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Todas os
contos de fadas começam com "Era uma vez...", e Sabrina é
definitivamente um deles (com direito ao nome da protagonista derivar de
uma fada, Sabrina Fair). Esta é a melhor forma de descrever esta
partitura: a música que ouvimos é música de um conto de fadas. Baseado
no filme de Billy Wilder Sabrina (1954), com Humphrey Bogart e
Audrey Hepburn nos principais papeis, Sidney Pollack transporta esta
história de amor para os nossos dias, e para o acompanhar, trouxe o
maestro da magia do cinema
John
Williams. Longe dos
grandes acompanhamentos sinfônicos, Sabrina é o
trabalho de alguém que sabe encontrar sempre o gesto musical certo para
acompanhar uma imagem, juntando a uma sonoridade de câmara, com grande
proeminência para o piano e madeiras, um leve toque de jazz. A
história em si recebe um tema, aquele que a encapsula, uma terna e suave
valsa, que parece uma dança de sonho. Ao ouvirmos esta música
sentimo-nos transportados para um sonho, juntamente com a filha do
motorista, a jovem Sabrina (Julia Ormond), enquanto suavemente são
proferidas as místicas palavras "Era uma vez..." (Frederick Holander, o
compositor da versão de 1954, também usou uma valsa como tema, mas mais
próxima da tradição vienense).
Williams junta outros dois temas para a personagem de Sabrina, "Moonlight"
e "How Can I Remember?", transformados em canções, cheias da mesma
elegância das festas da família Larrabee (Harrison Ford e Greg Kinnear).
As canções tem letras de Alan e Marilyn Bergman, e a primeira, aparece
no CD numa gravação interpretada por Sting, num arranjo de Don Davis. "How
Can I Remember?" é interpretada por Michael Dees. Estas canções são as
que Sabrina ouvia nessas festas, e Williams incluiu no álbum um
medley que escreveu com canções de Johnny Mandel e James Van Heusen,
entre outros, com solos de trombone de Dick Nash, que foi usado no filme
nas várias seqüências de festas. Os Larrabee recebem um tema ouvido na
faixa 8, "Nantucket Visit". Não menos elegante que o restante, antes com
outro tipo de elegância, este tema tem um tom mais cômico que outras
partes. Há um certo tom nostálgico na música, talvez por ser um conto de
fadas, quase como se estivéssemos a olhar para uma época perdida. Mas o
lindíssimo solo para flauta no início de "Sabrina's Return To Paris"
está para além de simples nostalgia e sintetiza sentimentos que em
bruto, tal como nos é mostrado pelas imagens, nunca seriamos capazes de
destilar.
Ainda assim Williams encontra uma possibilidade para escrever um dos
seus sempre excepcionais scherzos em "Linus' New Life", baseado
no material para Sabrina, musicando a corrida de Linus (Ford) para ir ao
encontro da sua apaixonada, e marcando a alteração na sua vida (do algo
mais fanfarrão tema da faixa 8). A nossa história completa o circulo com
o "Theme from Sabrina"
,
e nós sabemos que a filha do motorista encontrou o seu príncipe, porque
esta música é música para uma história de fadas, que no fim acabam
sempre assim. Williams recebeu duas nomeações por Sabrina
(melhor partitura para comédia ou musical e melhor canção, por "Moonlight"),
e a música é de fato merecedora. Poderá não agradar o admirador de
Williams mais casual, habituado aos fogos de artifícios orquestrais de
Star Wars e afins, mas por certo que será do profundo
agrado do admirador de grande música, porque mesmo sendo contida em
termos de instrumentação, Williams assinou aqui mais uma obra prima, não
só da música para cinema, mas de toda a música.
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