STARDUST
Música composta por Ilan Eshkeri

Selo: Decca/Universal
Catálogo: B0009821-02
Lançamento: 2007
Faixas

1. Prologue (Through The Wall)
2. Snowdrop
3. Tristan
4. Shooting Star
5. Three Witches
6. Yvaine
7. Septimus
8. Creating The Inn
9. Lamia's Inn
10. Cap'n' Shakespeare
11. Flying Vessel
12. Cap'n's At The Helm
13. Tristan & Yvaine
14. Pirate Fight
15. The Mouse
16. Lamia's Lair
17. Lamia's Doll
18. Zombie Fight
19. The Star Shines
20. Coronation
21. Epilogue

Duração: 53:45
Cotação:


Comentário de
Renan Fersy

 

Stardust - O Mistério da Estrela foi um filme que não me atraiu, quando vi o trailer pela primeira vez. Tivemos uma boa safra de filmes de fantasia ano passado, como A Bússola de Ouro, Os Seis Signos da Luz e Piratas do Caribe - No Fim do Mundo, e pensei que Stardust não teria nada a acrescentar. Quando meu primeiro critério não é atendido pelo trailer do filme, eu parto para audição da trilha – é claro que as vezes eu inverto essa ordem, ouço primeira a trilha - e assim checar se o filme pode ter algo de interessante. O nome do desconhecido Ilan Eshkeri não me dizia muita coisa. O que viria pela frente poderia ser tanto uma obra prima, como foi o caso de Dario Marianelli (vencedor do último Oscar por melhor trilha sonora em Atonement) em sua estréia Hollywoodiana Os Irmãos Grimm, ou uma trilha fraquinha como a estréia de de Nicholas Hooper em Harry Potter e a Ordem da Fênix. Ilan Eshkeri superou minhas expectativas com uma trilha excelente. Não chega aos pés de Os Irmãos Grimm – que na minha opinião se tornou uma referência em qualidade de composição e orquestração requintada, – mas cumpre seu papel com êxito e ainda é muita agradável para audição isolada do filme.

Muitos compositores, no intuito de inovar ou então querendo quebrar com clichês mais comuns nas trilhas de fantasia, acabam abandonando elementos essenciais a um filme do gênero. Ilan Eshkeri não cometeu esse erro. A trilha de Stardust tem todos os principais clichês e elementos que uma trilha de fantasia deve ter. O que na minha concepção é muito bom. Elementos esses que estão tanto na estrutura musical (melodia e harmonia) como também na orquestração. Passagens mágicas de celesta e flauta. Arpeggios e glissandos de harpa. Temas de madeiras e trompas, pizzicatos, e harmonias bem Pós-Tonais são apenas uma parte de a toda magia que está por vir. A seguir analiso algumas faixas, as que considero mais importantes em material temático de toda trilha.

Em "Prologue (Through The Wall)", celesta, harpa, e violinos em tremolos abrem a faixa. Wind chimes ao fundo reforçam a textura mágica para as trompas entrarem, com um tema que me lembra brevemente De Volta para o Futuro de Alan Silvestri. O coro entra cantando uma harmonia mágica e misteriosa. Os violinos voltam, junto com cello e baixo em pizzicato. O coro passa a cantar mais suave, deixando as cordas em evidência, em seguida a entrada de um oboé. Vamos seguindo com cordas e trompetes, e trombones ao fundo fazem stacatos para auxiliar na marcação. Após temos uma calmaria, e arpeggios no cello que toca em pizzicato. Há uma “virada” aos 2:07 no melhor estilo John Williams. As cordas voltam para reforçar o ostinato que já vinham tocando, para convergir em um clima meio "cigano" com uma percussão mais africana. Cordas e fagote sustentam uma longa nota e entra o oboé com um motivo suave e misterioso, que vai se propagando por outros instrumentos e atrás de diminuendo a faixa nos deixa.

"Shooting Star" é um dos temas de ação e aventura da trilha. Começa calma nas cordas e trompa. Em seguida as cordas nos deixam e a trompa segue na melodia, enquanto os violinos em tremolo dão sustentação. Um glissando de harpa muito rápido, abre para as cordas entrarem com frases rápidas, que um pouco me lembra "The Dark Mark" da trilha de Harry Potter e o Cálice de Fogo, de Patrick Doyle. Em seguida temos um momento mais melodioso, coro, trompete, viola e violinos na melodia. Baixo, cello e trompa fazem o fundo. Logo o corne inglês entra com uma melodia suave, em seguida clarinete toca algumas linhas e num novo momento, cordas fazem um recall da melodia que tocaram antes. O final se aproxima, cordas e metais – e algumas madeiras dobrando as linhas de metais de forma discreta - vão criando uma textura mágica e se encaminhando para o final.

