SPEED RACER
Música composta por Michael Giacchino

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo: 302 066 898 2
Lançamento: 2008
Faixas

1. I Am Speed
2. World’s Best Autopia
3. Thunderhead
4. Tragic Story of Rex Racer
5. Vroom and Board
6. World’s Worst Road Rage
7. Racing’s In Our Blood
8. True Heart of Racing
9. Casa Cristo
10. End of the First Leg
11. Taejo Turns Trixie
12. Bumper to Bumper, Rail to Rail
13. The Maltese Ice Cave
14. Go Speed, Go!
15. He Ain’t Heavy
16. 32 Hours
17. Grand Ol’ Prix
18. Reboot
19. Let Us Drink Milk
20. Speed Racer


Duração: 60:24
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Há um tempo atrás, eu ouvi rumores que um filme do Speed Racer estava sendo feito. Não dei muita bola pois a série japonesa em desenho animado, dos anos 1960, nunca me atraiu muito. Quando vi o trailer no cinema, percebi que não seria um filme comum. E de fato não foi. Fiquei impressionado com a forma como o filme foi exposto. Os irmãos Wachowski (da trilogia Matrix) fugiram daquela idéia tradicional do blockbuster, buscando um estilo que tange o que Robert Rodriguez fez em Spy Kids, utilizando uma linguagem “cartunesca”, tendendo ao absurdo, surreal, e ao mesmo tempo com muitos momentos cômicos. Essa estética já é usada há bastante tempo em filmes e seriados orientais, e também na maioria dos animes. Outra coisa que chama atenção no filme é a palheta de cores, que lembra um pouco os filmes de animação da Barbie, com cores ousadas, extremamente vivas e claras. Logo que começa o filme, isso causa um certo impacto visual, pois foge muito do comum. Passados alguns minutos você se acostuma com as extravagâncias e percebe que o filme pode ser genial se for visto com um olhar contemporâneo. Já para os mais conservadores, é bem difícil de digerir.

Muito antes do lançamento do filme, vi que Michael Giacchino seria o responsável pela partitura de Speed Racer, e fiquei com uma grande expectativa. Trilhas como Os Incríveis, Medal of Honor (videogame) e, mais recentemente, os créditos finais de Cloverfiled, refletem de forma clara o talento e a versatilidade de Giacchino. Quando saiu a trilha, percebi que eu havia superestimado o compositor, e que a trilha apresenta nada mais que alguns clichês musicais, além de um novo arranjo para o tema original de Speed Racer, o mesmo que tocava na abertura da série original e que é o ponto mais alto desta trilha.

É bem verdade que nos últimos anos Giacchino tem sido bastante requisitado para inúmeros projetos, incluindo séries de TV como Lost, filmes diversos (neles incluídos os do diretor/produtor J.J. Abrams, do qual é colaborador habitual) e também alguns videogames como Medal of Honor e Call of Duty. Logo, é provável que esteja sofrendo do mesmo “mal” que assola Brian Tyler e John Powell. O crescente aumento na procura destes compositores, e também os prazos que se tornam relativamente mais apertados, faz com que, cada vez mais, caras como Tyler e Giacchino pareçam estar simplesmente jogando notas na partitura, sem que haja um sentido maior por trás. A demanda excede a criatividade.

Em Speed Racer, Giacchino é extremamente repetitivo. Ele desdobra uma pequena idéia em uma faixa de quatro minutos, mas não faz isso de forma elegante. Vai repetindo e repetindo simplesmente os padrões. Enfim, fazendo a trilha se tornar cansativa, pois soa tudo muito parecido. Tem faixas que parecem simplesmente ser prolongamento de outras. Quando ele apresenta algo novo, bate tanto em cima daquela mesma idéia em uma única faixa que já satura. Tudo bem que há uma idéia de circuito sempre presente, pois a corrida de carros é algo cíclico, mas incorporar isso como estética musical é ir ao encontro da conveniência. É ficar reaproveitando e repetindo pouco material composto com a justificativa de que essa é uma interpretação dos circuitos de corrida. Não sei se essa foi a leitura do compositor sobre o filme de fato, mas a questão é que muitos compositores tem buscado justificar obras simplistas, que chegam a tanger o minimalismo, dizendo que a interpretação deles foi essa. Apelar para o lado transcendental da arte, e dizer que se deve enxergar além da imagem, já está virando clichê. Essa coisa de dizer que mais é menos, e menos é mais, de afirmar que um motivo de duas notas muitas vezes é melhor do que um tema complexo; de falar que a grandiosidade de uma orquestra de 100 músicos afasta o público da música e que por isso se deve priorizar o uso de instrumentos mais simples; isso tudo já virou clichê. É verdade que certos momentos pedem uma composição mais modesta, mas carregar essa idéia minimalista como bandeira sempre, me parece ser um recurso achado para não ser taxado de improdutivo. E o pior é que ainda assinam embaixo. Santaolalla que o diga, já foi vencedor duas vezes do Oscar por trilhas medíocres. Não desmerecendo o trabalho dele, mas é evidente que existem muitos trabalhos bem mais interessantes e melhor elaborados por aí.

