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O agora bondiano David
Arnold chamou a atenção da crítica pela composição de uma
ambiciosa obra que, para maior mérito, era a primeira de suas incursões
no cinema comercial (se excluirmos a pouco conhecida The Young Americans). Praticamente desconhecido
em 1994, o britânico foi o escolhido para realizar o score de Stargate, longa-metragem
de ficção científica cuja popularidade beneficiou boa parte de sua equipe e inclusive originou uma
bem sucedida franquia na televisão. O filme, obra de
Roland Emmerich, com quem Arnold voltaria a colaborar em
filmes posteriores, narra a descoberta em nosso dias de um portal estelar cifrado, que comunica nosso mundo com outro, uma espécie de Egito
alternativo dominado por um
faraó “Rá” que escraviza o povo graças à sua avançada tecnologia, e que terá
de confrontar uma expedição de militares e cientistas ianques
enviada para explorar o mundo recém descoberto.
As premissas das quais parte Arnold para musicar o filme mostram ser
diáfanas desde o primeiro minuto do score: música poderosa, abertamente
sinfônica, enfática e onde também predominam sutis passagens
melódicas, além de um ou outro momento de certa comicidade e de
lógicas referências arábicas ao peculiar aparelho descoberto. Ainda que,
na época, alguns tenham comparado de maneira descabida o resultado
musical deste Stargate
com o de Star Wars
(mais pelo uso de
certas texturas similares que por sua verdadeira transcendência
artística), o certo é que a partitura resulta, em termos gerais,
num trabalho muito qualificado para um músico principiante, com momentos pontuais de bom gosto épico,
mas ainda assim não isento dos defeitos naturais de um encargo quase
inicial como ele é.
Assim, e com a sempre envolvente Sinfonia of London encarregada da
interpretação, o compositor inicia o trabalho com as
sete notas do poderoso tema central, utilizado como abertura de porte
absolutamente épico, apresentando já de saída esse estilo grandiloqüente
e encorpado com o qual, a partir de então, podemos associar Arnold - e seu orquestrador
/ regente habitual Nicholas Dood. Igualmente, além dos
imponentes acordes do motivo principal, se integram à faixa dois leitmotivs
melhor
desenvolvidos em composições posteriores: a sutil
frase de cordas e madeiras associada ao descobrimento do portal (reproduzida
com corais espetaculares em “Guiza, 1928”); e um interessante arranque vocal agressivo que
encerra esta "Overture",
recurso usado como contraponto musical ligado à malignidade do
personagem Rá.
A esse respeito, um dos problemas deste score talvez seja o uso
excessivo daquele belo tema central, diluindo um pouco o efeito épico inicial por
sua
repetição em demasia
durante grande parte do álbum. Ainda que, para sermos justos, devamos reconhecer
que Arnold o dissimula muito bem para diminuir o excessivo peso do
tema no conjunto do trabalho, sobretudo a partir das dez
primeiras faixas. As interessantes reversões que dele realiza o
autor, variando sua orquestração, cadências e parte de seus acordes, se amoldam com grande eficácia a situações do filme que pouco tem
a
ver com a pretendida grandiosidade inicial do tema. Exemplos claros
encontramos em "Mastadge Drag", onde é desenvolvido com maior brio
e ritmo para musicar a ridícula cena de
James Spader sendo arrastado por um curioso animal, e em "The Minning Pit”,
outra rendição daqueles acordes centrais que nesta ocasião se
apresentam em sua versão dramática, com um compasso mais pausado para
enfatizar as penúrias de um povo escravizado pela tirania de Ra.
