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A nova versão do clássico
blaxploitation Shaft, dirigida por John Singleton, buscou
respeitar a essência do personagem e o próprio estilo de produção do
original. Como resultado, tivemos um filme típico dos anos 70 em pleno
ano 2000, apresentando um protagonista negro cool (Samuel L.
Jackson), racismo, tráfico de drogas, cenas de ação que servem à trama
(e não o contrário, como hoje é comum) e uma ótima trilha sonora. Nas
bilheterias, contudo, o filme não foi o sucesso esperado, o que só
demonstra que o público de hoje (americano, pelo menos) prefere bombas
descerebradas tipo As Panteras a um filme de ação com temática
social. Além de comprometer uma já planejada continuação, a bilheteria
abaixo das expectativas de Shaft fez com que fosse cancelado o
lançamento do score original de
David Arnold.
Como vocês sabem, foi lançado apenas um CD com as canções do filme, das
quais a melhor ainda é a regravação do tema original, pelo próprio
Isaac Hayes. Mas como já havia feito com a partitura de
Godzilla,
Arnold produziu um CD promocional com o melhor da música composta para o
novo Shaft. O compositor, que musicalmente já havia capturado a
essência dos filmes clássicos de James Bond (principalmente em
Tomorrow
Never Dies), conseguiu repetir a proeza com a música dos anos
70. O score de Arnold, um belo tributo à criação de Hayes,
fielmente recria o estilo da música do original, ou dos vários filmes
blaxploitation subseqüentes. É uma combinação da clássica
instrumentação do soul e do funk – baixo, bateria e
guitarra ritmados, com orquestra de cordas, metais e flauta. Já houve
tentativas similares de colocar este tipo de som em filmes recentes (The
Payback,
Out of Sight,
Bowfinger),
mas esta, sem dúvida, foi a mais bem sucedida.
Arnold utiliza muitos dos motivos originais criados por Hayes (detalhe:
o álbum de 1971 contém basicamente source music, sendo que
o verdadeiro underscore permanece inédito), mas também criou novo
material que, em alguns casos, incorpora instrumentação eletrônica, de
modo a colocar o score em um nível mais contemporâneo. É o caso,
por exemplo, da bateria eletrônica na faixa 13, "Shoot-out”. Para
caracterizar a latinidade do personagem Peoples Hernandez, Arnold também
adiciona percussão latina e música cubana. Para os puristas da música de
cinema, há momentos somente com cordas e piano ("No More Running"), mas
definitivamente esta não é uma trilha indicada para quem gosta apenas de
música orquestral. Nas duas últimas faixas, Arnold reservou os momentos
de ação mais funky já escritos ultimamente por um compositor. A
interpretação de metais, violinos e guitarra é fenomenal, e é uma pena
que talvez nunca seja ouvida em um CD oficial. O promo, com seus
40 minutos de duração, é uma boa representação do score – o
problema é encontrá-lo. |