STARGATE: DELUXE EDITION
Música composta por David Arnold, regida por Nicholas Dodd

Selo: Varèse Sarabande
Catálogo:  302 066 743 2
Lançamento: 2006
Faixas

1. Stargate Overture
2. Wild Abduction*
3. Giza, 1928
4. Unstable
5. The Coverstones
6. Translation* and Orion
7. The Stargate Opens
8. You´re on the Team
9. Entering the Stargate
10. The Other Side
11. Bomb Assembly*
12. Mastadge Drag
13. The Mining Pit
14. King of the Slaves
15. Caravan to Nagada
16. The Eye of Ra*
17. Daniel and Shauri
18. Symbol Discovery
19. Sarcophagus Opens
20. Daniel´s Mastadge
21. Leaving Nagada
22. Ra - The Sun God
23. The Destruction of Nagada
24. Myth, Faith, Belief
25. Procession
26. Slave Rebellion
27. We Don´t Want to Die
28. Execution*
29. The Kiss* / The Seventh Symbol
30. Against the Gods*
31. Quartz Shipment
32. Battle at the Pyramid
33. Surrender
34. Transporter Horror*
35. Kasuf Returns
36. Going Home
37. Closing Titles (Intro)*
* Faixas previamente inéditas


Duração: 72:54
Cotação:


Comentário de
José-Vidal Rodriguez

 

O agora bondiano David Arnold chamou a atenção da crítica pela composição de uma ambiciosa obra que, para maior mérito, era a primeira de suas incursões no cinema comercial (se excluirmos a pouco conhecida The Young Americans). Praticamente desconhecido em 1994, o britânico foi o escolhido para realizar o score de Stargate, longa-metragem de ficção científica cuja popularidade beneficiou boa parte de sua equipe e inclusive originou uma bem sucedida franquia na televisão. O filme, obra de Roland Emmerich, com quem Arnold voltaria a colaborar em filmes posteriores, narra a descoberta em nosso dias de um portal estelar cifrado, que comunica nosso mundo com outro, uma espécie de Egito alternativo dominado por um faraó “Rá” que escraviza o povo graças à sua avançada tecnologia, e que terá de confrontar uma expedição de militares e cientistas ianques enviada para explorar o mundo recém descoberto.

As premissas das quais parte Arnold para musicar o filme mostram ser diáfanas desde o primeiro minuto do score: música poderosa, abertamente sinfônica, enfática e onde também predominam sutis passagens melódicas, além de um ou outro momento de certa comicidade e de lógicas referências arábicas ao peculiar aparelho descoberto. Ainda que, na época, alguns tenham comparado de maneira descabida o resultado musical deste
Stargate com o de Star Wars (mais pelo uso de certas texturas similares que por sua verdadeira transcendência artística), o certo é que a partitura resulta, em termos gerais, num trabalho muito qualificado para um músico principiante, com momentos pontuais de bom gosto épico, mas ainda assim não isento dos defeitos naturais de um encargo quase inicial como ele é.

Assim, e com a sempre envolvente Sinfonia of London encarregada da interpretação, o compositor inicia o trabalho com as sete notas do poderoso tema central, utilizado como abertura de porte absolutamente épico, apresentando já de saída esse estilo grandiloqüente e encorpado com o qual, a partir de então, podemos associar Arnold - e seu orquestrador / regente habitual Nicholas Dood. Igualmente, além dos imponentes acordes do motivo principal, se integram à faixa dois leitmotivs melhor desenvolvidos em composições posteriores: a sutil frase de cordas e madeiras associada ao descobrimento do portal (reproduzida com corais espetaculares em “Guiza, 1928”); e um interessante arranque vocal agressivo que encerra esta "Overture", recurso usado como contraponto musical ligado à malignidade do personagem Rá.

A esse respeito, um dos problemas deste score talvez seja o uso excessivo daquele belo tema central, diluindo um pouco o efeito épico inicial por sua repetição em demasia durante grande parte do álbum. Ainda que, para sermos justos, devamos reconhecer que Arnold o dissimula muito bem para diminuir o excessivo peso do tema no conjunto do trabalho, sobretudo a partir das dez primeiras faixas. As interessantes reversões que dele realiza o autor, variando sua orquestração, cadências e parte de seus acordes, se amoldam com grande eficácia a situações do filme que pouco tem a ver com a pretendida grandiosidade inicial do tema. Exemplos claros encontramos em "Mastadge Drag", onde é desenvolvido com maior brio e ritmo para musicar a ridícula cena de James Spader sendo arrastado por um curioso animal, e em "The Minning Pit”, outra rendição daqueles acordes centrais que nesta ocasião se apresentam em sua versão dramática, com um compasso mais pausado para enfatizar as penúrias de um povo escravizado pela tirania de Ra.

