um desses profissionais é o maestro Remo Usai, que por cinco décadas
dedicou-se ao cinema, criando partituras para mais de uma centena de
filmes e documentários nacionais, e inclusive para algumas produções
internacionais rodadas no Brasil. Mesmo assim o nome do maestro, que
inclusive teve aulas com o lendário
Miklos Rozsa, é
desconhecido fora de círculos restritos. Mas, pior do que a falta de reconhecimento de
público e crítica, é a questão dos direitos autorais, que não
permitiu até hoje que o compositor tivesse um retorno à altura do
valor que sua música agregou aos filmes para os quais contribuiu.
Meu primeiro contato com o maestro Remo ocorreu no coquetel do Theatro
Municipal do Rio, logo após o concerto de Morricone.
Conversamos por um bom tempo, e mantivemos outros contatos nos
painéis que se desenrolaram durante a semana, aos quais o veterano
artista compareceu e onde, inclusive, recebeu merecidas homenagens
dos participantes. Num deles o maestro me presenteou com este CD,
contendo seleções musicais de várias trilhas incidentais que compôs
ao longo de sua carreira. As composições são uma esplêndida amostra da formação clássica
do compositor, e de sua habilidade em combinar elementos
tradicionais da música do cinema com elementos e ritmos típicos do
Brasil.
O CD inicia com "Pão de Açúcar", da
co-produção Brasil/EUA Sugar Loaf, estrelada por Rossano
Brazzi e Ronda Fleming. A música é uma agradável e leve bossa nova
que poderia muito bem ser atribuída a
Henry Mancini
ou Lalo Schifrin,
e nela destaco o excelente arranjo para as cordas. Sem dúvida,
traduz aquele sentimento de "Cidade Maravilhosa" típico dos antigos
filmes. Seguimos com "Assaltantes em Fuga", faixa que integra a
sua partitura mais importante - a do antológico Assalto ao Trem
Pagador, dirigido por Roberto Farias em 1962. A faixa
é um típico underscore que usa percussão de samba, metais,
cordas e piano para criar uma atmosfera de suspense. Temos após a bucólica "Tônia", tema
principal do romântico Férias no Sul, que traz um belo solo de
gaita de boca de Maurício Einhorn, acompanhado por cordas.
Temos mais suspense que ação em "A Fuga", outra composição
incidental criada para o filme Manaus, uma aventura
co-produzida por Brasil e Alemanha. O ritmo percussivo e as cordas
evocam uma locomotiva em "Trem Maria-Fumaça", de Pega
Ladrão. O filme ganhou o prêmio principal do Festival
Cinematográfico do Distrito Federal em 1958, e na ocasião Ely
Azeredo, da Comissão Julgadora, destacou o sólido profissionalismo
da música que Remo Usai compôs. Cello, flauta e violão
conduzem a evocativa "O Compasso do Tempo", do filme Pantanal de
Sangue. O documentário Bola de Meia ganhou um prêmio na
Itália, e para ele Remo criou o delicioso tema de mesmo nome pleno
de brasilidade, em ritmo de samba e com vocais femininos típicos de
bossa nova.
Os sintetizadores, substituindo violinos, são ouvidos pela primeira
vez no disco em "Mistério das Origens", do documentário homônimo
feito para a TV portuguesa. Já "Mandacaru", de Mandacaru Vermelho, é
uma canção com ritmo nordestino composta em parceria com Pedro Bloch
e cantada por Os Cariocas. Remo Usai também compôs para comédias e chanchadas, como Costinha
e King Kong. Para este filme o maestro criou a simpática "A
Dança do Feiticeiro", adicionando à instrumentação tradicional guitarra wah
wah e moog, instrumentos em evidência nos anos 1970. A
melancólica "Um Vira-Lata Chamado Lupércio" é de Os Trapalhões
nas Minas do Rei Salomão, e traz um belo solo de piano que evoca
o lado "chapliniano" desta comédia de Renato Aragão e sua turma.
"Katu", da produção norte-americana How I Lived as Eve,
combina elementos de bossa nova e samba para acompanhar um clube de
nudistas que passa três meses numa ilha deserta do Brasil. Já a
canção "Maria Bonita", do filme Maria Bonita, Rainha do Cangaço,
recebeu letras de Miguel Borges que, juntamente com a orquestração
forte, refletem a determinação da personagem-título. "Boca de Ouro"
é o tema do filme homônimo de Nelson Rodrigues, que destacou a
trilha sonora de Remo usai como uma obra-prima que valorizou
sobremaneira seu filme. A bela "Cachoeiras", do documentário
Cânticos Brasileiros, traz uma emotiva melodia onde mais uma vez
o maestro destaca os violinos, acompanhados por piano, guitarra e
percussão.
"A Batalha Intergaláctica", do desenho As Aventuras da Turma da
Mônica, como não poderia deixar de ser faz referência a
Guerra nas Estrelas, não diretamente à sua trilha sonora mas sim a "Marte,
O Deus da Guerra", da sinfonia "Os Planetas",
de Gustaf Holst, que foi uma das inspirações de
John Williams para
a trilha sonora do filme de George Lucas. Para esta partitura o
maestro utilizou quarenta músicos da Orquestra Sinfônica do Teatro
Municipal, o que garantiu a grandiosidade exigida pela orquestração.
Finalmente "O Cerco", de O Caso Claudia, é uma faixa de ação
no estilo das trilhas de filmes policiais norte-americanos dos anos
1970, com base de bateria, baixo e guitarra, sobre a qual metais e
violinos desenvolvem a melodia.
Para encerrar esta resenha com uma consideração final sobre a música
de Remo Usai, deixo para vocês as palavras que escreveu Pedro Bloch,
nas notas da trilha sonora de Assalto ao Trem Pagador: "Tem
momentos de enorme pureza rítmica, curiosa instrumentação, timbres
inesperados, mais fruto de sua fecunda originalidade que motivados
pelo desejo de espantar. A música não procurou, em momento algum,
estrelar a película. Por outro lado, ouvida isoladamente, constitui
por si só obra que dignifica um artista de categoria que serve à
Sétima Arte com imensa nobreza: Remo Usai". Da minha parte, não
poderia dizer melhor. Maestro Remo, foi uma honra tê-lo conhecido.
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