RUNAWAY - THE DELUXE EDITION
Música composta por Jerry Goldsmith

Selo: Varèse Sarabande CD Club
Catálogo: VCL 11061055
Lançamento: 2006
Faixas

1. Main Title
2. Bug Machine
3. The Floater
4. No Interview
5. Crazed Robot
6. She Went Home
7. ACME Service
8. The Spider
9. Alley Fight
10. Shootin' Up The Ritz
11. The Bullet
12. She Makes Pasta
13. Psychic Reading
14. The Tap
15. Lockons
16. Sushi Switch
17. Spider In The Toilet
18. The Computer
19. The Monitor
20. Construction Site
21. 40th Floor
22. Over The Edge
23. Luther Dies
24. No Luther (The Resolution)

Duração: 45:09
Cotação:


Comentário de
Gustavo Kucharczyk

 
Vejamos um pouco de história. A prolífica e subjugante década de 1980 (a qual muitos lembram com certa melancolia) foi uma das melhores para o cinema hollywoodiano. Já longe dos tempos dourados do cinema e logo após o ponto de inflexão, cinematograficamente falando, que foi Guerra nas Estrelas (1977), esta particular época (que poderíamos ampliar para meados dos anos 1970 até o final dos 1980) enfatizou gêneros de apelo mais popular, em contraponto ao período que antecedeu. Graças a filmes de referência como Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), Halloween - A Noite do Terror (1978), Mad Max (1979), Alien, O Oitavo Passageiro (1979), Caçadores da Arca Perdida (1981), Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982) e um grande etc., que impuseram um estilo narrativo e visual muito parelho, onde as histórias eram apoiadas por efeitos especiais artesanais que não chegavam a ser pretensiosos, foi que surgiu uma safra de filmes que pretendiam fazer sucesso aproveitando-se do êxito de seus predecessores.

Runaway - Fora de Controle (1984) poderia estar na lista de referências, já que foi concebido para ser o grande filme de ficção científica daquele ano e estava destinado a ampliar o horizonte do gênero que estava em evidência naquela época (na qual se destacaram Mad Max, Alien e em particular Blade Runner). O sucesso estava quase assegurado: o ator principal era Tom Selleck, então no apogeu graças à série de TV Magnum, pela qual teve que rejeitar o papel de Indiana Jones e que via a oportunidade de redimir-se com este filme, e como seu antagonista estava o líder da banda de rock Kiss, Gene Simmons. O argumento deixava bem claro a que gênero pertencia a produção: thriller de ficção científica, com um interessante subgênero: a ciência do futuro que se volta contra a humanidade.

A razão de Runaway não ter obtido maior destaque reside, principalmente, em ter sido ofuscado por outro filme de características similares que estreara apenas dois meses antes no mercado norte-americano. Sim, nos referimos efetivamente a O Exterminador do Futuro (1984). O diretor de Runaway foi Michael Crichton, o famoso e bem sucedido escritor de best-sellers, que já havia dirigido filmes como Coma (1978) e O Grande Assalto ao Trem (1979), após sua primeira incursão atrás das câmaras no telefilme Pursuit (1972). Foi precisamente neste último onde ele conheceu e uniu forças com aquele que comporia os scores dos filmes mencionados e de várias adaptações de suas obras literárias, o maestro Jerry Goldsmith.

Reconhece-se no meio das trilhas sonoras que
Runaway é a mais “sinfônica” das três obras totalmente eletrônicas que Goldsmith realizou (as outras duas são Criminal Law e a trilha rejeitada de Missão Alien), inclusive o talentoso compositor mencionou que utilizou apenas sintetizadores não para baratear custos, mas sim para dar ao filme um ambiente mais "tecnológico". Isso era de se esperar, já que, como dito antes, Runaway não nasceu apenas como um filme, mas sim para ser um dos blockbusters do ano. Citando as palavras do maestro: “Runaway foi uma experiência incomum, sua trilha sonora foi concebida e escrita como se fosse orquestral e foi orquestrada eletronicamente, não soando como orquestra e nem como sendo puramente eletrônica”. O selo Varèse Sarabande já havia editado anteriormente esta trilha sonora com 14 faixas, e já era tempo de que uma versão estendida fosse lançada. Ela chegou através desta Deluxe Edition do "Varèse CD Club", com 24 faixas e tiragem limitada de apenas 2000 cópias. Possui uma capa mais clara, moderna e mais “tecno” que a anterior, e um lindo encarte onde são descritos os pormenores do filme e de sua música, tudo acompanhado pelas típicas fotos da película.

Entremos então na análise propriamente dita. Não é estranho que Goldsmith haja optado por utilizar sonoridades artificiais neste trabalho, já que por mais que não sejam demasiado agradáveis, elas não deixam de evocar em nossas mentes um ambiente tecnológico e retrô-futurista (a esta altura, mais retrô que futurista). O "Main Title" antecipa o que será o score: sons eletrônicos bem definidos que lhe dão uma aura onírica e onde começamos a perceber o que o compositor afirmara, já que facilmente podemos imaginar cada tema tocado por uma orquestra sinfônica, no lugar de uma “orquestra simulada”. Já na faixa 2 ("Bug Machine") surgem motivos mais rápidos e os sons eletrônicos característicos que marcaram a mencionada época. O tema 4 ("No Interview") é uma clara "dor de cabeça", por evocar momentos de tensão e suspense, utilizando sons que levam à confusão. Na faixa seguinte (“Crazed Robot”) começamos a ouvir as percussões típicas do maestro, coroadas com os sintetizadores que continuam ao longo do disco.


O ritmo do tema 9 ("Alley Fight") nos contagia com tensão desde sua construção, no melhor estilo Goldsmith, para desembocar nas faixas 10 ("Shootin' Up The Ritz") e 11 ("The Bullet"). A conjunção das três melodias descreve, a partir dos teclados, o tiroteio que desemboca na famosa cena da bala que persegue seu alvo através do calor corporal, tudo marcado pelas famosas percussões e o final lento do tema 11. O momento relax ou romântico do disco chega na faixa 12 ("She Makes Pasta"). O tema emblemático do disco estaria, de certo modo, na faixa 15 ("Lockons"), composição puramente de ação, com sons de percussão típicos de Goldsmith (como os utilizados na saga Rambo) e que, ouvida com concentração, por momentos parece menos sintética que o resto, como se aqui tivesse descarregado todo seu talento para tratar de dissimular, de alguma forma, a estrutura eletrônica da trilha sonora.

A faixa seguinte ("Sushi Switch") repete o estilo dos temas anteriores com menos ação e dose maior de tensão. Seguem-se alguns temas curtos de ação para cenas especificas que desembocam na tensão da faixa 22 ("Over The Edge"), onde predomina o suspense. Finalmente temos a triunfal faixa 23 ("Luther Dies") e a 24 ("No Luther - The Resolution"), onde voltam os sons tranqüilos, etéreos, oníricos e teclados a modo de piano, junto à música "pop oitentista" que brindam à melancolia triunfal da resolução do filme, terminando com um pequeno trecho do tema "Lockons".

A partitura de Runaway é uma curiosidade a mais dentro da vasta filmografia de Jerry Goldsmith, além de ser um ponto de referência no uso de sintetizadores na música da Sétima Arte. Deve se levar em conta como é difícil desfrutar de um score 100% eletrônico, mas os acordes característicos do maestro agregam a este trabalho o carisma e o deleite que outras trilhas sonoras do mesmo tipo não possuem.

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