A primeira parte do CD carrega um tipo de música geralmente
de corte militarista, com incisivas percussões e a introdução de uma
frase associada à recém formada expedição (“You´re on the Team“),
acompanhando também as seqüências de preparação do exército para
conseguir decifrar o código que permita abrir o Stargate. Momento que
chega em "The Stargate Opens”, reconduzindo o leitmotiv do portal anteriormente comentado a registros místicos
e premonitórios,
mediante o uso de uma excelente frase in crescendo e a doce
exposição final do coral em “Abyss”. A passagem à dimensão
desconhecida Arnold resolve com grande eficácia em "Entering the Stargate”, uma
faixa trabalhada que tanto se apresenta tensa, como
evolui para uma variação preciosista do tema do portal, e
finalmente se encerra com dissonâncias e golpes de efeito que descrevem
o
trânsito final da equipe ao outro lado do Stargate.
A partir do descobrimento daquele “novo mundo”, Arnold move a partitura
para melodias de tom arábico, onde as orquestrações
resumem esse halo étnico requerido pela paisagem desértica que tanto se assemelha ao
Antigo Egito. É nesta parte intermediária do disco onde Arnold aposta
numa corrente mais melodramática, mas sem deixar de
lado o desenvolvimento de texturas francamente poderosas ("Procession”,
"The Destruction of Nagada”) com o bem vindo suporte dos coros.
Também temos uma série de fragmentos onde o londrino demonstra
certa classe e predisposição para o épico e melodias pomposas, em faixas
de ação como “Quartz Shipment” ou a inédita “Transporter
Horror”, que nos mostram um Arnold ainda com certas carências típicas de todo novato. Contínuas
trocas rítmicas e uma estridência enganadora onde as
orquestrações parecem seguir a teoria do “quanto mais, melhor”, tiram a
força de
uma partitura cuja primeira meia hora era francamente brilhante.
A pomposidade destes temas, eficazes em sua simbiose com as cenas da batalha final contra
as forças do maligno Ra, oculta
por momentos certa monotonia harmônica que podemos perceber em sua audição
isolada. Também é de se destacar as claras referências ao
John
Williams fanfárrico e vigoroso que salpicam nesta série de
faixas
de conclusão ("The Surrender”, por exemplo)
Igualmente, Arnold perde a oportunidade de escrever um love theme
de maior transcendência que o ouvido em "The Kiss / The Seventh
Symbol” (o antigo "Daniel and Shauri”), representativo da mais que previsível atração surgida entre
o cientista e a bela escrava, que
resolve o autor com demasiada simplicidade lírica como para realizar um tema de amor suficientemente retentivo, se
o comparamos com as
pretensões abertamente melódicas do trabalho.
Ainda assim, a enésima mas bela apresentação do tema central em
“Going Home”, acaba por deixar em nossa boca o bom sabor que a primeira
metade do álbum pressagiava. Um trabalho que resulta bastante acertado em
seu conjunto - ainda mais vindo de um principiante- com o qual David
Arnold obteve uma merecida reputação que serviu para estabelecê-lo com
firmeza em Hollywood. Ainda assim deve se reconhecer que esta sua segunda
partitura para o cinema está longe de ser a obra-prima que muitos
quiseram ver, ainda mais se a compararmos a trabalhos do compositor
muito mais maduros e pessoais (Tomorrow
Never Dies
e Last of the Dogmen, apenas para citar alguns).
Quanto aos temas inéditos incluídos nesta edição completa, poucos
merecem destaque. Talvez a heróica reinterpretação do
tema central escutada em “Closing Titles (Intro)” pudesse ser interessante,
mesmo assim ela não passa de uma mera variação do comentado
“Mastadge Drag” previamente disponível. O certo é que o score
fora anteriormente lançado – já com uma generosa duração - pelo selo Milan,
e agora a equipe da Varèse Sarabande disponibiliza esta
dispensável "Deluxe Edition” que, oferecendo idêntica qualidade
sonora, agrega nove minutos de música em relação à edição original. A
conclusão parece óbvia: este novo CD é absolutamente
dispensável para quem já adquiriu a edição antiga, ainda disponível e
por um preço muito
inferior a esta “Deluxe” saída do prolífico - e desta vez,
descartável - forno da Varèse. |