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Com O
Retorno do Rei, o diretor neo-zelandês Peter Jackson concluiu com
louvor uma missão que por décadas foi julgada impossível - transpor para
as telas a trilogia O Senhor dos Anéis, em filmes que estivessem
à altura dos livros de Tolkien. Pois bem, Jackson conseguiu, e por
conseqüência nos legou uma das maiores trilogias cinematográficas da
história. Contudo, não foi apenas Jackson que enfrentou uma demanda de
gigantescas proporções. De sua parte, o compositor
Howard Shore desafiou
a incredulidade de muitos e dedicou-se exclusivamente, por mais de três
anos, a compor a música para a trilogia, aí incluídas composições
adicionais para as versões estendidas dos filmes. O trabalho de Shore é
ouvido praticamente em cada fotograma, de sorte que hoje parece ser
impossível dissociar estas produções das melodias criadas pelo
compositor. Assim, da mesma forma que Jackson, Shore triunfou, e suas
mais de onze horas de trilha sonora original já podem ser incluídas
entre as mais importantes obras da música de cinema de todos os tempos.
O que torna mais relevante o feito de Shore é que ele, ao contrário de
mestres como John Williams
ou Jerry Goldsmith,
não era identificado com este gênero de filmes e música, o que, em
primeiro lugar, gerou a incredulidade acima citada. Mas Shore tinha
cartas na manga, e muitas.
Utilizando-se de uma das mais tradicionais técnicas da música para o
cinema, a motívica ou temática, para cada filme ele compôs um conjunto
distinto de temas, capazes de dar vida própria a cada score; e
mais importante, quando posteriormente reutilizados (o que se tornou
necessário para dar a unidade temática da trilogia), o foram de forma
criativa, sendo desenvolvidos e mesmo engrandecidos, a fim de acompanhar
o crescente tom épico da aventura. Atualmente, não raro temos momentos
grandiosos nas partituras de filmes, mas estes momentos muitas vezes
parecem forçados, como se o compositor, por obrigação contratual,
devesse em determinados momentos levar a orquestra aos seus limites.
Como resultado, ouvimos muito som, mas de conteúdo mínimo. A música de
Shore, ao contrário, é grandiosa tanto nos momentos épicos, onde a
orquestra e o coro nos mostram toda a sua força, quanto naqueles onde
ela flui lentamente, carregada de emoção. Em O Retorno do Rei, Shore
utilizou como tema principal o nobre motivo de Gondor, que ouvimos pela
primeira vez, em A Sociedade do Anel, durante a fala de Boromir
no Conselho de Elrond (em uma composição que ficou de fora do CD daquela
trilha). Este motivo cumpre, aqui, a mesma tarefa desempenhada pelo tema
de Rohan em As Duas Torres, e insere-se perfeitamente no caminho
traçado pela trilogia e por Shore - um círculo que se fecha, o fim de
todas as coisas. Shore, ao longo da partitura, fornece várias versões
deste tema, cada uma delas única, com um inteligente tratamento da
harmonia, soando por vezes discreto, às vezes grandioso. Algo no que,
diga-se de passagem, Shore revelou-se um mestre - ouçam, por exemplo, as
variações de outro dos grandes temas da trilogia, o da Sociedade do
Anel, que apesar de não ter uma melodia especialmente marcante, não raro
é ouvido de forma emocionante e arrebatadora.
Apesar de menos proeminente em O Retorno do Rei, a música de
Rohan faz-se novamente presente e forte em momentos cruciais, como
quando Théoden e seus cavaleiros decidem participar da grande batalha
que se aproxima. "The Ride of the Rohirrim" inicia com um estupendo
diálogo entre os violinos, o violino norueguês e a trompa, cada parte
dando a sua versão da abertura do tema. O motivo de Rohan retorna na
conclusão da faixa, após um trecho dedicado a Éowyn, em um brilhante
chamado dos metais para a guerra. Continuando na área do material
temático, Shore abre o CD com "A Storm is Coming", que contém um
interessante conjunto de variações de temas presentes nos dois filmes
anteriores, que nos reposicionam na história e evocam os Pequenos (mais
precisamente, o passado Hobbit de Gollum), a malignidade de Sauron, do
Anel do Poder e de Mordor. De certo modo, esta faixa é um indicativo do
tratamento que Shore dá à partitura de O Retorno do Rei como um
todo - temas que se conectam, às vezes se contrapondo, outras vezes se
complementando, de modo análogo às ações que transcorrem na tela (as
forças e raças da Terra Média, unidas ou em confronto). "Hope and Memory"
combina o suave tema do Condado com as harmonias e tons do tema da
Sociedade. Mas talvez a melhor combinação de material temático, apesar
de não soar tão óbvia, tenha sido alcançada por Shore em "The Steward of
Gondor", no trecho em que Pippin (Billy Boyd) interpreta (e bem) uma
triste melodia celta, que incorpora elementos do motivo de Gondor com a
estrutura do tema do Condado. É um dos momentos mais fortes e
emocionantes do filme, que encontra nesta belíssima melodia um
acompanhamento à altura.
Certamente este score não se compõe apenas de combinações de
temas já ouvidos, e de fato fica difícil traduzir em palavras o que
ouvimos, até porque a cada audição percebemos novos detalhes, novas
criações. Por exemplo, em "Shelob's Lair", excelente faixa de ação
ouvida no confronto de Frodo com Laracna, reencontrei com satisfação um
tanto da visceralidade e a ferocidade orquestrais que Shore havia
mostrado em The Fly. A propósito, impossível deixar de destacar a
primorosa performance da London Philarmonic Orchestra, London Voices e
solistas. Dermot Crehan mais uma vez é o responsável pelos solos de
violino norueguês, e o flautista irlandês James Gallway lapida as partes
para assobio e flauta. O garoto soprano Ben DelMaestro, que havia feito
sua estréia na trilha de As Duas Torres, novamente é ouvido em
vários momentos do álbum. Outro destaque é a soprano Rene Fleming, que
possui uma voz radiante. A canção de Shore "Into the West" fecha o CD na
interpretação de Annie Lennox, que muito além de ser a usual canção
pop de encerramento, baseia-se na instrumentação do motivo do
Condado e do novo tema "The Grey Havens", sendo portanto uma legítima
extensão do material ouvido no score.
Encerrado o CD, constato espantado como seus 72 minutos passaram rápido,
e considerando que Shore compôs mais música para este filme do que para
os outros dois, isto significa uma brutal ausência de material. Certo,
as melodias e temas principais foram reunidos e editados no álbum, quase
todos em forma de suítes, mas mesmo assim, muitos completistas
sentir-se-ão frustrados com a ausência, no CD, de 2/3 da partitura. Para
estes, um consolo: o lançamento de edições expandidas, talvez mesmo até
completas destes scores, incluindo até mesmo o material adicional
composto para as versões estendidas dos filmes, vem aí e num futuro não
muito distante. Até lá, apreciem as versões atualmente disponíveis desta
obra que enriqueceu a arte da música do cinema - e lamentem que, nunca
mais, teremos um novo filme (e uma nova partitura) de O Senhor dos
Anéis para aguardarmos ansiosamente.
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