The Spiderwick ChRonicles
Música composta por James Horner

Selo: Lakeshore Records
Catálogo: LKS 33980
Lançamento: 2008
Faixas

1. Writing the Chronicles
2. So Many New Worlds Revealed
3. Thimbletack and the Goblins
4. Hogsqueal's Warning of a Bargain With Mulgarath
5. Discovering Spiderwick's Secret Workshop
6. Dark Armies from the Forest Attack
7. Burning the Book
8. A Desperate Run Through the Tunnels
9. Lucinda's Story
10. The Flight of the Griffin
11. Escape from the Glade
12. The Protective Circle Is Broken...!
13. Jared and Mulgarath Fight for the Chronicles
14. Coming Home
15. Closing Credits

Duração: 71:30
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 
Com as, por assim dizer, férias prolongadas de John Williams, desde 2005 o veterano compositor não nos agracia com novos scores, e como Danny Elfman parece estar enfrentando uma fase de poucas oportunidades para trilhar filmes interessantes, acabamos ficando sem boas trilhas de fantasia, magia. Aqui entra nosso bom e velho James Horner. Um dos compositores mais controversos de Hollywood, ele é constantemente acusado de plagiar a si mesmo. Apesar de todos as criticas, Horner ainda é um dos meus compositores favoritos de todos os tempos, ficando na minha lista pessoal ao lado de John Williams, Jerry Goldsmith e John Debney. Já fazia algum tempo que o maestro Horner não andava pelas terras da magia e da fantasia, lugar que foi praticamente seu habitat durante uma boa parte de sua carreira, com trilhas como Fievel - Um Conto Americano, Em Busca do Vale Encantado, Pagemaster – O Mestre da Fantasia, Balto, Willow, Jumanji e por aí vai. Horner mostra aqui que toda a sua experiência e grande know-how fazem muita diferença. Dá para sentir um score maduro e muito consistente.

Em geral, quando uma produtora anuncia que um compositor do calibre de Horner, com uma bagagem tão magnífica, estará por trás do score do filme tal, isso me traz grandes expectativas, e devo confessar que quando soube que Horner seria o homem encarregado de compor para As Crônicas de Spiderwick eu pensei: “Que bom que ainda existem diretores com juízo e bom gosto”. Devo falar que ando um tanto decepcionado com a forma como os diretores deliberadamente encarregam compositores de baixo calibre para grandes produções, como foi o caso de Nicholas Hooper em Harry Potter e Aaron Zigman em A Ponte para Terabithia. São bons compositores, mas não fizeram nada que algum outro compositor qualquer teria feito. E ai é que está a diferença, nomes como Horner e Williams fazem um trabalho único. Quando você ouve uma trilha de um deles, a primeira coisa que pensa é “outro compositor não teria feito melhor”, e este acho que é um diferencial. Como tal, esta trilha transborda magia, e incorpora quase todos os clichês orquestrais mais comuns de Horner. Escolhi algumas faixas para comentar em detalhes.

“Writing the Chronicles” abre o álbum em clima misterioso, criando um motivo que se repete varias vezes, feito de duas partes, a primeira acordes bem graves menores provavelmente tocado pelo cello, baixo, trompa e fagote, vamos chamar esta de parte A. Em seguida, um acorde parecido se repete nos violinos e madeiras, esta será a parte B. O padrão se repete indo dos graves paro o agudo, só que esse agudo fica cada vez mais agudo, sendo que a partir de um certo ponto os violinos começam a fazer glissandos. Começa então a faixa efetivamente com um motivo de trompa tocado com harmonia em bloco a melodia, ou seja, a melodia é expressada através da própria construção da harmonia. Temos em seguida momentos que lembram um pouco A Loja Mágica de Brinquedos, até chegar em 1:45 quando o padrão de cordas é muito parecido com os de John Williams na trilha Star Wars. Logo após esse momento, ele repete o motivo do começo da faixa, só que numa versão mais alegre conduzindo a faixa até o final.

A próxima faixa, “So Many Worlds Revealed”, é uma das minhas favoritas do álbum, sombria, misteriosa, repleta de acordes menores, começando com madeiras e celesta tocando um motivo todo em acordes menores, em seguida entram as cordas e tocam uma espécie de variação do motivo. Logo ruídos orquestrais entram junto com frases muito rápidas, que levam a um crescendo. O clima acalma por um momento para culminar em outro crescendo, desta vez mais discreto. Agora a faixa se mantém mais misteriosa até chegar numa variação do motivo principal da trilha, por volta de 1:34. Novamente a tensão é quebrada e agora Horner nos conduz através de um tema extremamente melodioso e bonito. A alegria dura pouco e o mistério volta aos 2:33, com trompas e cordas tocando uma harmonia enigmática. Flauta, celesta e harpa colorem os próximos momentos da trilha até entrar uma nova variação do motivo principal da trilha, culminando com uma evolução harmônica até um crescendo. O clima de filme infantil está de volta, uma melodia de trompa e variações da parte B do motivo principal ficam se alternando. Essa variação motívica vai até o final, agora temos de novo Parte A e B tocadas em seqüência. A cada parte A um diferente instrumento toca uma breve frase, na parte B as cordas seguem fazendo glissandos para chegar no acorde desejado junto com glockenspiel, que dá uma idéia de “sino suave”. Seguindo assim até o final.

“Desperate Run Through The Tunnel” é outra faixa que eu gosto muito. Inicia com Corne Inglês cantando uma melodia suave, logo entram os violinos fazendo arpegios bem misteriosos, ao poucos um snare drum vai marcando um ritmo de marcha, conduzindo até uma breve intervenção dos violinos para em seguida começar um outro momento, onde há um ostinato melódico nas cordas e metais bem ao estilo Goldsmith em As Minas do Rei Salomão. Em seguida as cordas desenvolvem uma pequena idéia aventuresca, levando a um tema alegre de trompa que expõe apenas breves linhas de uma melodia que vamos ouvir bastante na trilha, havendo então um momento de tensão muito forte. Em seguida cellos vão conduzir um novo motivo. Os violinos vão entrando aos poucos complementando as linhas do cello, a viola entra fazendo dobradura das linhas do cello. A tensão volta para culminar em um momento de apoteose aos 3:26, este é o momento Elfman da trilha. Orquestração e frases musicais aqui são muito parecidas com a trilha de Batman. É neste clima agitado que se encaminha um crescendo que marca o fim da faixa.

Basicamente, quase todos os motivos do score são apresentados nessas faixas. Curiosidade, na faixa “Coming Home” aos 3:10, um pequeno motivo de piano é uma variação perfeita da melodia de “Casper Lullaby” da trilha do filme Gasparzinho, composta também por Horner. Nosso velho amigo não consegue resistir ao auto-plágio mesmo. Enfim, uma trilha com tantos momentos renderia provavelmente um livro de 50 páginas só com comentários sobre composição e orquestração. Em linhas gerais, As Crônicas de Spiderwick é uma trilha excelente, sem dúvida uma das melhores, senão a melhor propriamente, que ouvi em todo ano de 2007 e nestes três meses de 2008. Antes de ser lançada nas lojas foi vendida através do site iTunes para download em dezembro de 2007.

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