The Lord of the  Rings: The Return of the King
Música composta e regida por Howard Shore


Selo:
Reprise/WMG
Catálogo:
48521
Ano: 2003

Faixas:
1. A Storm Is Coming 
2. Hope and Memory 
3. Minas Tirith - Ben del Maestro
4. The White Tree 
5. The Steward of Gondor - Billy Boyd 
6. Minas Morgul 
7. The Ride of the Rohirrin 
8. Twilight and Shadow - Renee Fleming 
9. Cirith Ungol 
10. Anduril 
11. Shelob's Lair 
12. Ash and Smoke 
13. The Fields of the Pelennor 
14. Hope Fails 
15. The Black Gate Opens - James Galway 
16. The End of All Things - Renee Fleming 
17. The Return of the King - Viggo Mortensen 
18. The Grey Havens - James Galway 
19. Into the West - Annie Lennox
Duração: 72:35
Cotação:


Comentário de
J
orge Saldanha

 

Com O Retorno do Rei, o diretor neo-zelandês Peter Jackson concluiu com louvor uma missão que por décadas foi julgada impossível - transpor para as telas a trilogia O Senhor dos Anéis, em filmes que estivessem à altura dos livros de Tolkien. Pois bem, Jackson conseguiu, e por conseqüência nos legou uma das maiores trilogias cinematográficas da história. Contudo, não foi apenas Jackson que enfrentou uma demanda de gigantescas proporções. De sua parte, o compositor Howard Shore desafiou a incredulidade de muitos e dedicou-se exclusivamente, por mais de três anos, a compor a música para a trilogia, aí incluídas composições adicionais para as versões estendidas dos filmes. O trabalho de Shore é ouvido praticamente em cada fotograma, de sorte que hoje parece ser impossível dissociar estas produções das melodias criadas pelo compositor. Assim, da mesma forma que Jackson, Shore triunfou, e suas mais de onze horas de trilha sonora original já podem ser incluídas entre as mais importantes obras da música de cinema de todos os tempos. O que torna mais relevante o feito de Shore é que ele, ao contrário de mestres como John Williams ou Jerry Goldsmith, não era identificado com este gênero de filmes e música, o que, em primeiro lugar, gerou a incredulidade acima citada. Mas Shore tinha cartas na manga, e muitas.

Utilizando-se de uma das mais tradicionais técnicas da música para o cinema, a motívica ou temática, para cada filme ele compôs um conjunto distinto de temas, capazes de dar vida própria a cada score; e mais importante, quando posteriormente reutilizados (o que se tornou necessário para dar a unidade temática da trilogia), o foram de forma criativa, sendo desenvolvidos e mesmo engrandecidos, a fim de acompanhar o crescente tom épico da aventura. Atualmente, não raro temos momentos grandiosos nas partituras de filmes, mas estes momentos muitas vezes parecem forçados, como se o compositor, por obrigação contratual, devesse em determinados momentos levar a orquestra aos seus limites. Como resultado, ouvimos muito som, mas de conteúdo mínimo. A música de Shore, ao contrário, é grandiosa tanto nos momentos épicos, onde a orquestra e o coro nos mostram toda a sua força, quanto naqueles onde ela flui lentamente, carregada de emoção. Em O Retorno do Rei, Shore utilizou como tema principal o nobre motivo de Gondor, que ouvimos pela primeira vez, em A Sociedade do Anel, durante a fala de  Boromir no Conselho de Elrond (em uma composição que ficou de fora do CD daquela trilha). Este motivo cumpre, aqui, a mesma tarefa desempenhada pelo tema de Rohan em As Duas Torres, e insere-se perfeitamente no caminho traçado pela trilogia e por Shore - um círculo que se fecha, o fim de todas as coisas. Shore, ao longo da partitura, fornece várias versões deste tema, cada uma delas única, com um inteligente tratamento da harmonia, soando por vezes discreto, às vezes grandioso. Algo no que, diga-se de passagem, Shore revelou-se um mestre - ouçam, por exemplo, as variações de outro dos grandes temas da trilogia, o da Sociedade do Anel, que apesar de não ter uma melodia especialmente marcante, não raro é ouvido de forma emocionante e arrebatadora.