A primeira parte do CD carrega um tipo de música geralmente de corte militarista, com incisivas percussões e a introdução de uma frase associada à recém formada expedição (“You´re on the Team“), acompanhando também as seqüências de preparação do exército para conseguir decifrar o código que permita abrir o Stargate. Momento que chega em "The Stargate Opens”, reconduzindo o leitmotiv do portal anteriormente comentado a registros místicos e premonitórios, mediante o uso de uma excelente frase in crescendo e a doce exposição final do coral em “Abyss”. A passagem à dimensão desconhecida Arnold resolve com grande eficácia em "Entering the Stargate”, uma faixa trabalhada que tanto se apresenta tensa, como evolui para uma variação preciosista do tema do portal, e finalmente se encerra com dissonâncias e golpes de efeito que descrevem o trânsito final da equipe ao outro lado do Stargate. A partir do descobrimento daquele “novo mundo”, Arnold move a partitura para melodias de tom arábico, onde as orquestrações resumem esse halo étnico requerido pela paisagem desértica que tanto se assemelha ao Antigo Egito. É nesta parte intermediária do disco onde Arnold aposta numa corrente mais melodramática, mas sem deixar de lado o desenvolvimento de texturas francamente poderosas ("Procession”, "The Destruction of Nagada”) com o bem vindo suporte dos coros.

Também temos uma série de fragmentos onde o londrino demonstra certa classe e predisposição para o épico e melodias pomposas, em faixas de ação como “Quartz Shipment” ou a inédita “Transporter Horror”, que nos mostram um Arnold ainda com certas carências típicas de todo novato. Contínuas trocas rítmicas e uma estridência enganadora onde as orquestrações parecem seguir a teoria do “quanto mais, melhor”, tiram a força de uma partitura cuja primeira meia hora era francamente brilhante. A pomposidade destes temas, eficazes em sua simbiose com as cenas da batalha final contra as forças do maligno Ra, oculta por momentos certa monotonia harmônica que podemos perceber em sua audição isolada. Também é de se destacar as claras referências ao John Williams fanfárrico e vigoroso que salpicam nesta série de faixas de conclusão ("The Surrender”, por exemplo)

Igualmente, Arnold perde a oportunidade de escrever um love theme de maior transcendência que o ouvido em "The Kiss / The Seventh Symbol” (o antigo "Daniel and Shauri”), representativo da mais que previsível atração surgida entre o cientista e a bela escrava, que resolve o autor com demasiada simplicidade lírica como para realizar um tema de amor suficientemente retentivo, se o comparamos com as pretensões abertamente melódicas do trabalho. Ainda assim, a enésima mas bela apresentação do tema central em “Going Home”, acaba por deixar em nossa boca o bom sabor que a primeira metade do álbum pressagiava. Um trabalho que resulta bastante acertado em seu conjunto - ainda mais vindo de um principiante- com o qual David Arnold obteve uma merecida reputação que serviu para estabelecê-lo com firmeza em Hollywood. Ainda assim deve se reconhecer que esta sua segunda partitura para o cinema está longe de ser a obra-prima que muitos quiseram ver, ainda mais se a compararmos a trabalhos do compositor muito mais maduros e pessoais (
Tomorrow Never Dies e Last of the Dogmen, apenas para citar alguns).

Quanto aos temas inéditos incluídos nesta edição completa, poucos merecem destaque. Talvez a heróica reinterpretação do tema central escutada em “Closing Titles (Intro)” pudesse ser interessante, mesmo assim ela não passa de uma mera variação do comentado “Mastadge Drag” previamente disponível. O certo é que o score fora anteriormente lançado – já com uma generosa duração - pelo selo Milan, e agora a equipe da Varèse Sarabande disponibiliza esta dispensável "Deluxe Edition” que, oferecendo idêntica qualidade sonora, agrega nove minutos de música em relação à edição original. A conclusão parece óbvia: este novo CD é absolutamente dispensável para quem já adquiriu a edição antiga, ainda disponível e por um preço muito inferior a esta “Deluxe” saída do prolífico - e desta vez, descartável - forno da Varèse.

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