SHAFT ANTHOLOGY: HIS BIG SCORE AND MORE!
Música composta por Isaac Hayes, Gordon Parks, Johnny Pate

Selo: Film Score Monthly
Catálogo: FSM Vol. 11 Nº 8
Lançamento: 2008

Disco 1
SHAFT (1971) - Score não lançado composto e interpretado por Isaac Hayes, ritmo por The Bar-Kays e Movement
24 Faixas
Duração: 70:18

Disco 2
SHAFT'S BIG SCORE (1972) - Música e letras compostas por Gordon Parks, regência de Dick Hazard
SHAFT (Série de TV, 1973, 1974) - Música composta e regida por Johnny Pate, “Theme From Shaft” composto por Isaac Hayes
30 Faixas
Duração: 77:50

Disco 3
SHAFT (Série de TV, 1973, 1974) - Música composta e regida por Johnny Pate, “Theme From Shaft” composto por Isaac Hayes
38 Faixas
Duração: 78:49

Duração Total: 226:17

Cotação:


Comentário de
Jorge Saldanha

 
O grande músico e intérprete afro-americano Isaac Hayes, falecido no início do mês de agosto de 2008, deixou uma obra de grande influência na música pop de modo geral, e suas incursões nas trilhas sonoras de filmes Blaxploitation repercutiram enormemente na música de cinema dos anos 1970, com seus ecos sendo ouvidos até hoje. Sua obra mais marcante, indiscutivelmente, foi a trilha de Shaft (1971), o primeiro filme do gênero realizado por um grande estúdio e que valeu a Hayes o Oscar® de Melhor Canção. O álbum de Shaft, originalmente lançado em LP duplo, até hoje é uma das trilhas sonoras mais vendidas em toda a história da indústria fonográfica.

Devido ao grande sucesso do filme original a M.G.M. decidiu criar uma franquia, fazendo do detetive interpretado por Richard Roundtree um equivalente negro de James Bond. Seguiram-se duas seqüências (em 1972 e 1973) e uma série de TV (1973 e 1974), e em nenhuma dessas produções Hayes retornou para compor a trilha sonora. Nos filmes, inclusive, nem mesmo o antológico tema foi utilizado, reaparecendo apenas em forma instrumental na série de TV de curta duração. A pouca repercussão musical dessas produções, comparativamente ao estrondo cinematográfico-musical do filme de 1971, talvez explique serem elas tão mal representadas em CD. A trilha do segundo filme, O Grande Golpe de Shaft (Shaft's Big Score, 1972), até agora nunca tivera uma edição oficial em CD, e a do terceiro, Shaft na África (Shaft in Africa, 1973), fez-se presente apenas na antologia The Best of Shaft. As trilhas da série de TV (1973 e 1974), por sua vez, nunca haviam sido lançadas em qualquer formato.

Alguns dias após a morte de Hayes, houve a divulgação de que a Film Score Monthly (FSM), em parceria com o selo TCM Music, lançaria uma edição limitada com três CDs trazendo as trilhas dos dois primeiros filmes e da série de TV. Para evitar qualquer especulação quanto ao seu oportunismo, os responsáveis apressaram-se em dizer que a produção do álbum havia se iniciado há dois anos, e que o falecimento compositor pouco antes do lançamento fora uma lamentável coincidência. Da nossa parte não temos o que duvidar, já que foi feito um belo trabalho de restauração sonora que, indiscutivelmente, não se faz da noite para o dia. Mas então, vamos ver o que nos traz cada disco de mais este precioso álbum da FSM:

