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O grande músico e intérprete
afro-americano
Isaac Hayes,
falecido no início do mês de agosto de 2008, deixou uma obra
de grande influência na música pop de modo geral, e
suas incursões nas trilhas sonoras de filmes
Blaxploitation repercutiram enormemente na música de
cinema dos anos 1970, com seus ecos sendo ouvidos até hoje.
Sua obra mais marcante, indiscutivelmente, foi a trilha
de Shaft (1971), o primeiro filme do gênero
realizado por um grande estúdio e que valeu a Hayes o Oscar®
de Melhor Canção. O
álbum
de Shaft, originalmente lançado em LP duplo, até
hoje é uma das trilhas sonoras mais vendidas em toda a
história da indústria fonográfica.
Devido ao grande sucesso do
filme original a M.G.M. decidiu criar uma franquia, fazendo
do detetive interpretado por Richard Roundtree um
equivalente negro de James Bond. Seguiram-se duas seqüências
(em 1972 e 1973) e uma série de TV (1973 e 1974), e em
nenhuma dessas produções Hayes retornou para compor a trilha
sonora. Nos filmes, inclusive, nem mesmo o antológico tema
foi utilizado, reaparecendo apenas em forma instrumental na
série de TV de curta duração. A pouca repercussão musical
dessas produções, comparativamente ao estrondo
cinematográfico-musical do filme de 1971, talvez explique serem elas tão mal representadas em CD. A trilha do segundo
filme, O Grande Golpe
de Shaft (Shaft's
Big Score, 1972), até
agora nunca tivera uma edição oficial em CD, e a do
terceiro, Shaft na
África (Shaft
in Africa, 1973),
fez-se presente apenas na antologia
The Best of Shaft.
As trilhas da série de TV (1973 e 1974), por sua vez, nunca
haviam sido lançadas em qualquer formato.
Alguns dias após a morte de
Hayes, houve a divulgação de que a Film Score Monthly (FSM),
em parceria com o selo TCM Music, lançaria uma edição
limitada com três CDs trazendo as trilhas dos dois primeiros
filmes e da série de TV. Para evitar qualquer especulação
quanto ao seu oportunismo, os responsáveis apressaram-se em
dizer que a produção do álbum havia se iniciado há dois
anos, e que o falecimento compositor pouco antes do
lançamento fora uma lamentável coincidência. Da nossa parte
não temos o que duvidar, já que foi feito um belo trabalho
de restauração sonora que, indiscutivelmente, não se faz da
noite para o dia. Mas então, vamos ver o que nos traz cada
disco de mais este precioso álbum da FSM:
Disco1
Isaac Hayes, quando contratado para compor a trilha sonora
de
Shaft, não possuía
qualquer experiência cinematográfica, e para desincumbir-se
da tarefa, além de empregar os músicos que habitualmente
utilizava em seus discos, valeu-se do auxílio de Tom
McIntosh, compositor e arranjador que já trabalhara com o
diretor Gordon Parks no filme
The Learning Tree
(1969), além de Johnny Allen e J.J. Johnson como
arranjadores. Para quem conhece o histórico álbum de 1971,
este disco traz muitas surpresas. Nele, pela primeira vez,
podemos ouvir na íntegra a trilha original na forma
originalmente gravada para o filme por Hayes nos estúdios da
M.G.M. - no álbum original, temos regravações feitas em
Memphis especialmente para o disco. Além disso, o álbum
original continha principalmente faixas que, no filme, eram
diegéticas (source music), omitindo a maior parte do
underscore, que utilizava versões instrumentais do
antológico tema de abertura. Aliás, o próprio tema cantado
por Hayes, na gravação ouvida no filme e aqui, apresenta
perceptíveis diferenças de interpretação e até mesmo na
letra, que omite o nome “Shaft” na famosa linha “that cat
Shaft is a bad mother—”. Ouvir estas gravações originais
certamente provocará no apreciador da obra de Hayes
sensações conflitantes, por um lado porque, para fins
auditivos, muitas das adaptações feitas para o álbum de 1971
são superiores às versões aqui representadas, por
apresentarem arranjos e interpretações mais elaborados (“Do Your Thing”, que no álbum comercial é uma fantástica faixa
soul/rock de 19 minutos, aqui chama-se “Do Your Thang”
e tem pouco mais de três). A própria
qualidade sonora do álbum original, gravado no estúdio da Stax em oito pistas, é superior à das gravações feitas na
M.G.M. em três pistas, que apresentam em alguns momentos
chiados inerentes à fita master. Por outro lado a
presença da trilha incidental, que inclui composições até
então inéditas em disco (e que, em alguns casos, também não foram
utilizadas no filme), por si já justifica este lançamento. O
score de Isaac Hayes estabeleceu um padrão a ser
seguido nos filmes do gênero black, e policiais de
modo geral, com sua percussão ritmada, guitarras wah-wah
e orquestrações jazzísticas e soul, que
valorizavam as seções de madeiras e metais. Destacam-se,
na minha opinião, “Reel 5 Part 1”, movimentada faixa de ação com
guitarra wah-wah que serviu de matriz para
incontáveis temas similares, e a percussiva “Rescue/Roll Up”, que em seus
mais de dez minutos utiliza técnicas de
pontuação cinematográfica de suspense e variações do tema
principal para acompanhar Shaft no clímax do
filme. Como material bônus, completam os 70 minutos deste CD
dois singles lançados por Hayes em 1972 - o tema da
série de TV “Theme From The Men” e “Type
Thang” (usado como música diegética em
Shaft’s Big Score!).
