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Há um tempo atrás, eu ouvi rumores que um filme do
Speed Racer
estava sendo feito. Não dei muita bola pois a série japonesa
em desenho animado, dos anos 1960, nunca me atraiu muito.
Quando vi o trailer no cinema, percebi que não seria um
filme comum. E de fato não foi. Fiquei impressionado com a
forma como o filme foi exposto. Os irmãos Wachowski (da
trilogia
Matrix)
fugiram daquela idéia tradicional do
blockbuster,
buscando um estilo que tange o que Robert Rodriguez fez em
Spy Kids,
utilizando uma linguagem “cartunesca”, tendendo ao absurdo,
surreal, e ao mesmo tempo com muitos momentos cômicos. Essa
estética já é usada há bastante tempo em filmes e seriados
orientais, e também na maioria dos animes. Outra coisa que
chama atenção no filme é a palheta de cores, que lembra um
pouco os filmes de animação da
Barbie, com cores
ousadas, extremamente vivas e claras. Logo que começa o
filme, isso causa um certo impacto visual, pois foge muito
do comum. Passados alguns minutos você se acostuma com as
extravagâncias e percebe que o filme pode ser genial se for
visto com um olhar contemporâneo. Já para os mais
conservadores, é bem difícil de digerir.
Muito antes do lançamento do filme, vi que Michael Giacchino
seria o responsável pela partitura de
Speed Racer, e
fiquei com uma grande expectativa. Trilhas como
Os Incríveis,
Medal of Honor
(videogame) e, mais recentemente, os créditos finais de
Cloverfiled,
refletem de forma clara o talento e a versatilidade de
Giacchino. Quando saiu a trilha, percebi que eu havia
superestimado o compositor, e que a trilha apresenta nada
mais que alguns clichês musicais, além de um novo arranjo
para o tema original de
Speed Racer, o
mesmo que tocava na abertura da série original e que é o
ponto mais alto desta trilha.
É
bem verdade que nos últimos anos Giacchino tem sido bastante
requisitado para inúmeros projetos, incluindo séries de TV
como Lost,
filmes diversos (neles incluídos os do diretor/produtor J.J.
Abrams, do qual é colaborador habitual) e também alguns
videogames como
Medal of Honor e
Call of Duty.
Logo, é provável que esteja sofrendo do mesmo “mal” que
assola Brian Tyler e John Powell. O crescente aumento na
procura destes compositores, e também os prazos que se
tornam relativamente mais apertados, faz com que, cada vez
mais, caras como Tyler e Giacchino pareçam estar
simplesmente jogando notas na partitura, sem que haja um
sentido maior por trás. A demanda excede a criatividade.
Em Speed Racer,
Giacchino é extremamente repetitivo. Ele desdobra uma
pequena idéia em uma faixa de quatro minutos, mas não faz
isso de forma elegante. Vai repetindo e repetindo
simplesmente os padrões. Enfim, fazendo a trilha se tornar
cansativa, pois soa tudo muito parecido. Tem faixas que
parecem simplesmente ser prolongamento de outras. Quando ele
apresenta algo novo, bate tanto em cima daquela mesma idéia
em uma única faixa que já satura. Tudo bem que há uma idéia
de circuito sempre presente, pois a corrida de carros é algo
cíclico, mas incorporar isso como estética musical é ir ao
encontro da conveniência. É ficar reaproveitando e repetindo
pouco material composto com a justificativa de que essa é
uma interpretação dos circuitos de corrida. Não sei se essa
foi a leitura do compositor sobre o filme de fato, mas a
questão é que muitos compositores tem buscado justificar
obras simplistas, que chegam a tanger o minimalismo, dizendo
que a interpretação deles foi essa. Apelar para o lado
transcendental da arte, e dizer que se deve enxergar além da
imagem, já está virando clichê. Essa coisa de dizer que mais
é menos, e menos é mais, de afirmar que um motivo de duas
notas muitas vezes é melhor do que um tema complexo; de
falar que a grandiosidade de uma orquestra de 100 músicos
afasta o público da música e que por isso se deve priorizar
o uso de instrumentos mais simples; isso tudo já virou
clichê. É verdade que certos momentos pedem uma composição
mais modesta, mas carregar essa idéia minimalista como
bandeira sempre, me parece ser um recurso achado para não
ser taxado de improdutivo. E o pior é que ainda assinam
embaixo. Santaolalla que o diga, já foi vencedor duas vezes
do Oscar por trilhas medíocres. Não desmerecendo o trabalho
dele, mas é evidente que existem muitos trabalhos bem mais
interessantes e melhor elaborados por aí.
