Le Cinéma de Serge Gainsbourg
Música composta por Serge Gainsbourg


Selo:
Universal
Ano: 2001
03 CDs
Cotação:


Comentário de
Daniel Azevedo

 

Lançada em 2001, esta luxuosa caixa contendo 3 CDs é mais uma pérola concebida por Stephane Lerouge. Desde que assumiu a divisão de trilhas sonoras da Universal France, o especialista tem colocado no mercado CDs com repertório interessante e abrangente, acompanhados de minuciosos textos no encarte. O título dedicado a Gainsbourg não foge à regra. Serge Gainsbourg é identificado pelo grande público como autor de canções de cunho erótico e pouco mais. No entanto, também se arriscou em cerca de 30 incursões no cinema, como compositor e até mesmo diretor, entre 1959 e 1990. Pianista, Gainsbourg geralmente recorria a arranjadores de renome como Michel Colombier, creditados como colaboradores na criação de seus trabalhos. A caixa traz seleções de quase todas as trilhas que ele escreveu, o que permite uma visão por vezes surpreendente da obra desse artista. À medida que descobria novos ritmos e influências, Gainsbourg os inseria em seus álbuns da época e, concomitantemente, em suas trilhas sonoras, fazendo experimentos e aprimorando-se cada vez mais.

Dessa forma, é natural que seu início tenha sido no jazz, como fica nítido nas seleções de "L'Eau à la Bouche" (1959) e "Strip-Tease" (1962). Aos poucos, foi evoluindo para o pop e inserindo o som do baixo elétrico em suas músicas. A trilha de "Les Coeurs Verts" (1966) vem com uma curiosidade: a versão original, com ritmo ligeiramente mais lento, do tema que depois Gainsbourg converteria no mega-hit "Je T'Aime... Moi Non Plus". Sua fase seguinte seria a de filmes e músicas softcore, como "Manon 70" (1968), "Sex-Shop" (1972) e "Projection Privée" (1973), em que o orçamento baixíssimo e a ausência de grandes ideais não mutilavam a inspiração do compositor, sempre capaz de encontrar uma vertente melódica para enriquecer a trilha. No final dos anos 70, Gainsbourg flertou com o reggae, ritmo que permeia suas trilhas para "Goodbye Emmanuelle" (1978) e "Je Vous Ame" (1980). Homem inquieto e difícil de classificar, Gainsbourg recusava rótulos e trocava de estilo como um camaleão.

A análise que essa caixa finalmente permite revela um artista inserido em seu tempo como poucos outros. Algumas trilhas possuem uma qualidade invejável. A valsa de "Le Jardinier d'Argenteuil" (1966), por exemplo, é tocante e poderia ser comparada a trabalhos similares de Delerue e Legrand. A música tensa de "Si J'Etais Un Espion" não fica longe das trilhas de suspense que Morricone compunha na mesma época. Aliás, a influência do maestro italiano também se faz presente em várias faixas da década de 70, período em que Morricone também se deixou seduzir pelo pop e utilizou com frequência ritmos e instrumentos característicos. Outro compositor que pode ter influenciado Gainsbourg foi John Barry, como se percebe em algumas faixas dos anos 60 que têm um gostinho de James Bond. (Aliás, a primeira esposa de Barry, Jane Birkin, foi depois companheira de Gainsbourg durante vários anos). Graças à sua fama de autor de canções, costumavam pedir a Gainsbourg que escrevesse uma para os filmes de que participava, e ele não decepcionava. Surgiram assim "Strip-Tease", cantada por Juliette Gréco, "Elisa", "Manon", "La Chanson de Slogan" (cantadas pelo próprio autor), "L'Amour en Privé" (Françoise Hardy), "Yesterday Yes a Day" (Jane Birkin) e "Dieu Fumeur de Havanes" (Gainsbourg & Catherine Deneuve). Todas são canções superiores e algumas, como "Elisa", figuram hoje em dia entre os clássicos franceses.

Para que não haja confusão, devo dizer que a caixa também traz algum material que é ingênuo demais ou então cujo valor satírico está ultrapassado, como as faixas de "Mister Freedom" (1968) e "Cannabis" (1970). Esses pequenos tropeços possuem valor histórico e não chegam a comprometer o belo panorama que se abre diante do ouvinte. Um presente especial incluído na caixa é o encarte ricamente ilustrado, que começa com um ensaio de Lerouge sobre o compositor e em seguida reproduz entrevistas longas com vários de seus colaboradores, em inglês e francês. Em resumo, uma boa pedida para quem deseja se aventurar pelo mundo estranho mas hipnótico de Serge Gainsbourg, um compositor que soube vencer suas limitações e que deixou sua marca no cinema.

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