"Three Witches" é o tema das três bruxas, principais vilãs do filme. Ele toda vez que Lamia esfrega seu anel e volta ao castelo onde vive com suas outras duas irmãs bruxas. Dentro do castelo, a cada vez que ela volta, há um clima de feitiçaria e poder muito grande. Dá pra notar que o diretor quis dar a idéia de que aquilo é uma espécie de reunião de anciões clássicos em filmes de fantasia, onde os mais sábios e poderosos se encontram para decidir o que deve ser feito. Isso era o que eu sentia a cada conversa entre as irmãs. Um rolo de timpani abre a faixa, para depois cello e baixo tocarem um ostinato bem sinistro, que lembra um pouco o ritmo de marcha. Então violinos e flauta, oboé e clarinete entram na harmonia, em registro agudo. Após dois ou três acordes o registro torna-se grave com cello, viola e violinos, e aparentemente junto ao baixo um clarinete baixo e provavelmente o fagote estão junto. Mais uma vez a marcação de cello e baixo. Em seguida tremolo de corda, harpa e o coro bem no fundo, quase imperceptível, criam uma textura mágica e assombrosa. Após isso o cello, dobrado pela clarineta baixo, chega fazendo uma frase que vai subindo e termina com apenas os violinos no tremolo, uma breve pausa. Os violinos repetem a frase ascendente que antes o cello tocou, acompanhados de trompete e trombone tocados bem suave, enquanto o baixo é tocado de forma bem aveludada. O cello e acredito que as trompas fazem a harmonia. Em seguida temos um momento com coral, bem intenso e mágico, que vai até o fim.

"Lamia's Inn" é a faixa mais longa do CD, e também controversa. Metais e cordas, apoiados em uma forte percussão, abrem a faixa em um movimento grandioso e assombroso ao mesmo tempo. A harmonia é muito interessante, nenhum acorde diatônico nessa passagem, ou seja nenhum dos acordes têm relação tonal entre si. Clarineta e cordas tocam alguns acordes em crescendos e decrescendo. Entra a flauta predominante na harmonia, junto com cordas, e a harpa toca um motivo. Logo entra fagote, baixo e cello. O oboé toca uma frase, a clarineta responde, e em seguida a flauta assume. Após alguns momentos de trompas e cordas tocando apenas a harmonia em dinâmicos crescentes e decrescentes, o contra fagote apresenta uma frase. Cello e clarinete dobram a próxima frase, para então o retorno da harpa. Metais e cordas dissonantes e por fim uma nota bem grave de contra fagote nos conduzem para outra seção da faixa. Aqui está a parte controversa. Algumas pessoas acreditam que o diretor tenha usado como temp track (faixa temporária que normalmente diretores elegem como guia para a cena, antes de a trilha original estar pronta) a trilha de Drácula de Bram Stoker, principalmente a faixa "Vampire Hunters", pois a semelhança é muito escancarada. Não apenas o ritmo, mas a instrumentação também é a mesma. Cordas em registro tenor (mais para média e grave, do que para agudo) dando o ritmo de marcha, e contra fagote fazendo solo. Provavelmente aconteceu o seguinte: o diretor gostou tanto da temp track que pediu ao compositor que fizesse algo o mais próximo possível. Não condeno isso, nem acho negativo. Até porque sou muito fã dessa trilha do mestre Wojciech Kilar, e ouvir qualquer passagem que me remeta a esta trilha é uma experiência agradabilíssima, desde que seja um trabalho bem feito - como é o caso aqui. Ilan Eshkeri criou o tema com maestria. Não é fácil se manter dentro uma linha previamente limitada e preservar a criatividade. O pior é ter que fazer um tema parecido, sem que soe "igual". Ele conseguiu soar muito parecido, mas a diferença temática ainda existe. Depois desse momento temos alguns momentos com metais e cordas, em seguida o ritmo de marcha retorna, e agora cordas e metais vão fazer recalls de algumas idéias antes expostas pelo contra fagote. E assim segue para o fim de uma das faixas mais interessantes do CD.

"Cap'n's at the Helm" é uma faixa heróica, tema do nosso capitão homossexual enrustido interpretado por Robert de Niro. A faixa lembra temas aventurescos como os de Piratas do Caribe, e foi também associada por alguns críticos à "Overture" de Robin Hood Prince of Thieves, de Michael Kamen. Plágios a parte, a faixa é muito interessante e apesar de curta traduz bem o espírito que reina a abordo do navio voador. O tema é basicamente tocado por cordas dobrando trompete, e em seguida a trompa apresenta uma resposta ao tema. O ciclo repete, sendo que dá para se ouvir uma frase bem rápida de flauta entre um e outro. Aos 0:24 começa uma subida de metais, então as cordas acompanhando com frases rápidas em crescendo até a percussão marcar a chegada ao ápice e retorno à calmaria. E é suavemente que a faixa vai se esvaindo.

Para fechar, "Epilogue" é um andantino, calmo com um certo ar de Enya na harmonia tocante e um pouco celta. É um tema curto, mas que fecha com maestria e de forma emocionante o CD da trilha sonora de Stardust - O Mistério da Estrela.

Ilan Ehskeri provou ser um compositor muito competente, já tinha mostrado isso em Hannibal Rising, e aqui apenas confirmou. Com certeza podemos ter boas expectativas para seus próximos trabalhos. Stardust é uma trilha que com certeza estará na minha lista de preferidas por algum tempo.

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