O tema principal do filme é o mesmo do desenho animado, com
alguma variação apenas. Isso fica bem estampado pois ele é
muito utilizado na trilha, mesmo que em alguns momentos
apareça com algumas variações. Giacchino propõe novos temas
e motivos também durante o filme, mas nada convincente e
marcante como o tema original.
“I
am Speed Racer”, abre o disco. A faixa que possui menos de
40 segundos, e não apresenta um tema sequer, decepciona já
de cara. Com guitarra elétrica, cordas e celesta, descreve
um padrão de quatro notas (que pode ser melhor percebido nas
cordas). A faixa vai crescendo até um novo motivo de quatro
notas que se repete várias vezes de forma muito rápida, que
soa bem similar a algumas frases da composição "Czardas" de
Vittorio Monti. Aliás, essa trilha é cheia desses ostinatos
(padrões repetitivos).
“Thunderhead”
foi uma das faixas que mais gostei. O tema principal é
composto por seis notas, sempre tocado pelos metais. É
aventuresca, com um ar sapeca e levado às vezes, que de
certa forma reflete bem o caráter de Speed, sempre fazendo
manobras arriscadas, num misto de ousadia e imaturidade.
Aquela coisa irresponsável de adolescente, só que levada ao
extremo.
“Vroom
and Board” é interessante, porém é irritantemente tonal.
Cordas carregadas abrem a faixa, em seguida a flauta canta
uma melodia bonita em uma atmosfera que lembra um pouco algo
de Philipp Glass e também de Richard Band. O motivo
principal é um ostinato de cordas, tão simples que parece
mais um exercício de piano, aqueles padrões repetitivos que
você pratica para ganhar mais coordenação. Lá pelos 59
segundos inicia uma segunda seção da música, onde pizzicato
e metais dão um ar de desenho animado à faixa. Há uma menção
ao tema que a flauta tocou anteriormente só que aqui com um
pouco de variação. Em seguida entramos na parte mais triste
da faixa. Harpa, madeiras e cordas vão conduzindo este
momento, até que um crescendo abrupto a fecha.
“End of the First Leg” é a segunda faixa que mais gosto na
trilha. A linguagem orquestral, o clima sombrio e delicado,
lembra bastante James Horner. Inicia com flauta e trompas se
intercalando, em um tipo de pergunta e resposta, que aliás
me lembrou alguns momentos da recente trilha de Horner
As Crônicas de
Spiderwick. Cordas assumem em seguida, tocando acordes
menores e sinistros. Aos 57 segundos a flauta toca uma frase
breve e assombrosa, e a trompa responde em seguida. Uma
passagem de vibrafone abre para uma voz angelical que entra
para dar um toque ainda mais delicado e assombroso. Mais uma
vez soando parecido com Horner. A música segue e cresce um
pouco até acabar subitamente.
“Speed Racer” é a melhor faixa do disco. É uma versão
estilizada do tema original da série animada, cuja
composição é do japonês Nobuyoshi Koshibe. Giacchino
adiciona um pouco de seus próprios temas nessa faixa. É uma
faixa bem agradável de ouvir. Aliás, neste ponto eu tenho
que tirar o chapéu para Michael Giacchino, ele foi fiel ao
tema e faz menções ao clássico motivo de quatro notas “Go
Speed Racer”, não só aqui mas também várias vezes na trilha.
Esse foi o maior acerto neste trabalho.
No filme a trilha encaixa bem, mas para audição separada é
bastante cansativa. Como a maioria das faixas é mais animada
em andamento (mesmo que as vezes a abordagem seja tensa)
você acaba ouvindo a trilha toda. O tédio bate lá pelas
tantas pela repetitividade. É como um
dejá vu
constante, você passa se perguntando “Já ouvi isso antes?”.
É um score que
pode agradar alguns, e provocar aversão em outros. Não é uma
trilha que eu vá escutar por lazer, mas como já disse
anteriormente, serviu bem ao seu propósito dentro do filme,
e além disso conta com excelente mixagem e finalização,
deixando a qualidade sonora impecável. |