Disco1
Isaac Hayes, quando contratado para compor a trilha sonora de
Shaft, não possuía qualquer experiência cinematográfica, e para desincumbir-se da tarefa, além de empregar os músicos que habitualmente utilizava em seus discos, valeu-se do auxílio de Tom McIntosh, compositor e arranjador que já trabalhara com o diretor Gordon Parks no filme The Learning Tree (1969), além de Johnny Allen e J.J. Johnson como arranjadores. Para quem conhece o histórico álbum de 1971, este disco traz muitas surpresas. Nele, pela primeira vez, podemos ouvir na íntegra a trilha original na forma originalmente gravada para o filme por Hayes nos estúdios da M.G.M. - no álbum original, temos regravações feitas em Memphis especialmente para o disco. Além disso, o álbum original continha principalmente faixas que, no filme, eram diegéticas (source music), omitindo a maior parte do underscore, que utilizava versões instrumentais do antológico tema de abertura. Aliás, o próprio tema cantado por Hayes, na gravação ouvida no filme e aqui, apresenta perceptíveis diferenças de interpretação e até mesmo na letra, que omite o nome “Shaft” na famosa linha “that cat Shaft is a bad mother—”. Ouvir estas gravações originais certamente provocará no apreciador da obra de Hayes sensações conflitantes, por um lado porque, para fins auditivos, muitas das adaptações feitas para o álbum de 1971 são superiores às versões aqui representadas, por apresentarem arranjos e interpretações mais elaborados (“Do Your Thing”, que no álbum comercial é uma fantástica faixa soul/rock de 19 minutos, aqui chama-se “Do Your Thang” e tem pouco mais de três). A própria qualidade sonora do álbum original, gravado no estúdio da Stax em oito pistas, é superior à das gravações feitas na M.G.M. em três pistas, que apresentam em alguns momentos chiados inerentes à fita master. Por outro lado a presença da trilha incidental, que inclui composições até então inéditas em disco (e que, em alguns casos, também não foram utilizadas no filme), por si já justifica este lançamento. O score de Isaac Hayes estabeleceu um padrão a ser seguido nos filmes do gênero black, e policiais de modo geral, com sua percussão ritmada, guitarras wah-wah e orquestrações jazzísticas e soul, que valorizavam as seções de madeiras e metais. Destacam-se, na minha opinião, “Reel 5 Part 1”, movimentada faixa de ação com guitarra wah-wah que serviu de matriz para incontáveis temas similares, e a percussiva “Rescue/Roll Up”, que em seus mais de dez minutos utiliza técnicas de pontuação cinematográfica de suspense e variações do tema principal para acompanhar Shaft no clímax do filme. Como material bônus, completam os 70 minutos deste CD dois singles lançados por Hayes em 1972 - o tema da série de TV “Theme From The Men” e “Type Thang” (usado como música diegética em Shaft’s Big Score!).

Disco 2
O diretor Gordon Parks, que também dirigira o filme de 1971, é um dos veteranos do Blaxploitation e seus talentos não se limitavam ao cinema. Além de ser escritor e um competente fotógrafo, também aventurou-se na música em seu filme de estréia -
The Learning Tree (1969). Para o segundo filme de Shaft, Shaft’s Big Score!, na impossibilidade de contar com Hayes Parks decidiu encarregar-se também da composição não só da trilha incidental, mas também da música e da letra das canções. Novamente com o apoio técnico de Tom McIntosh e agora também com o do regente e orquestrador Dick Hazard, o diretor compôs uma partitura mais sofisticada e orientada para o jazz, destacando solos de exímios instrumentistas como Freddie Hubbard (trompete), Joe Pass (guitarra) e sax alto (Marshal Royal). No lugar do antológico “Theme from Shaft”, Parks introduz o impactante “Blowin' Your Mind (Main Title)”, na voz de O.C. Smith - que também interpreta mais duas canções na trilha. Apesar de não ter sido um hit como o tema de Hayes, não há como considerar este como algo menos que excelente, seja no filme como em disco. É uma composição forte, que mesmo valendo-se de pratos de bateria que remetem ao tema original, reveste-se de personalidade própria - e o melhor é que aqui, neste lançamento da FSM, ele também surge de forma instrumental no underscore e encerrando o trabalho, no “End Title”. Ao contrário da trilha de Shaft, a de Shaft’s Big Score! utilizou em disco as mesmas versões ouvidas no filme, gravadas em três pistas na M.G.M. A diferença em relação ao antigo LP é que, agora, temos a inclusão de toda a trilha incidental - seja em faixas inéditas, seja em versões mais longas das que já haviam sido lançadas - e de versões instrumentais de algumas canções. Como antes, o destaque continua sendo a admirável “Symphony for Shafted Souls”, agora na íntegra e que, em seus 14 minutos, acompanha a climática perseguição de carros, lanchas e helicóptero que é o ponto alto do filme. Alternando momentos agitados com outros de ritmo mais lento, por vezes de puro suspense, a composição é uma inebriante peça de jazz e soul que, na minha opinião, é uma das melhores criações musicais do gênero. Completa os quase 78 minutos deste disco a trilha do episódio The Executioners, da série de TV derivada dos filmes, composta por Johnny Pate.