O tema principal do filme é o mesmo do desenho animado, com alguma variação apenas. Isso fica bem estampado pois ele é muito utilizado na trilha, mesmo que em alguns momentos apareça com algumas variações. Giacchino propõe novos temas e motivos também durante o filme, mas nada convincente e marcante como o tema original.

I am Speed Racer”, abre o disco. A faixa que possui menos de 40 segundos, e não apresenta um tema sequer, decepciona já de cara. Com guitarra elétrica, cordas e celesta, descreve um padrão de quatro notas (que pode ser melhor percebido nas cordas). A faixa vai crescendo até um novo motivo de quatro notas que se repete várias vezes de forma muito rápida, que soa bem similar a algumas frases da composição "Czardas" de Vittorio Monti. Aliás, essa trilha é cheia desses ostinatos (padrões repetitivos).

Thunderhead” foi uma das faixas que mais gostei. O tema principal é composto por seis notas, sempre tocado pelos metais. É aventuresca, com um ar sapeca e levado às vezes, que de certa forma reflete bem o caráter de Speed, sempre fazendo manobras arriscadas, num misto de ousadia e imaturidade. Aquela coisa irresponsável de adolescente, só que levada ao extremo.

Vroom and Board” é interessante, porém é irritantemente tonal. Cordas carregadas abrem a faixa, em seguida a flauta canta uma melodia bonita em uma atmosfera que lembra um pouco algo de Philipp Glass e também de Richard Band. O motivo principal é um ostinato de cordas, tão simples que parece mais um exercício de piano, aqueles padrões repetitivos que você pratica para ganhar mais coordenação. Lá pelos 59 segundos inicia uma segunda seção da música, onde pizzicato e metais dão um ar de desenho animado à faixa. Há uma menção ao tema que a flauta tocou anteriormente só que aqui com um pouco de variação. Em seguida entramos na parte mais triste da faixa. Harpa, madeiras e cordas vão conduzindo este momento, até que um crescendo abrupto a fecha.


“End of the First Leg” é a segunda faixa que mais gosto na trilha. A linguagem orquestral, o clima sombrio e delicado, lembra bastante James Horner. Inicia com flauta e trompas se intercalando, em um tipo de pergunta e resposta, que aliás me lembrou alguns momentos da recente trilha de Horner As Crônicas de Spiderwick. Cordas assumem em seguida, tocando acordes menores e sinistros. Aos 57 segundos a flauta toca uma frase breve e assombrosa, e a trompa responde em seguida. Uma passagem de vibrafone abre para uma voz angelical que entra para dar um toque ainda mais delicado e assombroso. Mais uma vez soando parecido com Horner. A música segue e cresce um pouco até acabar subitamente.

“Speed Racer” é a melhor faixa do disco. É uma versão estilizada do tema original da série animada, cuja composição é do japonês Nobuyoshi Koshibe. Giacchino adiciona um pouco de seus próprios temas nessa faixa. É uma faixa bem agradável de ouvir. Aliás, neste ponto eu tenho que tirar o chapéu para Michael Giacchino, ele foi fiel ao tema e faz menções ao clássico motivo de quatro notas “Go Speed Racer”, não só aqui mas também várias vezes na trilha. Esse foi o maior acerto neste trabalho.

No filme a trilha encaixa bem, mas para audição separada é bastante cansativa. Como a maioria das faixas é mais animada em andamento (mesmo que as vezes a abordagem seja tensa) você acaba ouvindo a trilha toda. O tédio bate lá pelas tantas pela repetitividade. É como um dejá vu constante, você passa se perguntando “Já ouvi isso antes?”. É um score que pode agradar alguns, e provocar aversão em outros. Não é uma trilha que eu vá escutar por lazer, mas como já disse anteriormente, serviu bem ao seu propósito dentro do filme, e além disso conta com excelente mixagem e finalização, deixando a qualidade sonora impecável.

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