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Com as, por assim dizer, férias
prolongadas de
John Williams, desde 2005 o veterano compositor não nos
agracia com novos scores, e como
Danny Elfman
parece estar enfrentando uma fase de poucas oportunidades
para trilhar filmes interessantes, acabamos ficando sem boas
trilhas de fantasia, magia. Aqui entra nosso bom e velho
James Horner.
Um dos compositores mais controversos de Hollywood, ele é
constantemente acusado de plagiar a si mesmo. Apesar de
todos as criticas, Horner ainda é um dos meus compositores
favoritos de todos os tempos, ficando na minha lista pessoal
ao lado de John Williams,
Jerry
Goldsmith e John Debney. Já fazia algum tempo que o
maestro Horner não andava pelas terras da magia e da
fantasia, lugar que foi praticamente seu habitat
durante uma boa parte de sua carreira, com trilhas como
Fievel - Um Conto Americano, Em Busca do Vale
Encantado, Pagemaster – O Mestre da Fantasia,
Balto, Willow, Jumanji e por aí vai.
Horner mostra aqui que toda a sua experiência e grande
know-how fazem muita diferença. Dá para sentir um
score maduro e muito consistente.
Em geral, quando uma produtora anuncia que um compositor do
calibre de Horner, com uma bagagem tão magnífica, estará por
trás do score do filme tal, isso me traz grandes
expectativas, e devo confessar que quando soube que Horner
seria o homem encarregado de compor para As Crônicas de
Spiderwick eu pensei: “Que bom que ainda existem
diretores com juízo e bom gosto”. Devo falar que ando um
tanto decepcionado com a forma como os diretores
deliberadamente encarregam compositores de baixo calibre
para grandes produções, como foi o caso de Nicholas Hooper
em
Harry Potter e Aaron Zigman em
A Ponte para Terabithia. São bons compositores,
mas não fizeram nada que algum outro compositor qualquer
teria feito. E ai é que está a diferença, nomes como Horner
e Williams fazem um trabalho único. Quando você ouve uma
trilha de um deles, a primeira coisa que pensa é “outro
compositor não teria feito melhor”, e este acho que é um
diferencial. Como tal, esta trilha transborda magia, e
incorpora quase todos os clichês orquestrais mais comuns de
Horner. Escolhi algumas faixas para comentar em detalhes.
“Writing the Chronicles” abre o álbum em clima misterioso,
criando um motivo que se repete varias vezes, feito de duas
partes, a primeira acordes bem graves menores provavelmente
tocado pelo cello, baixo, trompa e fagote, vamos chamar esta
de parte A. Em seguida, um acorde parecido se repete nos
violinos e madeiras, esta será a parte B. O padrão se repete
indo dos graves paro o agudo, só que esse agudo fica cada
vez mais agudo, sendo que a partir de um certo ponto os
violinos começam a fazer glissandos. Começa então a faixa
efetivamente com um motivo de trompa tocado com harmonia em
bloco a melodia, ou seja, a melodia é expressada através da
própria construção da harmonia. Temos em seguida momentos
que lembram um pouco A Loja Mágica de Brinquedos, até
chegar em 1:45 quando o padrão de cordas é muito parecido
com os de John Williams na trilha Star Wars. Logo
após esse momento, ele repete o motivo do começo da faixa,
só que numa versão mais alegre conduzindo a faixa até o
final.
A próxima faixa, “So Many Worlds Revealed”, é uma das minhas
favoritas do álbum, sombria, misteriosa, repleta de acordes
menores, começando com madeiras e celesta tocando um motivo
todo em acordes menores, em seguida entram as cordas e tocam
uma espécie de variação do motivo. Logo ruídos orquestrais
entram junto com frases muito rápidas, que levam a um
crescendo. O clima acalma por um momento para culminar em
outro crescendo, desta vez mais discreto. Agora a faixa se
mantém mais misteriosa até chegar numa variação do motivo
principal da trilha, por volta de 1:34. Novamente a tensão é
quebrada e agora Horner nos conduz através de um tema
extremamente melodioso e bonito. A alegria dura pouco e o
mistério volta aos 2:33, com trompas e cordas tocando uma
harmonia enigmática. Flauta, celesta e harpa colorem os
próximos momentos da trilha até entrar uma nova variação do
motivo principal da trilha, culminando com uma evolução
harmônica até um crescendo. O clima de filme infantil está
de volta, uma melodia de trompa e variações da parte B do
motivo principal ficam se alternando. Essa variação motívica
vai até o final, agora temos de novo Parte A e B tocadas em
seqüência. A cada parte A um diferente instrumento toca uma
breve frase, na parte B as cordas seguem fazendo glissandos
para chegar no acorde desejado junto com glockenspiel, que
dá uma idéia de “sino suave”. Seguindo assim até o final.
“Desperate Run Through The Tunnel” é outra faixa que eu
gosto muito. Inicia com Corne Inglês cantando uma melodia
suave, logo entram os violinos fazendo arpegios bem
misteriosos, ao poucos um snare drum vai marcando um
ritmo de marcha, conduzindo até uma breve intervenção dos
violinos para em seguida começar um outro momento, onde há
um ostinato melódico nas cordas e metais bem ao estilo
Goldsmith em As Minas do Rei Salomão. Em seguida as
cordas desenvolvem uma pequena idéia aventuresca, levando a
um tema alegre de trompa que expõe apenas breves linhas de
uma melodia que vamos ouvir bastante na trilha, havendo
então um momento de tensão muito forte. Em seguida cellos
vão conduzir um novo motivo. Os violinos vão entrando aos
poucos complementando as linhas do cello, a viola entra
fazendo dobradura das linhas do cello. A tensão volta para
culminar em um momento de apoteose aos 3:26, este é o
momento Elfman da trilha. Orquestração e frases musicais
aqui são muito parecidas com a trilha de
Batman.
É neste clima agitado que se encaminha um crescendo que
marca o fim da faixa.
Basicamente, quase todos os motivos do score são
apresentados nessas faixas. Curiosidade, na faixa “Coming
Home” aos 3:10, um pequeno motivo de piano é uma variação
perfeita da melodia de “Casper Lullaby” da trilha do filme
Gasparzinho, composta também por Horner. Nosso velho
amigo não consegue resistir ao auto-plágio mesmo. Enfim, uma
trilha com tantos momentos renderia provavelmente um livro
de 50 páginas só com comentários sobre composição e
orquestração. Em linhas gerais, As Crônicas de Spiderwick
é uma trilha excelente, sem dúvida uma das melhores,
senão a melhor propriamente, que ouvi em todo ano de 2007 e
nestes três meses de 2008. Antes de ser lançada nas lojas
foi vendida através do site iTunes para download em
dezembro de 2007. |
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CDs COMENTADOS
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