Disco 3
Johnny Pate pode não ser um nome muito conhecido nem para os apreciadores de trilhas sonoras, mas teve uma relevante participação no movimento Blaxploitation. Bandleader, arranjador e baixista, Pate colaborou em vários álbuns de Curtis Mayfield, sendo dele os arranjos da antológica trilha de
Superfly (1972). Para o terceiro filme de Shaft, Shaft in Africa (1973), ele foi escolhido para ser o responsável pela trilha sonora, que incluiu a marcante canção tema interpretada por The Four Tops, “Are You Man Enough?”. Impulsionado por este tema, composto por Dennis Lambert e Bryan Potter, o álbum da trilha sonora teve boas vendagens e Pate foi levado a criar trilhas para outros filmes black, como Brother on The Run (1973). Infelizmente, por ter seus direitos de reprodução vinculados à gravadora ABC, a trilha sonora de Shaft in Africa não pôde ser incluída nesta antologia, sendo substituída pelos scores que Johnny Pate compôs para a série de TV Shaft. Surpreendentemente, a série também era estrelada pelo mesmo intérprete do cinema, Richard Roundtree, porém na transição da tela grande para a pequena o personagem perdeu sua essência ou, como diria Austin Powers, seu “mojo”. Na TV, o que se viu foi um John Shaft em aventuras menos violentas e que passavam longe do erotismo, fazendo do herói negro mais um detetive pasteurizado da televisão. Apenas sete episódios de 90 minutos foram produzidos para a série, e este lançamento inclui as trilhas de Pate para cinco deles: The Executioners (Disco 2), The Killing, Hit-Run, The Kidnapping e The Cop Killers (Disco 3). Nesses trabalhos o compositor não poupou o tema de Hayes, que faz freqüentes e inventivas aparições instrumentais inseridas em seus scores que mesclam suspense e batidas groovy - numa receita de soul e jazz similar à das partituras dos filmes. Meus preferidos aqui são Hit-Run e The Cop Killers, onde Pate demonstra maior energia musical. No entanto, merece ser citada com louvor sua música para The Killing, que inclui um tema de amor reminiscente ao de Hayes. Contudo, ao contrário dos demais discos este terceiro, contendo apenas músicas de Pate, é o que mais custa a passar. É como se, confinado à burocracia televisiva, o compositor investisse demais no tema de Hayes e menos em seu trabalho próprio, e após quase 80 minutos a música começa a soar repetitiva.

Mas enfim, para qualquer fã de trilhas sonoras policiais dos anos 1970, Blaxploitation ou não, esta coleção é fortemente recomendada. A música traça um retrato preciso de uma fase única na história das trilhas sonoras, a qualidade do som estéreo, dada a idade do material, é muito boa, e a caprichada embalagem inclui um encarte repleto de fotos coloridas e notas de Lukas Kendall, com muitas informações sobre os compositores, os filmes e a série de TV, além de uma pequena descrição de cada faixa. Kendall e sua FSM, mais uma vez, resgataram do esquecimento um importantíssimo capítulo da história da música do cinema. Pena que, inadvertidamente, este lançamento acabou sendo um tributo póstumo à obra maior de Isaac Hayes.

CDs COMENTADOS