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Para esta adaptação da
versão romanceada de acontecimentos verídicos, Barry Levinson realizou
um filme razoável, cujo maior mérito está nas sempre brilhantes
interpretações de Robert DeNiro e Dustin Hoffmann (aqui na pele de um
advogado consumido pelo álcool), e uma surpreendente atuação de Brad
Pitt, aqui num papel muito mais maduro. Diria mesmo que o forte do filme
está no empenho que todos os atores demonstram para fazer disto algo que
valha a pena ver. A segunda razão que torna interessante o filme é a
partitura original de John
Williams. Este trabalho do compositor veterano contêm uma das suas
mais assombrosas melodias, pelo menos dos últimos anos... Há nela uma
certa qualidade fantasmagórica, acentuada pelo jogo entre os timbres dos
dois instrumentos que a entoam, a trompa e a flauta. O primeiro surge
com um tom mais ameaçador e assustador, enquanto que o segundo sugere a
inocência na infância dos protagonistas. Esta tema é usado no decorrer
da partitura, mas é de salientar as suas aparições em "Sleepers
at Wilkinson"
,
"Hell's Kitchen" e "Reunion and Finale".
A primeira destas (e a primeira faixa do álbum) começa com a
apresentação do tema na trompa e depois na flauta. Após esta
apresentação a música torna-se movimentada e agressiva, com a forte
presença de sintetizadores e baixo elétrico. Este é também parte do som
que faz parte de Sleepers, algo mais urbano, escrito sobre
camadas de som, apresentando a orquestra em registros quase
minimalistas, por baixo das texturas sintetizadas e elétricas. "Hell's
Kitchen" começa neste tipo de registro, mas desta feita muito mais
atmosférico. Após o primeiro minuto, a flauta vai suavemente surgindo,
entoando o tema principal, levando-o para uma apresentação orquestral. A
faixa de encerramento do CD, "Reunion and Finale" é bastante semelhante
à segunda parte de "Hell's Kitchen" e uma forma satisfatória e positiva
de terminar a audição. Há também de realçar a faixa 3, "The Football
Game", cuja segunda parte tem uma excelente interligação entre as
texturas eletrônicas e orquestrais, com uma agressiva interpretação dos
metais.
O grande problema, na minha opinião, com a partitura para Sleepers,
prende-se ao fato de a maioria das faixas serem demasiado atmosféricas e
impessoais... estas resultam maravilhosamente bem no filme, nele
tornando este trabalho extremamente eficiente. Mas como experiência
extra-filmica, torna-se um pouco mais penosa. Há algumas passagens
interessantes no decorrer das faixas, como em "Saying the Rosary", ao
sobrepor sobre um coro a orar suavemente, um motivo que cria um
sentimento de urgência. "Time in Solitary" é um longo e penoso adágio,
que por vezes parece querer seguir outro caminho, mas que nunca se chega
a realizar totalmente. "Revenge" é bastante interessante na forma como
Williams consegue acelerar o tempo, criando novamente um sentimento de
urgência, mas em vez de ter uma conclusão à altura, a música desvanece
para o silêncio. "Learning the Hard Way" tem nos seus mais de cinco
minutos de música atmosférica um motivo para percussão que surge sobre
as texturas atmosféricas realizadas em sintetizadores. "Father Bobby's
Decision" é interessante, na forma como trata um motivo secundário lado
a lado com o tema principal.
Mas em geral as faixas são demasiado atmosféricas para suportar audições
repetidas, e uma pessoa cansa-se de esperar por uma passagem. No filme a
música cumpre a sua função de forma magistral, confirmando mais uma vez
Williams como um dos grandes na sua arte, mas no CD torna-se cansativa e
aborrecida, apesar do fantástico tema principal e das excelentes
variações apresentadas em "Hell's Kitchen" e "Reunion and Finale" -
autenticas peças de concerto! Será essencial para os seguidores mais
radicais de Williams, para os outros será recomendável esperar e tentar
encontrar uma das duas faixas já mencionadas numa compilação. |