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Steven
Spielberg escreve, nas suas breves notas para o álbum de Schindler's
List, que "com dignidade e compaixão, John Williams compôs música
original e extraordinariamente clássica para Schindler's List,
numa coleção de temas e recordações orquestrais que o vão assombrar."
Mais do que isso, John
Williams foi capaz, com uma elegância que lhe é única, escrever um
memorial para tempos indescritíveis e intolerantes, mas que não podemos
esquecer, e que após uma simples audição realmente nos assombram para o
resto da vida, ou melhor ainda, nos atormentam, ao possuir o
insuportável sofrimento de uma sinfonia de Mahler, e ao mesmo tempo a
infinita esperança que só um condenado que não compreende a sua
condenação consegue ter. E para acompanhar a belíssima fotografia a
preto e branco do premiado Janusz Kaminski, Williams escreve para
violino e orquestra de câmara, com ênfase para as madeiras, contribuindo
assim, com a sua sempre sábia orquestração, para o derradeiro sabor
judaico da partitura.
Esta não é música para os cínicos, esta
é música do coração e para o
coração, que só pode ser escrita por alguém
que acredita totalmente no seu significado, e que vai além da
simplicidade de acompanhar as imagens que vemos na tela. Será
que Schindler's List, a obra prima de
Steven Spielberg, precisava de música? Será que a contribuição de John
Williams tem alguma razão de ser? Provavelmente não. Este filme
aproxima-se da perfeição, e o seu registro algo documental provavelmente
podia viver sem a música de John Williams. Porque no final isto é um
concerto para violino, em memória daqueles de pereceram num dos momentos
mais trágicos do século XX, é música clássica, para salas de concerto,
que eventualmente ouvimos num filme. A comprovar isso fica o fato de
Williams ter composto as suas peças antes de o filme estar pronto.
Inicialmente a partitura seria monotemática, com apenas a deslumbrante "Remembrances",
mas após assistir a uma primeira montagem do filme, o compositor
percebeu que precisava de um segundo tema, o hoje tão querido "Theme
from Schindler's List".
Há ainda um terceiro tema, que representa a vida nos campos de
concentração, apresentado tanto com o violino ou o clarinete como
solistas. Algum material adicional surge em "Immolation (With Our Lives
We Give Live)", uma eloqüente peça coral que usa uma breve passagem do
Talmud. Para interpretar este retrato musical do holocausto, Williams
trouxe consigo o grande Itzhak Perlman, acompanhado com grande
sensibilidade por membros da excepcional Boston Symphony Orchestra.
Outras peças, aquelas que não envolvem a participação de Perlman, foram
gravadas em Los Angeles, por uma orquestra de estúdio. Eloqüentemente,
Williams contribui com uma delicada interpretação do tema no piano, na
faixa final do álbum. Há em toda a música uma total entrega de todos os
envolvidos, que resulta num marco na história da música para cinema.
Este sentido trabalho valeu a Williams a distinção pelos seus pares, ao
receber o seu quinto (e até agora último) Oscar (Spielberg recebeu o
seu primeiro). Mas penso que a maior recompensa para estes artistas é
saber que os acontecimentos que levaram ao extermínio de seis milhões de
Judeus não será esquecido... tal como diz o livro sagrado, "Aquele que
salva uma vida, salva um mundo inteiro", Spielberg e Williams deram aqui
a sua contribuição para não se perderem mais vidas ao não permitir que
nos esqueçamos. Mais do que excepcional... único!
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