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Falar sobre este
score é uma experiência acima de tudo emocional. Se o filme
Simbad e a Princesa
foi um dos primeiros que me encantaram na infância, tornando-me para
sempre um grande apreciador da fantasia no cinema, sua música foi a que
despertou minha paixão por trilhas sonoras. E que música, senhores.
Bernard Herrmann, seu compositor, é um dos maiores (para mim, o maior)
de Hollywood, e além de celebrizar-se por sua inigualável parceria com o
diretor Alfred Hitchcock, legou uma das mais significativas obras no
gênero fantástico, que somente veio a ser suplantada (pelo menos
numericamente) a partir dos anos 70 por seus colegas
John Williams e
Jerry Goldsmith. Um
dos mais apreciados filmes de fantasia de sua época, The 7th Voyage
of Sinbad (1958) foi a primeira trilha de Bernard Herrmann para as
produções de Charles H. Schneer e
Ray Harryhausen, o mago
dos efeitos stop-motion. Esta parceria se repetiria em The
Three Worlds of Gulliver, Misterious Island e
Jason
and The Argonauts, mas apesar da música de Herrmann continuar
excepcional, ela não atingiu o nível desta partitura.
Herrmann era um privilegiado compositor e mestre orquestrador, cujas
maiores características eram o uso contínuo de uma série de acordes e a
ênfase em categorias específicas de instrumentos. Assim, ao contrário do
que a maioria dos compositores fazem hoje, dificilmente em suas
composições ouvíamos todas as seções da orquestra simultaneamente;
apenas metais aqui, agora somente sopros... Esse conceito atingiu seu
ápice em Psycho
(1960), score totalmente interpretado pelas cordas. Em Simbad,
Herrmann estava no auge de seu gênio orquestral (no mesmo ano compôs
Vertigo, e no
seguinte North
by Northwest, ambos para Hitch) e produziu uma música com
momentos de grande lirismo, outros de verdadeira ferocidade. "Overture/Bagdad"
é onde ouvimos mais do conjunto da
orquestra completa. A faixa apresenta o tema principal, que nos
transmite todo o sentimento das 1.001 Noites com uma pitada de aventura,
seguindo para um acompanhamento das atividades nas ruas da grande
cidade. A seção intermediária do motivo ouvido em "Overture", juntamente
com aquele dedicado à princesa, é o mais lírico do score, e em
ambos predominam os violinos.
"Sultan´s Fest" contém uma versão mais suave de "Overture", e em "Night
Magic/Tiny Princess/Street Music" as cordas nos entregam momentos de
etérea melodia. Mas o que eu realmente mais gosto nesta partitura são os
temas dedicados ao monstros lendários animados por Harryhausen, onde
Herrmann, via de regra, dá provas de sua maestria. A primeira aparição
do Cíclope tem seu impacto em muito amplificado graças à musica
ameaçadora, onde metais e percussão acompanham os passos do monstro.
"The Fight/Battle with The Cyclops" reúne dois momentos distintos do
filme: no primeiro, um longo solo de instrumentos de percussão acompanha
a luta do capitão Simbad (Kerwin Mathews) contra marujos amotinados; no
segundo, durante um confronto do herói com o monstro, ouvimos a mais
potente interpretação do tema do Cíclope, e tenho pena dos músicos, que
devem ter sofrido muito para atingir a potência sonora que Herrmann
exigiu dos metais, sinos e tímpanos...
Para o lendário pássaro gigante Roca Herrmann compôs a dramática "The
Roc/The Nest", e mesmo sem termos assistido ao filme, a música baseada
em metais e sopros é particularmente eficaz em nos transmitir a presença
de uma grande ameaça alada. Porém, a faixa mais genial talvez seja mesmo
"Battle with The Skeleton", uma dança macabra conduzida por xilofones,
castanholas, tuba e trumpetes, feita para o duelo de Simbad contra um
sinistro esqueleto espadachim. É impressionante como, ampliando os
horizontes abertos por
Max Steiner em King Kong, e
Miklós Rozsa em seu
score para O Ladrão de Bagdá, os temas de Herrmann ajudam
a dar vida às criaturas e cenários fantásticos que surgem na tela. Esta
edição da Varèse Sarabande, que reproduz o LP com as gravações originais
estéreo de Herrmann para o filme, encontra-se há anos fora de catálogo.
Em suas Concert
Suites, Herrmann regravou quatro faixas deste inesquecível score,
também disponíveis no álbum The Fantasy Film World of Bernard Hermann,
da gravadora London, mas que apresentam propositais diferenças de tempo.
Em 1998 a própria Varèse lançou uma regravação digital expandida com
John Debney regendo a Royal Scotish National Orchestra, que na
ausência da edição original é altamente recomendável, tanto pela
qualidade superior de áudio como pelas composições até então ouvidas
apenas no filme. No entanto, apesar de Debney ter se utilizado das
partituras originais de Herrmann, a nova gravação igualmente apresenta
perceptíveis diferenças no tempo e na interpretação. Isso explica-se, já
que Herrmann, como todo gênio, reinventava o seu trabalho a todo
momento. Ou seja, ele escreveu a música de um modo, e no momento da
gravação a interpretou de outro, um pouco diferente. Deste modo, as
gravações originais de The 7th Voyage of Sinbad possuem um vigor
e força que nem o próprio Herrmann repetiu posteriormente, e que Debney,
apesar de seu esforço, não conseguiu reproduzir. |