Disco 2
O diretor Gordon Parks, que também dirigira o filme de 1971, é um
dos veteranos do Blaxploitation e seus talentos não
se limitavam ao cinema. Além de ser escritor e um competente
fotógrafo, também aventurou-se na música em seu filme de
estréia -
The Learning Tree
(1969). Para o segundo filme de Shaft,
Shaft’s
Big Score!, na
impossibilidade de contar com Hayes Parks decidiu
encarregar-se também da composição não só da trilha
incidental, mas também da música e da letra das canções.
Novamente com o apoio técnico de Tom McIntosh e agora também
com o do regente e orquestrador Dick Hazard, o diretor
compôs uma partitura mais sofisticada e orientada para o
jazz, destacando solos de exímios instrumentistas como
Freddie Hubbard (trompete), Joe Pass (guitarra) e sax alto (Marshal
Royal). No lugar do antológico “Theme from Shaft”, Parks
introduz o impactante “Blowin' Your Mind (Main Title)”, na voz de O.C. Smith - que também interpreta mais duas
canções na trilha. Apesar de não ter sido um hit como
o tema
de Hayes, não há como considerar este como algo
menos que excelente, seja no filme como em disco. É uma
composição forte, que mesmo valendo-se de pratos de bateria
que remetem ao tema original, reveste-se de personalidade
própria - e o melhor é que aqui, neste lançamento da FSM,
ele também surge de forma instrumental no underscore
e encerrando o trabalho, no “End Title”. Ao contrário da trilha de
Shaft, a de
Shaft’s
Big Score! utilizou em disco
as mesmas versões ouvidas no filme, gravadas em três pistas
na M.G.M. A diferença em relação ao antigo LP é que, agora, temos a inclusão de
toda a trilha incidental - seja em faixas inéditas, seja em
versões mais longas das que já haviam sido lançadas - e
de versões instrumentais de algumas canções. Como antes, o
destaque continua sendo a admirável “Symphony for Shafted
Souls”, agora na íntegra e que, em seus 14 minutos,
acompanha a climática perseguição de carros, lanchas e
helicóptero que é o ponto alto do filme. Alternando momentos
agitados com outros de ritmo mais lento, por vezes de puro
suspense, a composição é uma inebriante peça de jazz
e soul que, na minha opinião, é uma das melhores criações
musicais do gênero. Completa os quase 78 minutos deste disco
a trilha do episódio The Executioners, da série de TV
derivada dos filmes, composta por Johnny Pate.
Disco 3
Johnny Pate pode não ser um nome muito conhecido nem para os
apreciadores de trilhas sonoras, mas teve uma relevante
participação no movimento Blaxploitation.
Bandleader, arranjador e baixista, Pate colaborou em
vários álbuns de Curtis Mayfield, sendo dele os arranjos da
antológica trilha de
Superfly
(1972). Para o terceiro filme de Shaft,
Shaft in
Africa
(1973), ele foi escolhido para ser o responsável pela trilha
sonora, que incluiu a marcante canção tema interpretada por
The Four Tops, “Are You Man Enough?”. Impulsionado por este
tema, composto por Dennis Lambert e Bryan Potter, o álbum da
trilha sonora teve boas vendagens e Pate foi levado a criar
trilhas para outros filmes black, como
Brother on The Run
(1973). Infelizmente, por ter seus direitos de reprodução
vinculados à gravadora ABC, a trilha sonora de
Shaft in
Africa não pôde ser incluída nesta antologia, sendo
substituída pelos scores que Johnny Pate compôs para
a série de TV Shaft.
Surpreendentemente, a série também era estrelada pelo mesmo
intérprete do cinema, Richard Roundtree, porém na transição
da tela grande para a pequena o personagem perdeu sua
essência ou, como diria Austin Powers, seu “mojo”. Na TV, o
que se viu foi um John Shaft em aventuras menos violentas e
que passavam longe do erotismo, fazendo do herói negro mais
um detetive pasteurizado da televisão. Apenas sete episódios
de 90 minutos foram produzidos para a série, e este
lançamento inclui as trilhas de Pate para cinco deles: The Executioners
(Disco 2), The Killing, Hit-Run, The Kidnapping e
The Cop Killers (Disco 3). Nesses trabalhos o compositor
não poupou o tema de Hayes, que faz freqüentes e inventivas
aparições instrumentais inseridas em seus scores que
mesclam suspense e batidas groovy - numa receita de
soul e jazz similar à das partituras dos
filmes. Meus preferidos aqui são Hit-Run e The Cop
Killers, onde Pate demonstra maior energia musical. No
entanto, merece ser citada com louvor sua música para The
Killing, que inclui um tema de amor reminiscente ao de
Hayes. Contudo, ao contrário dos demais discos este
terceiro, contendo apenas músicas de Pate, é o que mais
custa a passar. É como se, confinado à burocracia
televisiva, o compositor investisse demais no tema de Hayes
e menos em seu trabalho próprio, e após quase 80 minutos a
música começa a soar repetitiva.
Mas enfim, para qualquer fã de
trilhas sonoras policiais dos anos 1970, Blaxploitation
ou não, esta coleção é fortemente recomendada. A música traça um retrato preciso de uma
fase única na história das trilhas sonoras, a qualidade do
som estéreo, dada a idade do material, é muito boa, e a
caprichada embalagem inclui um encarte repleto de fotos
coloridas e notas de Lukas Kendall, com muitas informações
sobre os compositores, os filmes e a série de TV, além de
uma pequena descrição de cada faixa. Kendall e sua FSM, mais
uma vez, resgataram do esquecimento um importantíssimo
capítulo da história da música do cinema. Pena que,
inadvertidamente, este lançamento acabou sendo um tributo
póstumo à obra maior de Isaac Hayes. |