Apesar de menos proeminente em O Retorno do Rei, a música de Rohan faz-se novamente presente e forte em momentos cruciais, como quando Théoden e seus cavaleiros decidem participar da grande batalha que se aproxima. "The Ride of the Rohirrim" inicia com um estupendo diálogo entre os violinos, o violino norueguês e a trompa, cada parte dando a sua versão da abertura do tema. O motivo de Rohan retorna na conclusão da faixa, após um trecho dedicado a Éowyn, em um brilhante chamado dos metais para a guerra. Continuando na área do material temático, Shore abre o CD com "A Storm is Coming", que contém um interessante conjunto de variações de temas presentes nos dois filmes anteriores, que nos reposicionam na história e evocam os Pequenos (mais precisamente, o passado Hobbit de Gollum), a malignidade de Sauron, do Anel do Poder e de Mordor. De certo modo, esta faixa é um indicativo do tratamento que Shore dá à partitura de O Retorno do Rei como um todo - temas que se conectam, às vezes se contrapondo, outras vezes se complementando, de modo análogo às ações que transcorrem na tela (as forças e raças da Terra Média, unidas ou em confronto). "Hope and Memory" combina o suave tema do Condado com as harmonias e tons do tema da Sociedade. Mas talvez a melhor combinação de material temático, apesar de não soar tão óbvia, tenha sido alcançada por Shore em "The Steward of Gondor", no trecho em que Pippin (Billy Boyd) interpreta (e bem) uma triste melodia celta, que incorpora elementos do motivo de Gondor com a estrutura do tema do Condado. É um dos momentos mais fortes e emocionantes do filme, que encontra nesta belíssima melodia um acompanhamento à altura.

Certamente este score não se compõe apenas de combinações de temas já ouvidos, e de fato fica difícil traduzir em palavras o que ouvimos, até porque a cada audição percebemos novos detalhes, novas criações. Por exemplo, em "Shelob's Lair", excelente faixa de ação ouvida no confronto de Frodo com Laracna, reencontrei com satisfação um tanto da visceralidade e a ferocidade orquestrais que Shore havia mostrado em The Fly. A propósito, impossível deixar de destacar a primorosa performance da London Philarmonic Orchestra, London Voices e solistas. Dermot Crehan mais uma vez é o responsável pelos solos de violino norueguês, e o flautista irlandês James Gallway lapida as partes para assobio e flauta. O garoto soprano Ben DelMaestro, que havia feito sua estréia na trilha de As Duas Torres, novamente é ouvido em vários momentos do álbum. Outro destaque é a soprano Rene Fleming, que possui uma voz radiante. A canção de Shore "Into the West" fecha o CD na interpretação de Annie Lennox, que muito além  de ser a usual canção pop de encerramento, baseia-se na instrumentação do motivo do Condado e do novo tema "The Grey Havens", sendo portanto uma legítima extensão do material ouvido no score.

Encerrado o CD, constato espantado como seus 72 minutos passaram rápido, e considerando que Shore compôs mais música para este filme do que para os outros dois, isto significa uma brutal ausência de material. Certo, as melodias e temas principais foram reunidos e editados no álbum, quase todos em forma de suítes, mas mesmo assim, muitos completistas sentir-se-ão frustrados com a ausência, no CD, de 2/3 da partitura. Para estes, um consolo: o lançamento de edições expandidas, talvez mesmo até completas destes scores, incluindo até mesmo o material adicional composto para as versões estendidas dos filmes, vem aí e num futuro não muito distante. Até lá, apreciem as versões atualmente disponíveis desta obra que enriqueceu a arte da música do cinema - e lamentem que, nunca mais, teremos um novo filme (e uma nova partitura) de O Senhor dos Anéis para aguardarmos ansiosamente.

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