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Após
Simbad e a Princesa
(1958), o herói das Mil e Uma Noites não voltaria ao cinema até
1973, ano em que Gordon Hessler realizou A Nova Viagem de Simbad,
filme que também contaria com os efeitos especiais de
Ray Harryhausen. Como à
época o grande Bernard Herrmann,
autor da partitura do filme anterior, já estava adoentado e menos
disponível, para compor a trilha sonora foi escolhido simplesmente o
próprio autor da trilha do clássico do gênero O Ladrão de Bagdá
(1940), o lendário Miklos Rozsa.
Apesar de hoje ser mais lembrado por seus massivos scores para
produções épicas como
Quo Vadis,
Ivanhoé,
Ben-Hur, El Cid e O Rei dos Reis, foi a partitura exótica e sensual de O Ladrão de
Bagdá que consagrou Rozsa como um compositor dinâmico e criativo,
introduzindo-o no cinema americano, onde ele trabalharia
proficuamente por mais de 40 anos. Assim, A Nova Viagem de Simbad
permitiu que Rozsa retornasse à música que impulsionou sua carreira, e
isso ele fez de forma criativa e vigorosa, dando origem a uma partitura
que não fica atrás de nenhum dos clássicos scores de
capa-e-espada de Hollywood.
Aliás, não seria exagero dizer que a partitura e os efeitos stop-motion
de Harryhausen são os maiores trunfos desta produção modesta. Rozsa possuía um
estilo muito distinto do de Herrmann, e portanto, apesar de a partitura
ser um clássico exemplo da grande trilha orquestral do cinema, ela
possui grandes diferenças em relação à de Simbad e a Princesa. De
fato, ela difere até da própria O Ladrão de Bagdá, que era
extremamente melódica. Tendo por exceção os temas para Simbad (John Phillip
Law) e Margiana (Caroline Munro), além de um que outro momento lírico, a força do score está
mesmo no
material para as cenas de ação. "The Prelude" introduz o tema do herói,
trazendo ao ouvinte um mundo de magia, romance e aventura. A emotiva "Sinbad's
Decision", que encerra o álbum, traz alguns destes momentos melodiosos,
além de reprisar pela última vez o tema do herói no momento final da
aventura.
As criaturas
exóticas ou monstruosas do filme também são representadas musicalmente,
porém mais em variações de arranjo e orquestração do que em motivos distintos;
por exemplo, em "Arrival of the Homunculus", um sintetizador fantasmagórico,
interpretando o tema do mago vilão, assinala a chegada de uma pequena e bizarra criatura alada,
o homúnculo; os efeitos em staccato e o sintetizador marcam o
ataque da criatura a Simbad em "Escape from the Temple"; e a estátua da
deusa Kali recebe uma vibrante descrição musical em "Sinbad Fights Kali",
que acompanha sua
luta de espadas com Simbad.
Já "The Centaur / Death of Centaur" traz as sonoridades que identificam os
principais monstros do filme: uma seqüência de quatro notas
interpretadas pela tuba marca a aparição do Centauro, enquanto seu
oponente, o Grifo, é identificado pelos metais. O combate mortal de
ambos é acompanhado por metais em fúria, cordas em tremollo e
percussão.
Já o vilão do filme, o mago Koura (Tom Baker), recebe um tema marcante
que é mais desenvolvido em "Koura’s Pursuit", e ouvido com destaque, pela
última vez, no seu duelo de espadas com Simbad em "Koura’s End". A
partitura também traz as marcas estilísticas do maestro, como sua típica
“música de batalha” ouvida em "The Storm", e a "música de outro mundo"
que pontua visões ou alucinações. Nos
clássicos de 1945 Quando Fala o Coração e Farrapo Humano
Rozsa utilizou em cenas do gênero o theremim, um precursor do
sintetizador que, em A Nova Viagem de Simbad, é utilizado de modo
similar.
Enfim, desde os primeiros até seus últimos acordes, esta partitura é uma
maravilhosa jornada que leva o ouvinte não apenas para dentro das
mágicas aventuras do mítico capitão, mas também de volta a um clássico
gênero musical que ironicamente, à época em que foi composta, havia sido
posta de lado em favor de linguagens musical-cinematográficas mais
modernas e pop. Infelizmente esta obra recebeu apenas uma rara
edição em CD no final dos anos 1990, através do selo belga Prometheus,
trazendo as mesmas gravações do LP original, com pouco brilho sonoro.
Uma nova edição remasterizada, ou mesmo uma regravação desta obra, seria
mais do que bem-vinda. Uma amostra do que ela poderia ser está na
compilação de dois CDs "Swashbuclers: Swordsmen of the Siver Screen", na
qual The Golden Voyage of Sinbad se faz presente numa suíte de
quase cinco minutos, com uma ótima interpretação da City of Prague
Philarmonic, regida por Paul Bateman, registrada em excelente
gravação digital. |